Текст
                    QUÍOSQUE LÍTERÂRiO
Aprender Português com a Literatura
QECR Níveis B2/C1/C2
Organização de:
Ana Bela Almeida Gonçalo Duarte Joana Meirim
LIDEL



Quiosque literário aprender português com a literatura Organização de: Ana Bela Almeida Gonçalo Duarte Joana Meirim Prefácio de: Anna M. Klobucka EMPRESA PROMOTORA DA UNGUA PORTUGUESA Lidei - edlçBes técnicas, Ida www.lldel.pt
ÍNDICE (D Lidei - Edições Técnicas, Lda. Prefácio V Introdução VII Acordo ortográfico IX Sinais e abreviaturas XI "Negros” ■ Adriana Calcanhotto ► 1 "Date” Aline Bei 9 “É bom lembrar lembranças dos outros” Ana Martins Marques 17 "ÓculOS de SOl” < Frederico Lourenço ■ 25 "Espiral” ■ Geovani Martins ► 33 “Menos dois” « Gisela Casimira ► 45 “Chegámos” e “O fruto da acácia” ■ Héider Faife 59 "A Solteirona” < Isabela Figueiredo ► 67 "Portugal” < Jorge Sousa Braga ► 79 "Perto e longe” ■< Kalaf Epalanga ► 89 “A amiguinha da Rosa” i Lindacy Menezes ► 99 “Gentrificasamba” • Luca Argel ► 109 “Colonialismo culinário” LucyPepper ■ 117 “Marquises” •« Luís Henrique Pellanda ► 127 “Mudos OS tempos, mudas as vontades” Miguel Januário ► 137 “Redes sociais” Paulo Varela Gomes ► 145 "Inox” Ricardo Terto ► 153 “A ocupação temporária” ■* Tatiana Faia ► 163 “Um gesto raro” Tércia Montenegro - 175 Textos da casa 187 “Companheiras de casa” « Ana Bela Almeida ► 189 “A Grande Luso-Sérvia” Gonçaio Duarte ► 199 "CamSeS sem C.$” ■« Joana Meirim - 211 Soluções 221 ■« m ►
PREFACIO (D Lidei - Edições Técnicas, Lda. No ensino de Português Língua Estrangeira (PLE) a nível avançado é comum fazer-se uso de textos literários para promover a compreensão da linguagem figurada, expandir o léxico, explorar construções sintáticas complexas, enriquecer os conhecimentos culturais, e assim por diante. Afinal, há poucos géneros textuais tão ricos em formas de construção do sentido e diversos na sua composição estilística, vocabular e globalmente referencial como um conto, um poema ou uma crónica. Porém, as metodologias da adequação do texto literário à prática do ensino de PLE têm primado, tradicionalmente, pela aleatoriedade idiossincrática: cada docente tem o seu arquivo de textos e atividades correspondentes, recolhidos ao longo dos anos em função do seu valor instrumental (o que “funciona bem" para ensinar, por exemplo, os tempos verbais do passado) e do seu potencial estético e/ou temático para interessar e motivar as alunas e os alunos. É igualmente comum encontrar textos literários inseridos nos manuais de ensino, misturados com outros géneros textuais; existem até livros didáticos de PLE nos quais a literatura desempenha o papel central na formação em leitura e expressão oral e escrita avançada. Mas o que torna este Quiosque literário excecional - pelo menos na minha perspetiva, também fatalmente idiossincrática, mas baseada em décadas de experiência, tanto de aprendizagem como de ensino de PLE - é o empenho de Ana Bela Almeida, Gonçalo Duarte e Joana Meirim em harmonizar, simultaneamente, de uma forma eficaz e sofisticada, duas funções igualmente necessárias, mas nada fáceis de conciliar. Estas funções consistem, por um lado, nos objetivos prosaicos do ensino - as sempre necessárias revisões gramaticais: as preposições, o emprego de ser e estar, o modo conjuntivo, etc.; o desenvolvimento do léxico; a compreensão dos meandros da sintaxe - e, por outro lado, na exploração, através dos textos literários selecionados, dos horizontes do conhecimento cultural e histórico e da imaginação criativa das e dos aprendentes, tanto em contexto de autoaprendizagem como em sala de aula. Esta antologia procura apresentar um retrato inteligente e desempoeirado da “cultura em português do século XXI" e promover uma <V»
QUIOSQUE LITERÁRIO “abertura à diversidade e aos valores da cidadania global” (para citar algumas frases-chave da introdução que se segue a este prefácio). As problemáticas veiculadas pelos textos que a compõem são plurivalentes e atuais: o racismo a manifestar-se no tecido da vida quotidiana; os desafios da turistificação e gentrificação das cidades; a mobilidade transnacional e a comunicação in- tercultural. Os textos e as atividades abordam tanto as realidades sociais e humanas intemporais - o trabalho, a morte, a memória - quanto os epifenó- menos que organizam o nosso presente, como as aplicações de encontros ou os alojamentos de curta duração. E, além dos textos e das atividades, quem estiver a aprender (e quem estiver a ensinar) com este livro terá ainda à mão excelentes sugestões “para ir mais longe” com a ajuda de dezenas de canções, livros e filmes sintonizados com a temática dos respetivos capítulos. É assim que este Quiosque literário abre as janelas para todo um universo de exploração cultural perpétua, convidativo e generoso para todas as pessoas que decidirem remexer nos seus escaparates. Anna M. Klobucka «vi ►
INTRODUÇÃO (D Lidei - Edições Técnicas, Lda. Quiosque literário: aprender português com a literatura é, simultaneamente, uma antologia de textos literários contemporâneos e um manual de Português Língua Estrangeira (PLE) dirigido a estudantes dos níveis B2-C2. A literatura é um excelente meio para aprender uma língua estrangeira, já que põe os estudantes em contacto com textos autênticos e variados usos da língua. Permite-lhes ainda desenvolver capacidades linguísticas ao mesmo tempo que adquirem uma maior sensibilidade intercultural e capacidade de pensamento crítico. Na elaboração deste livro centramo-nos em três objetivos principais. A nossa primeira intenção é dar a conhecer bons textos literários em português através de uma seleção atual, abrangente e de qualidade. De seguida, graças a um trabalho rigoroso de anotação e criação de exercícios à volta desses textos, pretendemos contribuir para o desenvolvimento das capacidades de compreensão de leitura, de conhecimento da língua e de expressão oral e escrita. Por fim, reconhecendo na literatura um ponto de partida privilegiado, desejamos promover uma abertura à diversidade e aos valores da cidadania global através de uma reflexão sobre temas relevantes e transversais às sociedades atuais. Os textos e o aparato pedagógico de Quiosque literário obedecem a um modelo concreto pensado para estudantes de níveis avançados na língua portuguesa, em contexto de autoaprendizagem e/ou em situação de sala de aula. Cada texto literário é acompanhado por anotações de vocabulário e explicações que visam facilitar a sua leitura. A secção "Estudo da língua" inclui exercícios práticos para expandir o vocabulário e trabalhar questões gramaticais, sempre em relação com o texto lido. Esses exercícios podem ser realizados individualmente, graças às soluções que se encontram no final do livro - adotamos a variedade do Português Europeu, que é a nossa, mas procuramos incluir uma reflexão sobre as diferenças entre o Português Europeu e o Português do Brasil. Segue-se a secção "Expressão oral e escrita", em que sâo propostos tópicos de conversação, atividades de expressão oral e •«vii -
QUIOSQUE LITERÁRIO temas de escrita criativa. Tais exercícios foram concebidos para um contexto de sala de aula ou para aulas particulares e implicam um acompanhamento. Naturalmente, essas atividades podem ser desenvolvidas através do recurso a materiais disponíveis na Internet: acesso a versões musicadas de alguns dos textos propostos em plataformas de vídeos, estudo de outros textos relacionados com os presentes, pesquisas biográficas, leituras de entrevistas e de críticas literárias, etc. Finalmente, o livro conta com duas rubricas "Para ir mais longe": a primeira apresenta propostas de reflexão sobre tradução; a segunda dá sugestões de leituras, de filmes e de canções que têm uma relação com o texto lido e que, em si, representam mais de 60 portas de entrada para a cultura em português do século XXI. A concretização deste livro permite-nos divulgar textos que apreciamos e trazer ideias que julgamos importantes para o espaço público - parece-nos ser essa precisamente a função de um quiosque, e daí a escolha do título. Agradecemos às autoras e aos autores que gentilmente aceitaram contribuir para esse diálogo, permitindo-nos a reprodução do seu trabalho. Tal generosidade foi a inspiração para participarmos também nós com os três textos finais da secção “Textos da casa". Por fim, agradecemos à professora e investigadora Anna M. Klobucka o belo prefácio que nos ofereceu. Fazemos votos de que os textos recolhidos neste livro encontrem eco junto de quem os leia e proporcionem a aprendizagem da língua portuguesa numa perspetiva crítica e pessoal. « VIII ►
ACORDO ORTOGRÁFICO (D Lidei - Edições Técnicas, Lda. Respeitando a decisão de vários autores, foi mantida a grafia original dos contos aqui reunidos. Isso significa que o estudante que já aprendeu português segundo o novo acordo ortográfico poderá encontrar algumas diferenças na leitura destes contos. No entanto, essas diferenças são tão pequenas que não prejudicam a leitura. Quando uma palavra do texto surge em nota na barra lateral, é indicada a nova grafia, como em a(c)to ou exce(p)to. Relembremos algumas regras do novo acordo, que visa unificar as grafias das variedades de Portugal e do Brasil: alterações que afetam a variedade de Portugal ► desaparecimento de consoantes mudas (que não se pronunciam) acção, óptimo -* ação, ótimo I uso de minúscula nos nomes de meses e estações do ano Janeiro, Primavera -* janeiro, primavera alterações que afetam a variedade do Brasil ► desaparecimento do trema cinquenta -* cinquenta I desaparecimento do acento nas terminações -õo e -éia võo, idéia -* voo, ideia alterações que afetam as duas variedades I ’ desaparecimento do acento nas terminações verbais -êem vêem, crêem -» veem, creem ► desaparecimento do acento na forma verbal pára (do verbo parar) pára -* para Mantêm-se no novo acordo as diferenças de acentuação nas palavras esdrúxulas (isto é, acentuadas na terceira sílaba a contar do fim) nas duas variedades: académico, fenómeno (Portugal) / acadêmico, fenômeno (Brasil). IX
SINAIS E ABREVIATURAS aqui, neste contexto específico = igual a, o mesmo que * o contrário de 0 introduz um exemplo em itálico de uma palavra ou expressão ang. uso específico na variedade do português falado em Angola col. uso coloquial depr. uso depreciativo (a evitar: pode ser considerado ofensivo) estil. uso estilístico, referente a um escritor (mas raro na linguagem comum) fr. termo da língua francesa gross. uso grosseiro, vulgar (a evitar: pode ser considerado ofensivo) interj. interjeição irón. uso irónico (só indicado nos casos em que possa surgir a dúvida) med. termo usado na medicina PB uso específico no Português do Brasil (vs. PE, Português Europeu) pop. uso popular relig. uso religioso (D Lidei - Ediçfles Técnicas, Lda. XI
Negros Adriana Calcanhotto Adriana Calcanhotto (Porto Alegre, 1965) é uma cantora e compositora brasileira. Algumas das suas letras estão reunidas em Pra que é que serve uma canção como essa? (Rio de Janeiro: Bazar do tempo, 2016). Reproduz-se aqui a letra da canção "Negros”, que integra o álbum Senhas (1992). © Lidei - EdiçOes Técnicas, Lda. O sol desbota as cores O sol dá cor aos negros O sol bate nos cheiros O sol faz se deslocarem as sombras A chuva cai sobre os telhados Sobre as telhas E dá sentido às goteiras A chuva faz viverem as poças E os negros recolhem as roupas A música dos brancos é negra A pele dos negros é negra Os dentes dos negros são brancos Os brancos são só brancos Os negros são retintos Os brancos têm culpa e castigo E os negros têm os santos Os negros na cozinha Os brancos na sala A valsa na camarinha A salsa na senzala desbotar - quando uma cor perde a vivacidade sombra - silhueta dos objetos batidos diretamente pelo Sol 0 sentar-se à sombra de uma árvore telha - peça de barro cozido usada na cobertura das casas goteira - cano por onde escorre a água da chuva, dos telhados das casas até ao chão poça - depressão do solo que fica cheia de água, por exemplo, quando chove 0 a criança saltou na poça de água retinto - de cor escura ou que foi pintado duas vezes valsa - dança de salão camarinha (P0, antigo) - quarto de dormir salsa - música de origem cubana senzala - conjunto de alojamentos destinados aos ◄ 1 ►
QUIOSQUE LITERÁRIO A música dos brancos é negra A pele dos negros é negra Os dentes dos negros são brancos Os brancos são só brancos Os negros são azuis Os brancos ficam vermelhos E os negros não Os negros ficam brancos de medo Os negros são só negros Os brancos são troianos Os negros não são gregos Os negros não são brancos Os olhos dos negros são negros Os olhos dos brancos podem ser negros Os olhos, os zíperes, os pêlos Os brancos, os negros e o desejo A música dos brancos é negra A pele dos negros é negra Os dentes dos negros são brancos A música dos brancos A música dos pretos A música da fala A dança das ancas O andar das mulatas “Ó essa dona caminhando” A música dos brancos é negra A pele dos negros é negra Os dentes dos negros são brancos Lanço o meu olhar sobre o Brasil e não entendo nada escravos nas antigas fazendas coloniais troiano - habitante de Tróia (Grécia Antiga) 0 tentar agradar a gregos e troianos [= tentar agradar a toda a gente] zíper - fecho-éclair, usado para abrir e fechar peças de vestuário (calças, casacos, etc.) ancas - parte lateral do corpo, da cintura às coxas das pernas mulata - mulher descendente de pai negro e mãe branca ou de pai branco e mãe negra 6 {pop.} - olha dona (coD - senhora ◄ 2k
NEGROS ESTUDO DA LÍNGUA - TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) o sol desbota as cores / o sol dá cor aos negros b) o sol faz se deslocarem as sombras c) e dá sentido às goteiras d) a chuva faz viverem as poças e) “6 essa dona caminhando” 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) os brancos são só brancos b) os brancos ficam vermelhos c) o andar das mulatas d) lanço o meu olhar sobre o Brasil e) e não entendo nada PARA IR MAIS LONGE- Pense em como traduziria estas expressOes na sua língua. a) corar de vergonha b) ficar branco como a cal c) ficar vermelho de raiva d) estar escuro como breu e) ver o mundo a preto-e-branco © Lidei - Edições Técnicas, Lda.
QUIOSQUE LITERÁRIO PALAVRAS CARAS 3. Associe as expressões com o verbo dar ao respetivo significado. estragar / ser teimoso / exibir-se / reconhecer um erro / voltar para trás / ser útil / ultrapassar uma situação difícil / dar facilmente / ajuda r / revelar um segredo a) dar uma mão b) dar a volta por cima c) não dar o braço a torcer d) dar meia-volta e) dar nas vistas f) dar de mão beijada g) dar cabo de alguma coisa h) dar a mão à palmatória i) dar jeito j) dar com a língua nos dentes 4. Associe as expressões aos significados. a) fazer das tripas coração 1. queixar-se sem ter motivo b) ser unha com carne 2. ser incoerente c) falar de barriga cheia 3. estar aflito, angustiado d) pôr as mãos no fogo 4. duas pessoas muito íntimas e) não ter pés nem cabeça 5. confiar inteiramente em alguém f) estar com o coração nas mãos 6. esforçar-se por resolver um problema 5. Sublinhe o intruso na sequência de palavras. a) afta na língua / dor de dentes / unha encravada / lábios gretados / garganta seca b) bocejar / bater palmas / cruzar os braços / apoiar o cotovelo / estalar os dedos c) pestanejar / franzir o sobrolho / piscar os olhos / pôr ao colo / dilatar a pupila d) testa alta / nariz curvo / bochechas cheias / barriga da perna / sardas na cara
NEGROS e) deixar crescer a barba / ter caracóis / usar bigode / aparar as pati- Ihas / assobiar f) debruçar-se / andar de gatas / pôr-se de cócoras / bambolear-se / dormitar MÃOS À OBRA 6. Complete os espaços com artigo ou preposição (contraída com artigo quando necessário). Siga o exemplo. Exemplo: O Sol aquece o corpo e bate no rosto. a) A chuva caiu terraço, molhando roupa es¬ tendida. b) Achas melhor pormo-nos sol ou ficarmos sombra? c) A neve cobria solo quando o comboio saiu estação. d) O vento sopra esplanada e arrasta cadei¬ ras. e) O relâmpago iluminou céu e um raio caiu floresta. f) O furacão devastou costa e deu cabo ci¬ dade. © Lidei - Edições Técnicas, Lda. 7. Passe estes grupos de palavras para o plural. Siga o exemplo. Exemplo: um cão branco > dois cães brancos a) uma joaninha vermelha b) um flamingo cor-de-rosa c) uma raposa cor de laranja d) um tucano azul-escuro e) uma osga amarelo-torrado f) uma rã verde-clara g) um sapo verde-azeitona h) uma borboleta violeta i) um lince bege j) um camaleão azul-turquesa
QUIOSQUE LITERÁRIO 8. Passe as frases para a negativa, usando a dupla negação quando necessário (por vezes, há várias respostas possíveis). Siga o exemplo. Exemplo: Havia uma pessoa na receção. > Não havia ninguém na receção. a) Comprei algumas bananas. b) Deve estar alguém em casa. c) Algumas pessoas já chegaram. d) Fez muitas coisas pelo país. e) Ele é muito ansioso. f) Ela telefonou a alguns familiares. g) A Sofia viaja sempre de comboio. h) Já fiz alguns exercícios. -<6k
NEGROS EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE.» a) De que modo os elementos naturais (o Sol, a chuva) refletem neste poema as condições histórico-sociais entre brancos e negros no Brasil? b) Já conhecia o ditado "agradar a gregos e troianos”? Na sua opinião, qual é o significado dessa referência no texto? c) Porque é que no poema se refere que a música dos brancos é negra? d) "A valsa na camarinha / A salsa na senzala.” No contexto das grandes fazendas brasileiras da era colonial, como imagina os contactos entre os dois mundos a que alude o título Casa-grande & senzala, obra do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987)? e) A dada altura há uma referência no poema a uma figura feminina. Procure essa passagem e comente-a. f) O último verso do texto faz referência à primeira pessoa do singular (eu) e dá um contexto preciso: o Brasil. Na sua opinião, porque é que a conclusão é "não entendo nada”? SEM PAPAS NA LÍNGUA a) Faça um levantamento dos géneros musicais mais populares no Brasil e compare-os com os que são mais importantes no seu país. O panorama é muito diferente? b) Pode a música ser importante para mudar as mentalidades? Pesquise e dê um exemplo concreto de uma canção em português que tenha sido historicamente relevante. © Lidei - Edições Técnicas, Lda. ESCRITA CRIATIVA a) Escolha uma cor e associe-lhe livremente pensamentos, ideias, estados de espírito, etc. b) Num texto curto, recorde um momento da sua vida em que a música tenha sido fundamental. ◄ 7
QUIOSQUE LITERÁRIO PARA IR MAIS LONGE- a) Sugestão de leitura: Marrom e amarelo, de Paulo Scott (Rio de Janeiro: Alfaguara, 2019). Um romance sobre tensões raciais no Brasil contemporâneo através do percurso de dois irmãos. b) Sugestão de filme: A negação do Brasil, de Joel Zito Araújo (Brasil, 2000). Este documentário sobre as telenovelas brasileiras analisa a sub-representação e os estereótipos atribuídos às personagens negras ao longo de décadas de teledramaturgia. c) Sugestão de canção: "Pote de cores", do grupo brasileiro Cara- melows em colaboração com a cantora moçambicana Selma Ua- musse (.single lançado em 2020). Nesta canção, ouvem-se os versos "Lá vem ela com o seu pote / Misturando os teus e os meus / Tantas cores / O mesmo pote".
QUIOSQUE LITERÁRIO PALAVRAS CARAS 3. Associe as expressões com o verbo dar ao respetivo significado. estragar / ser teimoso / exibir-se / reconhecer um erro / voltar para trás / ser útil / ultrapassar uma situação difícil / dar facilmente / ajudar / revelar um segredo a) dar uma mão b) dar a volta por cima c) não dar o braço a torcer d) dar meia-volta e) dar nas vistas f) dar de mão beijada g) dar cabo de alguma coisa h) dar a mão à palmatória i) dar jeito j) dar com a língua nos dentes 4. Associe as expressões aos significados. a) fazer das tripas coração b) ser unha com carne c) falar de barriga cheia d) pôr as mãos no fogo e) não ter pés nem cabeça f) estar com o coração nas mãos 1. queixar-se sem ter motivo 2. ser incoerente 3. estar aflito, angustiado 4. duas pessoas muito íntimas 5. confiar inteiramente em alguém 6. esforçar-se por resolver um problema 5. Sublinhe o intruso na sequência de palavras. a) afta na língua / dor de dentes / unha encravada / lábios gretados / garganta seca b) bocejar / bater palmas / cruzar os braços / apoiar o cotovelo / estalar os dedos c) pestanejar / franzir o sobrolho / piscar os olhos / pôr ao colo / dilatar a pupila d) testa alta / nariz curvo / bochechas cheias / barriga da perna / sardas na cara
NEGROS e) deixar crescer a barba / ter caracóis / usar bigode / aparar as pati- Ihas / assobiar f) debruçar-se / andar de gatas / pôr-se de cócoras / bambolear-se / dormitar MÃOS À OBRA 6. Complete os espaços com artigo ou preposição (contraída com artigo quando necessário). Siga o exemplo. Exemplo: O Sol aquece o corpo e bate no rosto. a) A chuva caiu terraço, molhando roupa es¬ tendida. b) Achas melhor pormo-nos sol ou ficarmos sombra? c) A neve cobria solo quando o comboio saiu estação. d) O vento sopra esplanada e arrasta cadei¬ ras. e) O relâmpago iluminou céu e um raio caiu floresta. f) O furacão devastou costa e deu cabo ci¬ dade. - Edições Técnicas. Lda. 7. Passe estes grupos de palavras para o plural. Siga o exemplo. Exemplo: um cão branco > dois cães brancos a) uma joaninha vermelha b) um flamingo cor-de-rosa c) uma raposa cor de laranja d) um tucano azul-escuro e) uma osga amarelo-torrado f) uma rã verde-clara g) um sapo verde-azeitona h) uma borboleta violeta i) um lince bege j) um camaleão azul-turquesa 5»
QUIOSQUE LITERÁRIO 8. Passe as frases para a negativa, usando a dupla negação quando necessário (por vezes, há várias respostas possíveis). Siga o exemplo. Exemplo: Havia uma pessoa na receção. > Não havia ninguém na receção. a) Comprei algumas bananas. b) Deve estar alguém em casa. c) Algumas pessoas já chegaram. d) Fez muitas coisas pelo país. e) Ele é muito ansioso. f) Ela telefonou a alguns familiares. g) A Sofia viaja sempre de comboio. h) Já fiz alguns exercícios. 6
NEGROS C Lidei - Ediçtos Técnicas, Lda. EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE... a) De que modo os elementos naturais (o Sol, a chuva) refletem neste poema as condições histórico-sociais entre brancos e negros no Brasil? b) Já conhecia o ditado "agradar a gregos e troianos"? Na sua opiniãn, qual é o significado dessa referência no texto? c) Porque é que no poema se refere que a música dos brancos é negra? d) "A valsa na camarinha / A salsa na senzala." No contexto das grandes fazendas brasileiras da era colonial, como imagina os contactos entre os dois mundos a que alude o título Casa-grande & senzala, obra do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987)? e) A dada altura há uma referência no poema a uma figura feminina. Procure essa passagem e comente-a. f) O último verso do texto faz referência à primeira pessoa do singular (eu) e dá um contexto preciso: o Brasil. Na sua opinião, porque é que a conclusão é "não entendo nada”? SEM PAPAS NA LÍNGUA a) Faça um levantamento dos géneros musicais mais populares no Brasil e compare-os com os que são mais importantes no seu país. O panorama é muito diferente? b) Pode a música ser importante para mudar as mentalidades? Pesquise e dê um exemplo concreto de uma canção em português que tenha sido historicamente relevante. ESCRITA CRIATIVA a) Escolha uma cor e associe-lhe livremente pensamentos, ideias, estados de espírito, etc. b) Num texto curto, recorde um momento da sua vida em que a música tenha sido fundamental. 7»
QUIOSQUE LITERÁRIO PARA IR MAIS LONGE... a) Sugestão de leitura: Marrom e amarelo, de Paulo Scott (Rio de Janeiro: Alfaguara, 2019). Um romance sobre tensões raciais no Brasil contemporâneo através do percurso de dois irmãos. b) Sugestão de filme: A negação do Brasil, de Joel Zito Araújo (Brasil, 2000). Este documentário sobre as telenovelas brasileiras analisa a sub-representação e os estereótipos atribuídos às personagens negras ao longo de décadas de teledramaturgia. c) Sugestão de canção: “Pote de cores", do grupo brasileiro Cara- melows em colaboração com a cantora moçambicana Selma Ua- musse (single lançado em 2020). Nesta canção, ouvem-se os versos “Lá vem ela com o seu pote / Misturando os teus e os meus / Tantas cores / O mesmo pote". a
Date Aline Bei Aline Bei (São Paulo, 1987) é uma escritora brasileira, autora de vários contos e do romance O peso do pássaro morto (São Paulo: Nós, 2017). Esta crónica foi publicada previamente no blogue Aline-se (alinebei.wordpress.com), entretanto extinto. você colocou sua mão na minha, cu quis tirar minha mão uma flor esquecida, entre escombros, você alisou a pele não estou pronta, tentei te dizer mas saiu outra frase, saiu algo como já estive aqui, uma vez. sinto vergonha do jeito que meus dedos se arredondam em formas humanas, meus ossos, e você me olhando para além do que sou sem nunca me ver, eu também não te vejo, mal vejo a mesa em que estamos, os pés se esbarram, será que estou com o sapato certo? será que, chegou a lagosta escombros - ruínas, aquilo que foi destruído 0 escombros de guerra alisar a pele - acariciar, tocar ao de leve na pele (epiderme) da mão pronta - preparada 0 ela nõo está pronta para assumir uma nova relação vergonha - sentimento de humilhação ou embaraço do jeito (P0) - do modo arredondar - ficar redondo, com ângulos menos retos (mais suaves) esbarrar - ir de encontro a, bater contra lagosta - crustáceo muito apreciado, de cor vermelha, que se come geralmente em restaurantes requintados 6 L ãel - Esicoes Técnicas, ura. - não sei comer lagosta. - eu te ensino, suas mãos. 9
QUIOSQUE LITERÁRIO penso o tempo todo nas impressões que te causo, queria viver, simplesmente, assistir nunca mais, você me pergunta sobre o meu trabalho, respondo que bom, faço o que posso. mas você gosta? claro e mudo de assunto, comento do vinho, você lida em silêncio com o Fato de eu não estar sendo cem por cento sincera e quem está? sendo cem por cento sincero, você segue em silêncio parece quase triste eu não devia ter aceitado esse encontro, onde cu estava com a cabeça? me conheço o suficiente para saber que não mudei uma vírgula e então te escuto dizendo você é muito dura consigo mesma, por quê? ah, meu amor. você devia passar uma tarde lá em casa com a senhora minha mãe causar impressBes - transmitir uma imagem através de gestos, do discurso, etc. fato (fíB) = facto (PE) lidar com - ocupar-se de, considerar 0 os pais têm de lidar com os problemas dos filhos encontro - •h sair com alguém com o objetivo de ter uma ligação amorosa ou afetiva (date) náo mudar uma vírgula - permanecer igual ser duro com alguém - ser exigente, intransigente a senhora minha mãe (PB, °> irón.) - forma cerimoniosa de se referir à própria mãe janta (PB) - jantar sentir saudades - sentir a falta de alguma coisa boa do passado mas achei melhor dar outro tipo de resposta menos íntima até porque não vamos passar dessa janta, então eu disse — como? não entendi. — nada, esquece. e eu já sentindo saudades do que nunca tive com você, «10»
DATE em algum universo paralelo e se eu evoluísse muito, acredito que nosso encontro poderia se estender pelos anos, só não estou conseguindo passar dessa noite, quem dera eu passasse você pediu a conta. sua mão está longe agora, a minha está na perna ainda dá tempo de Fazê-la voar até você, vamos, que em breve será tarde, a mão a coisa mais pesada, não sai do lugar, não sai. evoluir - crescer, amadurecer estender-se - prolongar-se S Lidei - EciçBes Técnicas. Lda.
QUIOSQUE LITERÁRIO ESTUDO DA LÍNGUA TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) queria viver, simplesmente, assistir nunca mais b) respondo que bom, faço o que posso c) você lida em silêncio com o fato de eu não estar sendo [...] sincera d) onde eu estava com a cabeça? e) ainda dá tempo de fazê-la voar até você 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) mal vejo a mesa em que estamos ___ b) mudo de assunto c) - como? não entendi d) - nada, esquece e) quem dera eu passasse PARA IR MAIS LONGE... ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) simpatizar / implicar com alguém b) apaixonar-se por alguém c) encontrar a alma gémea d) estar aborrecido (ou chateado) com alguém e) terminar / reatar uma relação PALAVRAS CARAS 3. A que sentimento corresponde a situação? a) A minha filha teve ótimas notas! >o u o b) Não quero mostrar-me em biquíni. > p _ d _ r c) Não consigo deixar de olhar para essa pessoa. > a t ç _ o «12»
DATE d) Não posso sequer olhar para essa pessoa. > r _ p _ I _ a e) Nunca perdoarei ao meu colega o seu comportamento! > r _ n r f) Sinto-me mal pela forma como me comportei com ele. >re__r_o 4. Assinale a palavra correta. a) Ela tem um discurso chato e monocórdico: é maçadora / cativante. b) Passa a vida a fazer elogios à chefe: é um presunçoso / bajulador. c) Está sempre pronto para festas: grande folião / desmancha-prazeres! d) Qualquer coisa o ofende: é mesmo negligente / picuinhas! e) Faz tudo para não pagar a conta: não há dúvida de que é avarento / prestável. f) Lá vem ele enumerar-nos as suas qualidades: é tão parcimonioso / gabarolas! 5. Escolha o verbo indicado para cada contexto. a) causar 1. as consequências de uma ação b) cometer 2. conhecimento com um vizinho c) quebrar 3. boas relações com um colega d) sofrer 4. uma boa impressão e) desejar 5. uma promessa f) cultivar 6. um erro infeliz g) travar 7. as melhoras a um doente O Lidei - Eâcdes Técnicas. Lda. MÃOS À OBRA 6. Por ou parai qual é a preposição adequada? Exemplo: Ser cem por cento sincero. a) Andar de um lado o outro. b) Não ter tempo brincadeiras. c) Distribuir um copo pessoa. d) Ajudar alguém pura amizade. e) Não perdoar _ _ nada deste mundo. f) Assinar uma revista um ano. g) Ser alto a idade que se tem. «13»
QUIOSQUE LITERÁRIO h) Não ter respeito _ ninguém. i) Nadar duas vezes semana. j) Saltar de cima baixo. k) Comprar figos três euros. I) Ficar _ o mês que vem. 7. Atente nas diferenças e identifique as frases próprias do Português Europeu (PE) e do Português do Brasil (PB). a1) Você não veio. Por quê? a2) Tu não vieste. Porquê? b1) Os meus pais estão a chegar b2) Meus pais estão chegando cl) Peguei o bonde para ir no cinema c2) Apanhei o elétrico para ir ao cinema d1) A moça falou que estava doente d2) A rapariga disse que estava doente e1) Há sumo no frigorífico? e2) Tem suco na geladeira? 8. Escolha a forma correta destes particípios duplos. Siga exemplo. Exemplo: Eu não devia ter aceite / aceitado esse encontro. a) A mosca foi morta / matada por mim. b) Eu tinha morto / matado a mosca. c) O hóspede deixou a casa suja / sujada. d) O cão já esteve solto / soltado. e) Ninguém tinha salvo / salvado o ficheiro. f) A luz ficou acesa / acendida toda a noite. g) Tens o teu CV impresso / imprimido? h) O candidato não foi eleito / elegido. i) A carta será entregue / entregada hoje. j) O ladrão já foi preso / prendido. 14
DATE •es-j 'sêawrai - W-19 EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE» a) O encontro de que fala este texto parece ter um final infeliz. Concorda? b) A narradora diz que para entender o motivo por que "é muito dura consigo mesma" seria preciso passar "uma tarde lá em casa com a senhora [sua] mãe”. Como imagina ser o relacionamento entre a narradora e a mãe? c) Como é que interpreta a presença das mãos neste texto? d) A seu ver, qual será a idade da narradora desta história? Justifique a sua resposta com excertos do texto. e) Poder-se-ia defender que o encontro desta história é mais um desencontro, com muitas coisas que não foram ditas. O que acha que ficou por dizer? f) Considera que as aplicações de encontros são um bom meio para se encontrar um amor verdadeiro? SEM PAPAS NA LÍNGUA a) Imagine que é o melhor amigo ou a melhor amiga da protagonista deste texto. Que conselhos práticos lhe daria para encontrar o amor? b) Recebe a missão de organizar um speed dating invulgar. Imagine um público específico (por exemplo, pessoas com gatos), a logística do evento e as dificuldades com que se poderia deparar. ESCRITA CRIATIVA a) Imagine que é um empregado num bar com uma atmosfera romântica. A partir dessa posição de observador privilegiado, descreva um casal que se encontra pela primeira vez. Narre o desenrolar da noite e conclua o seu texto com um desfecho feliz ou um adeus para sempre após o encontro. b) Crie um perfil inventado para uma aplicação de encontros que seja, em si mesmo, um microcontu. «15»
QUIOSQUE LITERÁRIO PARA IR MAIS LONGE... a) Sugestão de leitura: Até o dia em que o cão morreu, de Daniel Galera (Rio de Janeiro: Companhia das letras, 2007). Neste romance de estreia, um homem tem de escolher entre uma vivência sem riscos ou a incerteza ligada aos laços afetivos. b) Sugestão de filme: Um amor de perdição (Portugal, 2008), de Mário Barroso. Trata-se de uma adaptação excêntrica do mais famoso romance do escritor romântico português Camilo Castelo Branco (1825-1890). c) Sugestão de canção: "Anda estragar-me os planos", de Salvador Sobral (do álbum Salvador Sobral, 2019). Um convite para quebrar a rotina: “Tira os livros da ordem certa / Deixa a janela do quarto aberta". 16
É bom lembrar lembranças dos outros Ana Martins Marques Ana Martins Marques (Belo Horizonte, 1977) é uma poetisa brasileira com vários livros publicados. Este poema integra a antologia Linha de rebentação, com seleção de poemas por Raquel Nobre Guerra (Lisboa: Douda Correria, 2019). • LiíJrl - EdiçÕM Técnicas. Lsa. É bom lembrar lembranças dos outros como quem se oferece para carregar as compras de supermercado de outra pessoa c bom usar palavras que nunca usamos, palavras que só conhecemos dos livros de botânica dos anúncios de cruzeiros dos contratos de locação c bom portanto usar palavras emprestadas nem que seja para lembrar que só remos palavras de segunda mão é bom ficar de vez em quando para dormir na casa de um amigo usar uma velha camiseta dele habitar alguns de seus hábitos usar à noite se possível um de seus sonhos recorrentes é bom encontrar uma vez ou outra pessoas que conhecemos na infância lembranças - memórias, recordações oferecer-se - prestar-se a, propor-se, ser voluntário carregar as compras - ajudar alguém a levar os sacos do que comprou na loja anúncios de cruzeiros - publicidade a viagens de turismo em navios locação (PB) = aluguer (PE) - arrendamento, valor pago para usar alguma coisa temporariamente 0 locação de uma casa para férias pedir emprestado - pedir para ficar com uma coisa de outra pessoa por algum tempo 0 pedir um livro emprestado de segunda mão - que não é novo, que já foi usado camiseta (PB) = t-shirt (PE)
QUIOSQUE LITERÁRIO é bom nos esforçarmos por um tempo para parecer com a lembrança delas é bom topar de repente com um tanto de areia no bolso de uma calça jeans que há tempos não usamos seguir as instruções do horóscopo de um signo que rege um dia em que não nascemos vestir-nos de acordo com a previsão do tempo de uma cidade que nunca pensamos visitar é bom ao menos uma vez na vida fazer uma via¬ gem em companhia de um parente morto é bom escrever de vez em quando poemas com viagens por dentro com cidades e memórias de paisagens por dentro que pareçam escritos por outra pessoa parecer com - corresponder a topar (RB) - encontrar, achar um tanto - um pouco areia - partículas de rocha desfeita, como há na praia 0 as ondas do mar rolam na areia signo - cada uma das 12 partes em que se divide o zodíaco (exemplo: capricórnio) reger - orientar, gerir parente - familiar * 18 ►
É BOM LEMBRAR LEMBRANÇAS DOS OUTROS ESTUDO DA LÍNGUA TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) só temos palavras de segunda mão b) ficar [...] para dormir na casa de um amigo c) habitar alguns de seus hábitos d) usar [...] um de seus sonhos recorrentes e) nos esforçarmos por um tempo para parecer com a lembrança delas 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) como quem se oferece para carregar as compras b) nem que seja para lembrar que só temos palavras de segunda mão c) é bom reencontrar uma vez ou outra velhos conhecidos d) é bom topar de repente com areia nos bolsos das calças e) é bom vestir-nos de acordo com a previsão do tempo PARA IR MAIS LONGE... ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) carregar as compras do supermercado b) ler as instruções do horóscopo c) pôr as fotografias em ordem num álbum d) pôr a leitura em dia e) pedir um livro emprestado / emprestar um livro ® Lràet - Bastes Têc".;cas. Lia. PALAVRAS CARAS 3. Sublinhe o intruso na sequência de palavras. a) ajudar / oferecer-se / conviver / ser prestável / prestar auxílio b) acompanhar / ir lado a lado / unir-se / juntar-se / implicar 19
QUIOSQUE LITERÁRIO c) recordar-se / antecipar / lembrar-se / trazer à memória / rememorar d) esforçar-se / ser constante / perseverar / executar / persistir e) usar / esconder / empregar / servir-se de / fazer uso de f) surtir efeito / guiar / direcionar / orientar / mostrar o caminho 4. Indique os adjetivos para cada conceito relacionado com os signos do zodíaco. a) coragem g> rancor b) justiça h) ciúmes c) versatilidade i) teimosia d) intuição P volubilidade e) honestidade k) competição f) excentricidade l) pretensão 5. Que utensílios são necessários para estas tarefas domésticas? a) lavar o chão: balde e e _ f g _ n _ b) tiraropó:_sp_n_d_r c) regar as plantas: r a r d) lavar os pratos: e _ p a e) aspirar o chão: a i d f) passar a ferro: t u _ de passar g) varrer o chão: páev s r_ h) limpar os sapatos: _ s c o _ a i) lavar a roupa à mão: _ l g d j) limpar uma mesa: p _ n _ k) estender a roupa: m _ l _ s l) deitar papel fora: _ e _ t _ do lixo MÃOS À OBRA 6. Utilize ) pronome relativo correto. que / em quem / de quem / a quem / com quem a) É bom ter um amigo se gosta. b) É bom ter um amigo nos inspira. <20 ►
É BOM LEMBRAR LEMBRANÇAS DOS OUTROS c) É bom ter um amigo se pode pedir livros empresta¬ dos. d) É bom ter um amigo se acredita. e) É bom ter um amigo se possa passar uma tarde no parque. 7. Escolha a conjunção mais adequada de acordo com o contexto. Siga o exemplo. Exemplo: Como estas palavras já foram usadas, são em segunda mão. (como / pois / por) a) Estas calças não são minhas,vou usá-las. (porém / logo / assim) b) Não posso ir à festa não ter boleia. (porque / para / por) c) Acho que não conseguirei. , vou tentar. (Então / Contudo / Como) d) Não vou mudar de ideias—_ , não insistas. (Portanto / Pois / Todavia) e) As histórias contradizem-se.._ , alguém está a mentir. (Logo / Como / Pois) f) queiras vir connosco, guardamos-te um lugar. (Assim / Se / Caso) 8. Crie frases usando o particípio do verbo indicado. Exemplo: escrever por outra pessoa > O poema foi escrito por outra pessoa. O Lidei - Eoíçôes Técnicas. Loa. a) publicar no jornal. b) ler em voz alta. c) traduzir para francês d) guardar na gaveta _ e) manter inalterado _ f) descobrir por uma investigadora g) fazer a quatro mãos h) divulgar nas redes sociais i) dizer por um artista j) pôr à entrada da escola 21
QUIOSQUE LITERÁRIO EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE... a) Será possível criar empatia com os outros imaginando as suas vidas? Ou estaremos irremediavelmente presos ao nosso "eu"? b) “habitar / alguns de seus hábitos." Por vezes, durante uma convivência longa, apropriamo-nos de hábitos alheios. Se isso já lhe aconteceu, partilhe a sua experiência. c) O "eu" do poema imagina fazer uma viagem "em companhia de um parente morto". O que tem esta ideia de fascinante? d) "Mostra-me o teu quarto e dir-te-ei quem és." Concorda com esta afirmação? Acha que se pode ficar a saber tudo sobre uma pessoa através do espaço que esta habita? e) Releia o poema em silêncio e eleja a sua palavra preferida. Explique as razões da sua escolha. f) "é bom encontrar uma vez ou outra pessoas / que conhecemos na infância / é bom nos esforçarmos por um tempo / para parecer com a lembrança delas." Concorda com esta ideia? Porque é que é bom? SEM PAPAS NA LÍNGUA a) "É bom lembrar lembranças dos outros.” Juntamente com um amigo, procure lembrar-se de uma situação que viveram em comum. Conseguem reconstituir esse momento? A memória que têm do mesmo coincide ou não e porquê? b) “seguir as instruções do horóscopo de um signo / que rege um dia em que não nascemos." Acredita no horóscopo? Troque as voltas ao destino: escolha um signo que não é o seu e leia o horóscopo do dia ou da semana em português. Siga as instruções para esse signo e, mais tarde, indique se as previsões se concretizaram ou não. ■< 22
É BOM LEMBRAR LEMBRANÇAS DOS OUTROS ESCRITA CRIATIVA a) “Pôr-se na pele de outro”: observe as pessoas à sua volta no café, na paragem de autocarro, na sala de espera de um consultório, etc. Escolha uma dessas pessoas como personagem e imagine um dia na sua vida. b) Reutilize a estrutura "É bom lembrar lembranças dos outros", de Ana Martins Marques, para criar o seu próprio poema: É bom... é bom portanto... é bom ao menos uma vez na vida... é bom... nem que seja... PARA IR MAIS LONGE... a) Sugestão de leitura: Budapeste (São Paulo: Companhia das Letras, 2003), romance de Chico Buarque sobre um ghostwriter brasileiro que se vai apropriando de outra identidade durante uma estada na capital da Hungria. b) Sugestão de filme: O estranho caso de Angélica, de Manoel de Oliveira (Portugal, 2010). No último filme do consagrado realizador, feito quando este tinha mais de 100 anos, um fotógrafo é chamado para fotografar uma jovem que acabou de morrer e fica enfeitiçado quando esta parece ganhar vida através da sua câmara. c) Sugestão de canção: "Boa memória" dos Capitão Fausto (do álbum A invenção do dia claro, 2019). Nesta música pop, ouvem-se os versos "Não é preciso lembrar / Os meus amigos contam-me a história / Pra depois poder contar”.
I Óculos de sol Frederico Lourenço Frederico Lourenço (Lisboa, 1963) é um escritor, poeta, ensaísta, professor universitário e tradutor português. Publicou o romance Pode um desejo imenso (Lisboa: Cotovia, 2002), primeiro volume de uma trilogia, bem como coletâneas de contos, ensaios e, entre outras, traduções da Odisseia, da Ilíada e da Bíblia. Esta crónica foi publicada no livro Olugarsupraceleste(Lisboa: Cotovia, 2015). - Ed°çdes Ufcrata*. L<ía Uma vez perguntei a um colega meu na Faculdade de Letras de Lisboa por que razão não comprava uns óculos de sol. E que estávamos à porra da Faculdade, estava uma luz afiada e cortante como só existe em Lisboa; e eu, mesmo com óculos de sol, mal conseguia abrir os olhos. A resposta do meu antigo colega deixou-me bastante perplexo: o pai dele tinha-lhe dito em tempos que usar óculos de sol era “prova” de se ser panc- leiro. Coisa bastante sensível para quem, como esse meu colega, não sendo de todo homossexual, toda a vida se debatera com essa fama, sem nunca ter tido o proveito (coitado). Seja como for, se há coisa divertida são as provas “iniludíveis” que tantas pessoas pensam ter da orientação sexual de outrem. Tantas vezes tais provas não provam rigorosamenre nada. Os próprios gays nem sempre têm o seu “gaydar” apurado c enganam-se redondamcnte ao tentar adivinhar se este ou aquele “será”. Um dos melhores afiado - muito cortante 0 uma faca bem afiada perplexo - surpreendido, admirado, atónito paneleiro (depr.) - homossexual ter a fama sem ter o proveito - ter uma reputação sem haver uma razão para isso coitado (írón.) - %> infeliz, não sabe o que perde! iniludível - sem engano, sem ilusões outrem - outra pessoa gaydar - capacidade de detetar que outra pessoa é homossexual (gay + radar) apurado - desenvolvido enganar-se redondamente - falhar por completo 25 ►
QUIOSQUE LITERÁRIO episódios da clássica sitcom Murphy lirown mostrava a chegada à redacção da estação televisiva de um novo colaborador, jovem bem vestido e bem apessoado, que uns diziam ser gay por usar mousse no cabelo, outros porque as meias condiziam com a camisola, outros porque... já não sei. Para tirar a limpo o enigma, um colega pergunta-lhe se ele se interessa por decoração de interiores, ao que o novo colaborador responde que sim. Grandes troais de olhares entre os outros. Outro colega, que apostara que ele NÂO era gay, faz-lhe perguntas sobre desporto, a que o interrogado responde com evidente perícia. Ninguém sabe o que pensar. O interrogatório subreptício é inconclusivo. A certa altura, uma colega mais atrevida explica aos outros que só há uma maneira de determinar se alguém c gay ou não: é dizer-lhe que tem pastilha elástica na sola dos sapatos e observar o modo como ele levanta os pés. Se levantar os pés para a frente, não é gay. Se levantar para trás, é. Claro que, ao dizerem ao novo colaborador que ele tem pastilha elástica nos sapatos, ele levanta primeiro um pé para a frente e o outro para trás. Depois, à boa maneira das siteoms, entra no elevador, faz uma pausa e, antes de a porta fechar, diz: “and YES, I’m gay”. Diz-se que o ataque é a melhor forma de defesa e essa é a estratégia de muitos homossexuais que optam por assumir publicamente a sua orientação sexual. Colocam-se assim a salvo da situação que, de todas, me parece a mais insatisfatória, situação que contudo já observei muitas vezes ao longo da minha vida: nada me parece mais patético do que um gay que se acha escondido num armário do qual “ninguém suspeita”, quando na sitcom - série televisiva de comédia de situação 0 Friends é uma sitcom famosa da década dc 1990 Murphy Brown - sitcom americana cuja ação se desenrolava em torno de um programa de televisão bem apessoado - com bom aspeto, que causa boa impressão condizer com - usar uma peça de roupa a combinar com outra tirar a limpo - esclarecer perícia - conhecimento sobre um assunto subre(p)tício - dissimulado, pouco direto atrevido - direto, capaz de agir sem vergonha pastilha elástica - goma para mascar sola - parte dos sapatos que toca no chão colocar-se a salvo de - ficar livre de contudo - no entanto patético - ridículo, digno de piedade escondido no armário - expressão que designa a situação de homossexuais não assumidos 26 ►
ÓCULOS DE SOL realidade toda a gente fala da sua homossexualidade nas suas costas. Tentar esconder algo que toda a gente sabe só aguça a malícia com que o tema é comentado pelos outros. Sempre fiz tudo para evitar isso. A situação do meu antigo colega é mais complexa. Não ser de facto gay, mas ser acompanhado toda a vida pela suspeita de ser, deve ser irritante. Para as mulheres que se relacionam com uma pessoa nessas circunstâncias também não deve ser fácil viver o estigma de serem vistas como meras cortinas de fumo. Pessoalmente, se estivesse nessas circunstâncias, não sei bem como reagiria; nem sei se conseguiria arranjar uma estratégia de ataque que constituísse a melhor forma de defesa. Mas pelo menos uma coisa eu nunca me inibiria de fazer: usar óculos de sol. C Ljíí - Eá»cSes üicnícas, ida falar nas costas - sem a pessoa saber aguçar - estimular, tornar mais intenso 0 o aperitivo aguçou-me o apetite mero - simples, não mais do que Ofoi uma mera coincidência cortina de fumo - álibi, estratégia usada para disfarçar uma realidade
QUIOSQUE LITERÁRIO ESTUDO DA LÍNGUA TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) estava uma luz afiada e cortante como só existe em Lisboa b) toda a vida se debatera com essa fama, sem nunca ter tido o proveito (coitado) c) à boa maneira das sitcoms d) colocam-se assim a salvo da situação que [...] me parece a mais insatisfatória e) não deve ser fácil viver o estigma de serem vistas como meras cortinas de fumo 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) perguntei-lhe por que razão não comprava uns óculos de sol b) o pai disse-lhe em tempos c) não sendo de todo homossexual d) a certa altura, uma colega teve uma ideia e) enganou-se redondamente PARA IR MAIS LONGE... ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) arranjar-se para sair / estar muito bem arranjado b) arregaçar as mangas c) desabotoar a camisa d) usar meias a condizer com a camisola e) não ligar a / estar-se nas tintas para a moda 28
ÓCULOS DE SOL PALAVRAS CARAS 3. Associe o material aos objetos. a) algodão 1. botas para a chuva b) lã 2. uma t-shirt para dormir no verão c) linho 3. um cachecol para o inverno d) borracha 4. lençóis luxuosos e) flanela 5. sapatos para usar num casamento f) couro 6. pijama para dormir no inverno g> seda 7. uma camisa fresca para o verão 4. Como se chama? a) Parte da camisa à volta do pescoço. >c_l_r_n b) Usam-se para proteger as mãos do frio. > _ u _ _ s c) As fadistas põem-no aos ombros para cantar. > x _ _ I _ d) Acessório vintage para segurar as calças. >s_s s_r__s e) Calçado cómodo para usar em casa. >c__n s f) Indispensáveis para bebés! > f _ _ l _ _ s 5. Ligue estas personagens de séries televisivas aos adjetivos indicados. a) Phoebe (Friends) b) John Snow (Game of Thrones) c) d) e) f) um zombie de Walking Dead Lisa Simpson (The Simpsons) Sherlock Holmes (Sherlock) Buffy (Buffy, a caçadora de vampiros^ 1. jovem e poderoso(a) 2. engraçado(a) e despassarado(a) 3. requintado(a) e fleumático(a) 4. sóbrio(a) e soturno(a) 5. esfarrapado(a) e desgrenhado(a) 6. inteligente e reivindicativo(a) MÃOS À OBRA C Üdeí - Esiçôes Tecntcât. Lda. 6. Qual é a palavra adequada? a / com / por / sobre / para / por a) O colega do narrador confrontou-se toda a vida a fama de ser homossexual. Ele alude esse facto a propósito dos óculos de sol.
QUIOSQUE LITERÁRIO b) Na série MurphyBrown, um colega é considerado gay ter meias a condizer a camisa. Os colegas querem tirar o assunto . limpo. c) tirar as dúvidas, uma colega pergunta-lhe se ele se interessa decoração de interiores. Outro colega questiona-o desporto. d) Algumas pessoas podem passar horas a discorrer a validade de tais inquéritos, mas a verdade é que eles não servem grande coisa. 7. Ligue as frases de modo a respeitar a sintaxe. a) b) c) d) e) Acho patético Fiquei perplexo quando Não me atreveria Não sei como reagiria se Se estivesse nessas circunstâncias, 1. 2. 3. 4. 5. a fazer-lhe uma pergunta indiscreta, me pedissem para mentir. me perguntaram em quem ia votar. reagiria de modo diferente. fingir-se ser quem não é. 8. Siga o exemplo e complete usando a sua imaginação. Exemplo: (pintar) o cabelo de cor-de-rosa > Se eu pintasse o cabelo de cor-de-rosa, a minha mãe ficaria louca. a) (usar) um piercing no nariz b) (pôr) rastas no cabelo c) (vestir) roupa do século XIX d) (querer) mudar o visual e) (fazer) uma tatuagem no pescoço f) (trazer) um kilt da Escócia g) (parecer-se) com um ator / uma atriz h) (ser) mais alto 30
ÓCULOS DE SOL EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE... a) O texto de Frederico Lourenço refere a forma como tendemos a avaliar os outros através de pistas geralmente equívocas. Acha que é possível escapar às ideias preconcebidas? b) Consegue lembrar-se de outras situações em que alguém estava a tentar descobrir coisas sobre a vida de outra pessoa? c) Concorda com o narrador desta crónica quando ele diz que é preferível viver "fora do armário"? Ou também compreende o direito à privacidade de quem não se assume publicamente homossexual? d) O texto adota um tom divertido ao falar sobre o tema da orientação sexual. Porque será que o faz? e) De que forma tentamos proteger ou manipular a nossa reputação na era das redes sociais? Dê exemplos. f) "O ataque é a melhor forma de defesa." Concorda com esta afirmação? Porquê? SEM PAPAS NA LÍNGUA a) Se pudesse escolher, em que universo de série televisiva preferia "aterrar"? Imagine a sua adaptação a esse universo e indique quem seriam os seus aliados e os seus inimigos. b) Mostre fotografias de pessoas famosas que na sua opinião precisariam urgentemente de mudar de estilo. Que conselhos lhes daria? C Lidei - Eocôes Tr:.i»cas. Lds. ESCRITA CRIATIVA a) Imagine que, num belo dia, o antigo colega do narrador resolve ultrapassar os preconceitos e usar óculos de sol pela primeira vez. Descreva o dia em que isto acontece, detalhando todas as emoções sentidas. b) Já viveu alguma situação em que se sentiu alvo de um preconceito? Escreva uma crónica a contar essa experiência. 31
QUIOSQUE LITERÁRIO PARA IR MAIS LONGE... a) Sugestão de leitura: Rilke Shake, da poetisa brasileira Angélica Freitas (São Paulo: Cosac Naify, 2007). Uma recolha de poemas marcados pelo humor, que aborda igualmente a temática gay. b) Sugestão de filme: Hoje eu quero voltar sozinho, do realizador brasileiro Daniel Ribeiro (Brasil, 2014). Leonardo é um adolescente invisual de 15 anos cuja vida muda radicalmente com a chegada do colega Gabriel. c) Sugestão de canção: “Stereo", de Ana Carolina (do álbum Ensaio de cores, 2011). Nesta canção brasileira pode ouvir-se o verso "Eu ponho quem eu quero aqui no meu colchão". «32-
Espiral Geovani Martins Geovani Martins (Bangu, Rio de Janeiro, 1991) é um jovem escritor brasileiro. Nasceu e cresceu numa favela. Estreou-se aos 26 anos com o livro de contos O sol na cabeça (São Paulo: Companhia das Letras, 2018). O conto aqui apresentado faz parte dessa obra. - E CKfin Ttcntc*. Lda Começou muito cedo. Eu não entendia. Quando passei a voltar sozinho da escola, percebi esses movimentos. Primeiro com os moleques do colégio particular que ficava na esquina da rua da minha escola, eles tremiam quando meu bonde passava. Era estranho, até engraçado, porque meus amigos e eu, na nossa própria escola, não metíamos medo em ninguém. Muito pelo contrário, vivíamos fugindo dos moleques maiores, mais fortes, mais corajosos e violentos. Andando pelas ruas da Gávea, com meu uniforme escolar, me sentia um desses moleques que me intimidavam na sala de aula. Principalmente quando passava na frente do colégio particular, ou quando uma velha segurava a bolsa e atravessava a rua pra não topar comigo, linha vezes, naquela época, que eu gostava dessa sensação. Mas, como já disse, eu não entendia nada do que estava acontecendo. As pessoas costumam dizer que morar numa favela de Zona Sul é privilégio, se compararmos moleque (PB, pop.) - menino, rapaz, garoto colégio particular - escola privada esquina - onde uma rua faz ângulo com outra rua tremer - ter medo bonde (PB) - elétrico (PP) 0 tomar o bonde (PB) - apanhar o elétrico (PE) Gávea - bairro nobre da Zona Sul do Rio de Janeiro topar (PB) - deparar-se com alguém *<33 ►
QUIOSQUE LITERÁRIO a outras favelas na Zona Norte, Oeste, Baixada. De certa forma, entendo esse pensamento, acredito que tenha sentido. O que pouco se fala é que, diferente das outras favelas, o abismo que marca a fronteira entre o morro e o asfalto na Zona Sul é muito mais profundo. É fbda sair do beco, dividindo com canos e mais canos o espaço da escada, atravessar as valas abertas, encarar os olhares dos ratos, desviar a cabeça dos fios de energia elétrica, ver seus amigos de infância portando armas de guerra, pra depois de quinze minutos estar de frente pra um condomínio, com plantas ornamentais enfeitando o caminho das grades, e então assistir adolescentes fazendo aulas particulares de tênis. E tudo muito próximo e muito distante. E, quanto mais crescemos, maiores se tornam os muros. Nunca esquecerei da minha primeira perseguição. Tudo começou do jeito que eu mais detestava: quando eu, de tão distraído, me assustava com o susto da pessoa e, quando via, era eu o motivo, a ameaça. Prendi a respiração, o choro, me segurei, mais de uma vez, pra não xingar a velha que visivelmente se incomodava de dividir comigo, e só comigo, o ponto de ônibus. No entanto, dessa vez, ao invés de sair de perto, como sempre fazia, me aproximei. Ela tentava olhar pra trás sem mostrar que estava olhando, eu ia chegando mais perro. Ela começou a olhar em volta, buscando ajuda, suplicando com os olhos, daí então colei junto dela, mirando diretamente a bolsa, fingindo que estava interessado no que pudesse ter ali dentro, tentando parecer capaz de fazer qualquer coisa pra conseguir o que queria. Ela saiu andando pra longe do ponto, o passo era abismo - separação fronteira - linha que divide dois territórios 0 passar a fronteira entre Portugal e Espanha morro (PD) - zonas altas onde se situam favelas asfalto (PB) - zonas planas onde vivem classes privilegiadas é foda (PB, gross.) - é difícil beco - rua estreita, sem saída num dos lados cano - tubo para escoar a água vala - abertura no terreno (<b para instalar canos) encarar - olhar de frente portar - levar consigo pra (PB) = para (PE) condomínio - conjunto de residências privadas enfeitar - embelezar grades - armação para impedir u acesso a um espaço privado 0 um jardim protegido por grades verdes do jeito (PB) - da forma assustar-se - sentir medo, sobressalto, surpresa ameaça - sinal de perigo segurar-se - controlar-se, manter a calma xingar (PB) - insultar ponto de ônibus (PB) = paragem de autocarro (PE) ao invés de - em vez de suplicar - pedir de forma insistente ou desesperada colar junto - aproximar- -se muito mirar - olhar, observar < 34
ESPIRAL lento. Eu a observava se afastar de mim. Não entendia bem o que sentia. Foi quando, sem pensar em mais nada, comecei a andar atrás da velha. Ela logo percebeu. Estava atenta, dura, no limite de sua tensão. Tentou apertar o passo pra chegar o mais rápido possível a qualquer lugar. Mas na rua era como se existíssemos apenas nós dois. Por vezes eu aumentava minha velocidade, ia sentindo o gosto daquele medo, cheio de poeira de outras épocas. Depois diminuía um pouco, permitindo que ela respirasse. Não sei quanto tempo durou tudo aquilo, provavelmente não mais que alguns minutos, mas, para nós, era como se fosse toda uma vida. Até que ela entrou numa cafete- ria e segui meu caminho. Passado o turbilhão, fiquei com nojo de ter ido tão longe, lembrando da minha avó, imaginando que aquela senhora também devia ter netos. Porém, esse estado de culpa durou pouco, logo lembrei que aquela mesma velha, que tremia de pavor antes mesmo que eu desse qualquer motivo, com certeza não imaginava que eu também tivera avó, mãe, família, amigos, essas coisas todas que fazem nossa liberdade valer muito mais do que qualquer bolsa, nacional ou importada. Por mais que às vezes me parecesse loucura, sentia que não poderia parar, já que eles não parariam. As vítimas eram diversas: homens, mulheres, adolescentes e idosos. Apesar da variedade, algo sempre os unia, como se fossem todos da mesma família, tentando proteger um patrimônio comum. Veio a solidão. Ficava cada vez mais difícil enfrentar qualquer assunto banal. Nem nos livros conseguia me concentrar. Não queria saber «35> andar atrás - perseguir dura - rígida apertar o passo - andar mais depressa, acelerar poeira - memória, restos turbilhão - excitação, agitação interior nojo - repugnância, repulsa (B> por si mesmo) 0 ter nojo de comer caracóis pavor - medo intenso loucura - insensatez, coisa sem sentido enfrentar - encarar (* fugir) banal - ligeiro, simples
QUIOSQUE LITERÁRIO se chovia ou fazia sol, se no domingo daria Flamengo ou Fluminense, se Carlos terminou com Jaquc, se o cinema estava em promoção. Meus amigos não entendiam. Não podia contar o motivo de minhas ausências, e, aos poucos, fui sentindo que me afastava de gente realmente importante para mim. Com o passar do tempo esta obsessão foi ganhando forma de pesquisa, estudo sobre relações humanas. Passei então a ser tanto cobaia quanto realizador de uma experiência. Começava a entender com clareza meus movimentos, decifrar os códigos dos meus instintos. No entanto, a dificuldade de entender as reações de minhas vítimas foi se mostrando cada vez maior. São pessoas que vivem num mundo que não conheço. Sem contar que o tempo que tenho pra analisá-las frente a frente é curto e confuso, já que preciso atuar simultaneamente. Percebendo isso, cheguei à conclusão de que precisaria me concentrar num único indivíduo. Não foi nada fácil encontrar essa pessoa. Me perdia entre as personalidades, não conseguia escolher. linha medo. Até que um dia, andava pela rua, era noite alta, um homem virou a esquina no mesmo momento que eu, trombamos. Ele levantou os braços, se rendendo ao assalto. Eu disse: “Fica tranquilo. E vai embora". Depois de muito tempo sentia mais uma vez aquele ódio primeiro, descontrolado, aquele que enche os olhos d’água. Há tempos já tinha me abstraído da humilhação, e até mesmo da vingança. Encarava o desafio com o olhar cada vez mais distante, científico. Mas alguma coisa nos movimentos daquele homem — o levantar de braços, a expressão de terror — fez daria Flamengo ou Fluminense - venceria um destes clubes de futebol brasileiros terminar com [alguém] (PB) = acabar com [alguém] (PE) - dar por concluída uma relação amorosa pesquisa - estudo metódico cobaia - animal usado em experiências de laboratório decifrar - compreender um código noite alta - noite dentro, a hora tardia trombar (PB) - chocar, colidir com alguém na rua render-se - não oferecer resistência 0 o exército foi cercado e os soldados renderam-se assalto - ataque para roubar os bens de alguém encher os olhos d'água - dar vontade de chorar vingança - retaliação, ato pessoal contra quem agiu mal em primeiro lugar ^36>
ESPIRAL reacender aquela chama do dia em que fui atrás da minha primeira vítima. Era ele. Só podia ser ele. Esperei um pouco e fui atrás, invisível. Mário é o nome dele. Consegui pescar essa informação observando de perro, próximo ao seu local de trabalho, enquanto ele cumprimentava seus conhecidos pela rua. Tem duas filhas pequenas, uma pela casa dos sete, oito anos, a outra com quatro, no máximo cinco. Não consegui descobrir o nome delas, pois, quando estava com a família, eu acompanhava de longe, pra não atrair suspeitas. Acabei batizando de Maria Eduarda a mais velha e Valentina a mais nova. Nomes compatíveis com suas carinhas de crianças bem alimentadas. A esposa dei o nome de Sophia. Olhando a partir da minha distância, pareciam felizes. No dia em que foram fazer um piquenique no Jardim Botânico, brincavam, comiam bolos, doces, observavam juntos as plantas. Um verdadeiro comercial de margarina, com exceção da babá, que os seguia toda de branco. Durante o primeiro mês, forcei nosso encontro muitas vezes. Em algumas ele ficou intimidado com minha presença, em outras parecia não notar ou não se importar. Eu ficava me perguntando quando é que ele daria conra de minha existência. Três meses. Até o dia em que li em sua expressão o horror da descoberta. Muita coisa mudou depois disso. Mário passou a ser outra pessoa. Sempre preocupado, olhando em volta. 3 Eu observava. Às vezes o perseguia claramente, via sua tensão crescer, até quase explodir. Então parava, entrava em algum lugar, fingia naturali- " dade. í reacender a chama - tornar novamente intenso pescar - e> obter pela casa de - por volta de, aproximadamente atrair suspeitas - deixar outras pessoas intrigadas batizar - *!> dar o nome comercial - anúncio publicitário margarina - substituto de manteiga, para cozinhar babá (PB) = ama (PE) - empregada que cuida das crianças forçar um encontro - fazer com que alguém se reúna «37
QUIOSQUE LITERÁRIO Chegamos ao momento presente. Passei uns dias rondando um pouco mais perto de sua casa. O que antes era privilégio, morar perto do trabalho, virou um dos seus maiores motivos de preocupação. Ide tentava me despistar dando voltas pelos quarteirões, mas seu esforço era inútil, já que há bastante tempo eu sabia onde ficava seu apartamento. Foram dias complicados pra ambas as partes, eu sentia que dava um passo definitivo, só não tinha certeza de onde mc levaria esse caminho. Até que entramos na jogada final. Comecei a segui-lo, como das outras vezes, num lugar próximo a sua casa. Mas dessa vez ele não fez questão de mc despistar, pelo contrário, pegou o caminho mais rápido até o apartamento. Suava pelas ruas, a cara vermelha. Também eu tremia diante das possibilidades de desfecho. Ele entrou no prédio, cumprimentou o porteiro feiro máquina, subiu. Apenas uma janela. Era o que se mostrava do apartamento no meu campo de visão. Fiquei mirando fixamenre aquele ponto, sem me esconder dessa vez; se eu o visse, rambém ele me veria. Alguns minutos depois apareceu Mário, completamente transtornado, segurava uma pistola automática. Sorri pra ele, percebendo naquele momento que, se quisesse continuar jogando esse jogo, precisaria também de uma arma de fogo. rondar - andar à volta 0 a pantera rondava, à espera da vítima virar (PB) - tornar-se despistar - desorientar quarteirão - bloco de prédios num bairro jogada final - momento definitivo pegar (PB) = apanhar (PD suar - transpirar desfecho - conclusão, fim porteiro - pessoa que está à entrada de um prédio e que ai trabalha feito máquina (PB) - como uma máquina, de forma automática transtornado - muito perturbado, inquieto • 38
ESPIRAL ESTUDO DA LÍNGUA TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) o abismo que marca a fronteira entre o morro e o asfalto [...] é muito [...] profundo b) não metíamos medo em ninguém; muito pelo contrário, vivíamos fugindo c) começava a [...] decifrar os códigos dos meus instintos d) a família [era] [...] um verdadeiro comercial de margarina e) também eu tremia diante das possibilidades de desfecho 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) aos poucos, fui sentindo que me afastava de gente importante b) apesar da variedade, algo sempre os unia c) com exceção da babá, que os seguia toda de branco d) o tempo para analisá-las é curto, já que preciso atuar simultaneamente e) foram dias complicados para ambas as partes PARA IR MAIS LONGE... ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) assaltar alguém b) ser vítima de um assalto c) render-se ao assaltante d) uma situação tensa e) fazer uma denúncia de um assalto na esquadra . 39 ►
QUIOSQUE LITERÁRIO PALAVRAS CARAS 3. Com a ajuda das palavras entre parêntesis, dê um palpite para completar os espaços. Se precisar, releia as passagens do texto. a) O protagonista começou a andar de pessoas na rua. (perseguição) b) A senhora perseguida olhou em _ , pedindo ajuda, (ao redor) c) Um dia, ele deparou-se com Mário, que os braços ao vê-lo. (rendição) d) Então, sentiu um ódio que lhe os olhos de água, (emoção) e) Acompanhava Mário de longe, para não suspeitas, (exposição) 4. Sublinhe o intruso na sequência de palavras. a) meter medo / intimidar / assustar / despistar / aterrorizar b) tremer / ter medo / apavorar-se / recear / explodir c) sentir culpa / perseguir / sentir remorso / arrepender-se / lamentar d) dar conta / notar / segurar / reparar / atentar e) cumprimentar / enfrentar / encarar / confrontar / desafiar 5. Faça a correspondência entre as expressões e a sua definição. a) b) ficar com nojo fingir naturalidade 1. 2. excitação, paixão indiferença, apatia c) rondar um lugar 3. confusão, inquietude d) não se importar 4. repugnância, repulsa e) reacender a chama 5. simulação, disfarce f) ficar transtornado 6. insistência, perseguição «40»
ESPIRAL MÃOS À OBRA 6. Crie frases a partir do exemplo. Exemplo: Nós crescemos. As dificuldades são grandes. > Quanto mais nós crescemos, maiores são as dificuldades. a) O tempo passa. Esperar é difícil. b) Os países investem. O sistema de ensino é bom. c) A cidade expande-se. As favelas são grandes. d) A desigualdade é grande. A revolta é forte. e) A pobreza aumenta. As condições de vida são más. 7. Substitua a locução por um advérbio em -mente. Siga o exemplo. Exemplo: incomodava-se de maneira visível > incomodava-se visivelmente a) agir de forma humana b) ria-se de modo nervoso c) andei com velocidade d) pedi com gentileza e) disse com veemência f) resolvemos de modo fácil _ g) falava com naturalidade h) escrevia de forma lenta i) paraste com brusquidão j) exprimia-se de forma comum 8. Ponha as frases no passado, passando o Presente e o Futuro para c Imperfeito e Condicional, respetivamente. Siga o exemplo. Exemplo: Sinto que não poderei parar. > Sentia que não poderia parar. a) Sei que tu dirás a verdade. « 41 ►
QUIOSQUE LITERÁRIO b) Acreditas que o aluno passará no exame? c) Ele acha que eu farei o jantar. d) Temos a certeza de que vocês voltarão aqui. e) Elas estão convencidas de que nós ganharemos o concurso. •42 ►
ESPIRAL EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE... a) “Se quisesse continuar jogando esse jogo, precisaria também de uma arma de fogo." Como interpreta a conclusão do conto? b) “É tudo muito próximo e muito distante”. Analise a relação entre "morro" e "asfalto" do ponto de vista geográfico e social. c) "morar numa favela de Zona Sul é privilégio, se compararmos a outras favelas na Zona Norte." Que reflexões lhe suscita a palavra "privilégio" neste contexto? d) Porque é que o narrador do conto diz que o medo estava cheio de "poeira de outras épocas"? e) Na sua opinião, porque é que o protagonista escolhe Mário como vítima da sua perseguição? f) O narrador dá aos familiares de Mário nomes “compatíveis" com a classe social a que pertencem. Consegue identificar este aspeto no país onde vive? SEM PAPAS NA LÍNGUA a) Imagine-se no lugar da senhora que estava na paragem de autocarro ou de Mário, o homem perseguido. Procure criar uma voz para estas personagens adotando a primeira pessoa. Explique como se sentiu naquelas circunstâncias. b) "Um verdadeiro comercial de margarina." Faça uma experiência sociológica e analise todos os anúncios publicitários de uma revista popular ou de um canal televisivo durante o horário nobre. Que tipo de sociedade é retratada nessa realidade? ESCRITA CRIATIVA a) Ponha-se na pele da ama (ou babá em PB) desta história e escreva na primeira pessoa uma carta para uma pessoa da família em que dê a conhecer o seu quotidiano. -« ►
QUIOSQUE LITERÁRIO b) Imagine que é incumbido de adaptar este conto ao cinema. Redija uma sinopse do filme numa página e meia. Para tal, tenha a preocupação de incluir cenas que ajudem a precisar o contexto social e familiar do protagonista e de desenvolver o final da história. PARA IR MAIS LONGE... a) Sugestão de leitura: o site de Alexandre de Maio, que faz "jornalismo em quadrinhos" - isto é, em forma de banda desenhada (alexandredemaio.com.br). Neste site encontra várias histórias e ilustrações sobre fenómenos sociais do Brasil contemporâneo. b) Sugestão de filme: Casa grande, de Fellipe Barbosa (Brasil, 2014). Este filme conta a história de Jean, um adolescente que vive no bairro privilegiado da Tijuca, no Rio de Janeiro, e que vai descobrindo nutras realidades da cidade. c) Sugestão de canção: "Subúrbio", do compositor brasileiro Chico Buarque (do álbum Carioca, 2006). Preste atenção à letra sobre as localidades em torno da "cidade maravilhosa", onde "não tem turistas / não sai foto nas revistas" e onde a estátua do Cristo Redentor “está de costas”. 44
Menos dois Gisela Casimiro Gisela Casimiro (Guiné-Bissau, 1984) é uma escritora e artista portuguesa. Publicou o livro de poesia Erosão (Urutau, 2018) e é autora da obra fotográfica "Museu Pessoal", que questiona a presença negra nos museus. Este texto foi publicado originalmente no portal transdisciplinar e colaborativo sobre questões pós-coloniais Buala (www.buala.org), em abril de 2020. Who wants to write Zimbabwe? “Who wants to write Zimbabwe? Who? Kids?” Conclui tristemente, desistindo: “No one wants to write Zimbabwe.” Também, Zimbabwe, quando poderia ter escolhido, sei lá... Gana com h? Não chego a perguntar de onde ela vem, ocupada que está a coordenar as várias turmas escolares que visitam o British Museum naquela segunda-feira de manhã, três dias após o Brexit, mas ela claramente pertence mais ali do que eu. Estamos no piso dedicado à colec- ção africana, localizada no -2. 'Oro fotos a tudo, como sempre e, no meu espólio pessoal, guardo um grupo de miúdos da primária, tagarelas, uns de pé, outros sentados no chão. Um deles, que •1 parece chinês, puxa o cabelo entrançado à menina negra. Guardo esta história para contar a $ Rashid, meu querido colega que se define como •“ um proudZimbabwean, e cujas raízes se estendem a Moçambique e à índia. O Youtube, que tudo também - mas, porém, diga-se de passagem sei lá - não sei ocupada que está - visto que está ocupada turma - grupo de alunos que têm as mesmas aulas piso - andar espólio - coleção de coisas que se guardam miúdo - criança primária - primeiro nível de escolaridade tagarela - que fala muito entrançado - preso em tranças, enlaçado (* solto) raízes - origens estender-se - ir de um ponto a outro <45
QUIOSQUE LITERÁRIO sabe e, o que não sabe escuta, continua a mostrar anúncios de testes que nos permitem aceder à informação se somos 0,5% cherokee ou 32,5% finlandeses. Em Barbican, nas poucas alturas do ano em que o Centro de Arte abre as portas da sua estufa aos visitantes, deparo-me com diversos avisos para não tocar nas plantas. Ninguém me diz o que devo fazer quando, ao passar, elas se prendem no meu cabelo, me puxam e obrigam a prestar mais atenção a tudo. Não é muito diferente de casa, portanto. Um dos recados não é um aviso mas uma súplica para as pessoas não roubarem mais plantas, porque isso entristece os funcionários. Antes do nosso encontro no Tate, a Nclly envia-me um link: a congressista democrata Ayana Pressley passou de twists senegaleses, também conhecidos como rope turists, para uma peruca e, desta, para uma careca. O mesmo artigo da BBC chama a atenção para estudos comprovativos de que, a juntar a um terço das mulheres de origem africana no mundo, nos EUA, são os afro-americanos os mais afectados pela alopecia. Ao sair de um comboio para atravessar a correr a estação rumo à plataforma do lado oposto e apanhar outro comboio, uma mulher pára a minha irmã para lhe elogiar o cabelo. “Your afro looks great!”, grita. Ela própria ostenta longas tranças. Quando me vê chegar, estende-me o elogio: “Yours too!” Somos irmãs, respondo, agradecendo. Ela diz que isso explica tudo, mas a foto da minha irmã, aos dezasseis anos, cabelos longuíssimos que eu costumava alisar, essa foto na porta do frigorífico sim, talvez confunda ainda mais do que explica. A mulher fala do seu processo, de como gostaria de deixar o cabelo solto, e escutar - ouvir anúncio - publicidade Barbican - grande centro cultural de Londres estufa - recinto onde se aumenta artificialmente a temperatura de plantas de climas quentes deparar-se com - encontrar por acaso aviso - car taz ou painel com uma comunicaçüo puxar - reter portanto - assim sendo, por conseguinte recado - mensagem escrita súplica - pedido insistente entristecer - deixar triste, causar desgosto ou pena peruca - cabeleira falsa careca - cabeça sem cabelo alopecia (med.) - ausência de cabelo rumo a - em direção a elogiar - mostrar admiração por alguém 0 elogiar uma boa aluna ostentar - exibir, mostrar estender o elogio - incluir outra pessoa na apreciação positiva feita a alguém alisar - tornar liso (e não encaracolado) solto - que não está preso, sem tranças
MENOS DOIS como não tem paciência para isso. Digo que tem de encontrá-la. A Carla diz que tenho de deixar o cabelo seguir o seu caminho, pois sabe exacta- mentc o que tem de fazer e como se deve enrolar até chegar a cada conjunto de caracóis. Ela admoesta-me de cada vez que me ponho a enrolar e a desenrolar nervosamente com os dedos o que de si é já enrolado. Não sei se isto me ajuda a pensar ou dificulta a função. Parece que a minha paciência não dá, afinal, para tudo. Ou então, o meu cabelo tornou-se uma novidade; se calhar tento, apenas, perceber o que há de tão especial nisto. Quando sou eu que o toco, porém, o outro não sou eu e sim o meu cabelo, que já foi outro. É, vários graus de enrolamento. O meu marido comprou uma mota “O meu marido comprou uma mota porque tem 49 anos e está numa crise de meia idade. (Tento não rir muito alto porque ele está a ouvir). Posso mostrar-te este cabelo. António, anda cá. Tirou agora o capacete (É preciso abanar para desenformar, é um cabelo que guarda memórias c demora a voltar ao lugar, depois de encostado à almofada, a um ombro, a uma parede). Isto (leva a mão à cabeça e puxa ao de leve o cabelo) é tudo o que eu tenho. Eu sempre quis muito afirmar o meu lado africano porque a maioria dos meus amigos são brancos. Na questão convencional, se eu for a uma festa guineense, vou estar à parte, encostada a uma parede, aliás, não te conheço i assim tão bem, mas acho que também estarias I (ah, a subtileza das guineenses). Não sinto que renho de me integrar como uma pessoa que «47» caracóis - cabelo enrolado em espiral (♦ liso) admoestar - censurar, repreender levemente não dar para tudo - não chegar, não ser suficiente tocar - mexer em enrolamento - % complexidade, complicação mota - veículo motorizado de duas rodas capacete - armadura de proteção para a cabeça (por exemplo, para andar de mota) abanar - mexer, sacudir 0 abanar o pacote de sumo antes de o abrir desenformar - perder uma forma rígida ao de leve - suavemente guineense - da Guiné (ou da Guiné-Bissau) estar à parte - não se sentir integrado ou à-vontade
QUIOSQUE LITERÁRIO cresceu cm Cheias. Se calhar procurei mais em livros do que em experiências, de uma forma mais académica. Tenho um rapaz e duas meninas gémeas. Uma tem olhos verdes e a outra não. Houve um dia em que a minha filha decidiu que queria mascarar-se de Rapunzel. Esta é a minha verdadeira história de revelação capilar. Comprei três ou quatro pacotes de cabelo para acrescentar ao dela. Começou a chorar porque o cabelo não era loiro e sim preto. Não foi feliz, mas estava fantástica. Mais tarde comecei a perceber que a Gabriela ficava triste com as diferenças. Queria ter o cabelo igual ao da irmã, que é mais liso e longo. A irmã, que tem os olhos verdes, é extremamente tímida. Ela baixava a cara. Uma vez começou a chorar e a dizer que não gostava dos olhos porque é a única na família com olhos claros. Elas querem ser iguais uma à outra e trocar de pele. Ultimamente, a Gabriela está muito mais confiante. Comecei a pensar, devo isto às minhas filhas. Procuro referências na rua, pessoas normais, em vez de pessoas famosas. Ela agora está com mais auto-estima. É, este cabelo mais crespo, o que ela chama pujfy hair. Ela brinca às perucas com o Playmobil. A pequena sereia? Elas não têm noção desse debate. Têm a experiência de serem diferentes e diferentes uma da outra, mesmo enquanto gémeas. Consciência de si que não tem muito a ver com outras experiências como a minha ou a tua. Uma identidade muito própria, muito criativa. A Isabel quer ser artista, tem outras prioridades.Tenho 43 anos e considero-me uma mulher atraente, inteligente. A única coisa que ainda hoje mantenho, e que até acho infantil, é essa insegurança, essa incerteza com Cheias - bairro de Lisboa gémeo - irmão nascido do mesmo parto 0 a Ana e a Rita sao gémeas muito parecidas mascarar-se - disfarçar-se para parecer outra pessoa (por exemplo, no Carnaval) Rapunzel - princesa com cabelo muito longo, no conto dos irmãos Grimm capilar - relativo ao cabelo trocar de pele - % trocar de corpo, de identidade crespo - áspero, rugoso, que não é liso não ter noção - não se aperceber, não estar a par do que se passa desse debate - * sobre a escolha dos estúdios Disney de uma atriz negra para uma nova versão do filme A pequena sereia <48
MENOS DOIS o meu cabelo. A minha irmã é muito mais escura e crespa e de cabelo mais longo, e ela pinta de loiro. A Gabriela e eu somos obcecadas pelo cabelo. Se havia dez pretos na minha escola secundária, era muito. Se eu trabalhasse num banco, provavelmente mudaria o meu visual. Não condeno quem tem de ser assim. Os africanos mudam para nomes europeus para irem a entrevistas de trabalho. Havemos de preencher as quotas juntas! Eu sou de uma família mandinga e o sonho da minha vida sempre foi ter aquela pele de ébano da minha mãe. A beleza é tal que se torna chocante o contraste com as cores dos tecidos. Hoje não tenho dúvida de que sou uma mulher africana. Até então, a minha experiência era aprendida, não era real. Onde me enquadro? Não me enquadro. Até o andar, o ritmo é diferente. Apaixonei-me por tudo o que é guineense, mas a subserviência choca-me. Uma vez um tio falou-me sobre uma segunda mulher. O meu marido vai arranjar outra mulher no dia em que eu arranjar outro homem, respondi. Ele tropeçou nas escadas e ia caindo. Ninguém vai olhar para mim e achar que sou guineense. Foram à Guiné na Páscoa e adoraram. O António ficou muito admirado com a liberdade das crianças, as crianças livres que os meus filhos nunca vão poder ser.” Can 1 borrow your hair? “Gm I borrow your hair?”, pergunta o por- J teiro de um hotel. Usa luvas, como aqueles que revistaram a afro da minha irmã num aeroporto, v cerra vez. Estas, porém, são brancas. Ele também. -49» obcecado - que pensa insistentemente numa só coisa escola secundária - estabelecimento de ensino frequentado por alunos dos 12 aos 18 anos visual - aparência condenar - censurar quota - lugar reservado para minorias mandinga - grupo étnico da África Ocidental ébano - cor de madeira muito escura chocante - perturbante, impressionante tecido - pano usado na confeção de roupa enquadrar-se - pertencer, integrar 0 não me enquadro na equipa subserviência - ser servil, submisso chocar - escandalizar tropeçar - dar um mau passo, bater com o pé em alguma coisa ia caindo - quase caiu luvas - peça de vestuário para proteger as mãos porteiro - trabalhador na receção de um edifício seguir caminho - continuar a andar sem parar
QUIOSQUE LITERÁRIO Nenhuma de nós ri. Seguimos caminho c, desta vez, já nem abanamos a cabeça. Temos mais que fazer. Temos de comer ehicken and waffles pela primeira vez na vida. Dias mais tarde, já em Lisboa, um outro homem vem atrás de mim na rua durante o que me parece ser muito tempo. Eu estou com pressa para encontrar um amigo e afastar-me do desconhecido. E um outro tipo de assédio, mascarado de elogio como todo o bom assédio. Finalmente chego ao café e ele segue, mas é como se ainda estivesse atrás de mim, na rua, a reparar, a fazer-me reparar, a fazer com que outros reparem. A envergonhar-me. No Carnaval, no Largo do Intendente, pára uma rapariga negra bem escura, com uma trança comprida gigante, amarelo limão, um cabelo grosso de boneca de pano entrançado no dela, que lhe cai até meio das costas. Tiro foto para mostrar à Nelly para que mostre à filha. Descreve a imagem como “Sítio do Picapau Amarelo meets Ariana Grande”. Rimos. “Estava à janela, atenta ao teu cabelo, para saber que eras tu, porque o Rúben me deu como referência a afro mais es- pectacular de sempre.” E simpática e exagerada, a Carmo. E porque não conhece a minha irmã. “Desculpe, posso fazer-lhe uma pergunta? Porque é que vocês alisam o cabelo? Ainda se não ficasse bem...” Hoje não temos tempo para isso, caro senhor motorista de Uber. Fica para a próxima. 'Itido isto me passa pela cabeça enquanto estou no 735 da Carris, a chegar a Sapadores. Numa breve pausa no caminho, olho através do vidro do meu lado esquerdo c vejo-o: um miúdo indiano, janela do rés-do-chão escancarada, escova em riste, penteando-se em paz, ao mesmo abanar a cabeça - gesto de irritação ou incredulidade assédio - insistência importuna, feita geralmente quando se sente poder V uma pessoa condenada por assédio sexual reparar - notar, observar aquilo que é diferente) envergonhar - humilhar, fazer sentir vergonha, insegurança Largo do Intendente - zona de Lisboa trança - forma de prender o cabelo (entrelaçado) gigante - muito longa boneco - figura que imita a forma humana e que serve de brinquedo para as crianças de pano - de tecido Sítio do Picapau Amarelo - série televisiva brasileira cuja protagonista era uma boneca de pano Ariana Grande - cantora popular norte-americana passar pela cabeça - vir à ideia, atravessar o espírito Carris - empresa de transportes públicos de Lisboa Sapadores - zona de Lisboa escancarado - totalmente aberto escova - utensílio para pentear o cabelo em riste - na mão. pronto para ser usado 50 ►
MENOS DOIS tempo em público e em privado, em casa e na rua, indiferente a tudo, Fazendo festas a tudo, a rodos. A última vez que fui a algum lado, quero dizer, a última vez que saí de Lisboa, foi para ir a Albergaria. As vezes não sei que idade tenho, carregada de memórias pesadas e a leveza de um porta-chaves da Sailor Moon. As vezes não sei o que importa, Falar de tudo isto. Mas depois penso em todas as canções em que o Kendrick Lamar refere o seu nappy hair, que é o equivalente a nig- ger para o cabelo. E depois penso nessa viagem a Albergaria, de estar na igreja, a última a que fui, antes de começar o serviço fúnebre, e de o Elísio vir sentar-se perro de nós e dizer: “Gisela, de cada vez que olho para o teu cabelo, parece que estou a ver o Xico, esqueço-me, depois lembro-me, e sorrio. Vai ficar tudo bem. Está tudo bem.” fazer festas - saudar, cumprimentar, dar vivas Albergaria - cidade do dis ¬ trito de Aveiro Sailor Moon - série de manga japonesa o que importa - qual é o interesse, o objetivo Kendrick Lamar - cantor de rap norte-americano igreja - edifício onde tem lugar o culto cristão serviço fúnebre - funeral, cerimónia em que se honra alguém que morreu 51 ►
QUIOSQUE UTERÃRIO ESTUDO DA LÍNGUA TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) [um] colega [...] cujas raízes se estendem a Moçambique e à índia b) um cabelo que [...] demora a voltar ao lugar, depois de encostado à almofada c) se calhar procurei mais em livros do que em experiências d) Onde me enquadro? Não me enquadro. e) já nem abanamos a cabeça, temos mais que fazer 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) ponho-me a enrolar e desenrolar com os dedos o que de si é já enrolado b) elas têm a experiência de serem diferentes, mesmo enquanto gémeas c) se for a uma festa guineense, vou estar à parte; aliás, acho que também estarias d porque é que vocês alisam o cabelo? ainda se não ficasse bem... e) hoje não temos tempo para isso, fica para a próxima PARA IR MAIS LONGE... ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) usar o cabelo solto / preso (numa trança, com um rabo de cavalo...) b) ter o cabelo encaracolado / ondulado / liso c) usar risco ao meio / risco a<- lado / franja d) cortar o cabelo, mudar de penteadu e) fazer madeixas louras / castanhas / ruivas / grisalhas «52»
MENOS DOIS PALAVRAS CARAS 3. Qual é a palavra que dá sentido à frase? a) Estava com tanto frio que comecei a tremer / espreguiçar-me / assobiar. b) Comecei a rir enquanto comia a sopa e tropecei / engasguei-me / abanei-me. c) Sou alérgica ao feno: começo logo a espirrar / piscar o olho / dar pontapés. d) Estou com cócegas / soluços / tosse. Preciso de apanhar um susto para ver se passa! e) Esta camisola faz-me comichão, passo o dia a bocejar / coçar-me / fungar do nariz. 4. Complete as frases. a) b) Estava distraída e fui obrigada a prestar Fui verificar o documento para tirar 1. 2. transtorno suscetibilidades c) Afinal, o plano original sofreu 3. consolo d) Perguntou por ti e mandou 4. atenção e) Quando estás triste, é nos meus braços que buscas 5. cumprimentos f) Podes vir buscar a mala mais tarde, não nos causa 6. dúvidas g) Pedi-lhe desculpa, pois não queria ferir 7. alterações - õiKòe» 'KXh 5. Substitua as frases por uma expressão com sentido equivalente. Siga o exemplo. deixa lá / estava-se mesmo a ver / tomara que sim! / não faltava mais nada / já agora... Exemplo: Não estou para isso, não me interessa. > Tenho mais (do) que fazer. a) Mais esta agora! Depois de tudo o que já aconteceu... b) Esperemos que aconteça.
QUIOSQUE LITERÁRIO c) Não vale a pena, não te preocupes com isso. d) Já que aqui estamos, aproveitemos a ocasião. e) Era previsível que isto fosse acontecer. MÃOS À OBRA 6. Com a ajuda das palavras entre parêntesis, complete com palavras ou expressões que aparecem no texto. a) Atravesso a correr a estação r à plataforma, (em direção) b) As gémeas querem ser iguais u . (reciprocamente) c) Eu e a minha irmã j abanamos a cabeça, (esta¬ mos fartas) d) O meu tio tropeçou nas escadas e i . . (quase caiu) e) Tudo isto me p no 375. (ocorrer) f) A última vez que fui a algum lado, q , que saí de Lisboa, (isto é) 7. 73o ou tanto/a/os/as? Exemplo: Não te conheço assim tão bem. a) Tens uns olhos bonitos! b) Não está assim calor! c) Ela corre depressa! d) Tenho pena! e) Estes miúdos são tagarelas! f) Tens__ caracóis! g) 0 chá está quente! h) A música não é assim má. i) Havia plantas na estufa! j) Não tenho assim pressa!
MENOS DOIS 8. Complete com a mim, de mim, para mim, por mim ou comigo. a) 0 cão anda atrás b) Olha estou a nadar! c) Disse-me que sonhou d) Passou no exame graças e) Estou na rua, vem cá ter f) Isto é muito difícil g) Estás a gozar ? h) Quanto , sou favorável. i) Passou sem sequer me ver. j) Falou mal nas minhas costas. k) Ela implica sem razão. [) Vai! (= podes acreditar) 55
QUIOSQUE LITERÁRIO EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE... a) É possível reconhecer uma unidade nos três textos que compõem este tríptico. Comente o tema principal que os une e identifique as várias vozes narrativas. b) "Estamos no piso dedicado à colecção africana, localizada no -2.” Tendo em conta a leitura dos três textos, por que razão a narradora chama a atenção para a localização da coleção africana no British Mu- seum, a ponto de escolher o título "Menos dois”? c) No final do segundo texto, uma das vozes fala da liberdade das crianças na Guiné-Bissau. Porque é que essa voz acha que os filhos dela nunca vão poder ser livres como as crianças que viu quando foi com a família na Páscoa à Guiné-Bissau? d) No final do terceiro texto, a narradora observa, durante a pausa da viagem de autocarro, um menino indiano à janela a pentear os seus cabelos "em paz, ao mesmo tempo em público e em privado, em casa e na rua, indiferente a tudo”. De que maneira é que esta personagem contrasta com a situação da narradora? e) As passagens "Se eu trabalhasse num banco, provavelmente mudaria o meu visual” e “Os africanos mudam para nomes europeus para irem a entrevistas de trabalho” dão conta da dificuldade em afirmar a identidade racial num mundo pretensamente mais progressista e livre. O que é que ainda falta para não ser necessário esconder a identidade, qualquer que ela seja? f) Em “Can I borrow your hair?”, a narradora reflete sobre o facto de o assédio sexual aparecer frequentemente disfarçado de elogios. Comente esta afirmação. SEM PAPAS NA LÍNGUA a) A narradora gosta de tirar fotografias, que depois guarda no seu “espólio pessoal". Fale do seu espólio pessoal: o que costuma guardar e porquê? «56
MENOS DOIS b) Imagine um museu absolutamente original e atrativo na sua cidade, capaz de alterar o olhar sobre um objeto ou uma determinada realidade. ESCRITA CRIATIVA a) Imagine uma continuação para a cena final do terceiro texto, apresentando uma explicação plausível para Elísio dizer à narradora que “Vai ficar tudo bem. Está tudo bem". b) Redija uma crónica sobre a experiência de visitar um museu em particular. Escolha um que conheça bem e fale da sua relação com este espaço. PARA IR MAIS LONGE... a) Sugestão de leitura: Esse Cabelo (Lisboa: Editorial Teorema, 2015) de Djaimilia Pereira de Almeida. 0 livro refere as peripécias de um cabelo crespo, ao mesmo tempo que se cruzam a história de Portugal e Angola. b) Sugestão de filme: Tabu (Portugal, 2012), de Miguel Gomes. O ponto de partida da história é a vida de três mulheres que vivem num prédio antigo de Lisboa. Uma delas tem uma história por descobrir que começou pouco antes do inicio da Guerra Colonial. c) Sugestão de canção: "Muros”, do rapper Slow J (do álbum You are forgiven, 2019). A letra desta canção inclui os versos "Meus putos querem o mundo nunca menos / Mesmo que branco no entretanto cubra-me os cabelos". CA-<> LJ*
Chegámos e O fruto da acácia Hélder Faife Hélder Faife (Maputo, 1974) é um poeta e escritor moçambicano. Publicitário por formação, é igualmente artista plástico. Entre outros, publicou os livros Contos de fuga (Maputo: A2 Design, 2010) e Desdenhas (Maputo: Cavalo do Mar, 2017). Estes poemas foram publicados na revista Zunái (www.revistazunai.com). Chegámos Com a manhã húmida e lânguida a rebolar sobre a cidade e o sol a derreter-nos o gelo suado da paciência Chegámos viemos quentes das gélidas catacumbas do destino infestar o sexo da calçada urbana com nossas trouxas anti-municipais de noite somos caçadores de lua de dia vendedores de rua lânguido - sem energia, frouxo, fraco rebolar sobre - espraiar - -se. cobrir gelo - água em estado sólido 0 um cocktail com cubos de gelo suado - transpirado (devido a esforço, calor, etc.) gélido - muito frio catacumba - galeria subterrânea calçada - estrada ou rua revestida de pedras trouxa - fardo de roupa que se carrega ao ombro (por exemplo, roupa embrulhada num grande iençol) vendedor de rua - pessoa que vende objetos no espaço exterior (por exemplo, relógios. bolsas, etc.) 59
QUIOSQUE LITERÁRIO O fruto da acácia Ainda que floresça a acácia não dá frutos comestíveis mas à sua sombra a senhora vende amontoada de fruta na capulana estendida e Faz as contas. a senhora amontoada vende frutas estendida na capulana e faz as contas. florescer - quando as árvores dão flor acácia - género de árvores e arbustos de regiões quentes comestível - que se pode comer amontoado - conjunto de coisas postas umas em cima das outras capulana - pano que tradicionalmente as mulheres moçambicanas usam enrolado no corpo deleite - gozo, prazer colher - tirar o fruto de uma árvore éden - paraíso estendida na capulana a senhora se vende amontoada de frutas e faz as contas. c compra-se o fruto com o mesmo deleite que se lhe colhe de éden e íàz-sc de contas. <60 >
CHEGÁMOS E O FRUTO DA ACÁCIA ESTUDO DA LÍNGUA TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) a manhã [...] a rebolar sobre a cidade b) o sol a derreter-nos o gelo suado da paciência c) trouxas anti-municipais d) a senhora vende amontoada de fruta e) e faz as contas 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) de noite somos caçadores de lua b) de dia vendedores de rua c) ainda que a acácia floresça d) a acácia não dá frutos comestíveis e) mas a senhora vende fruta à sua sombra PARA IR MAIS LONGE... ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) fechar um bom negócio b) à vontade do freguês c) valer muito dinheiro d) comprar por uma ninharia e) ser uma pechincha PALAVRAS CARAS 3. Indique o nome das árvores que dão estes frutos. 1a) laranja b) maçã — c) banana d) pera t -á 61
QUIOSQUE LITERÁRIO e) pêssego g) cereja i) amêndoa f) figo h) castanha _ j) noz 4. Ligue as profissões à descrição certa. a) marceneiro 1. conserta objetos de ferro: fechaduras, chaves, grades b) empreiteiro 2. instala e mantém sistemas de canos para águas, esgotos... c) serralheiro d) mecânico 3. fabrica móveis: mesas, armários, camas... 4. implementa e faz a manutenção das instalações elétricas e) canalizador f) eletricista 5. monta e repara máquinas e motores 6. é responsável por obras numa casa 5. Associe estas expressões com o verbo fazer ao respetivo significado. agir de forma caprichosa, como as crianças / armar confusão / fingir / fingir que não se está a compreender algo / não ceder logo a um pedido / não dar atenção / querer muito / refletir para ficar com as ideias mais claras / ridicularizar alguém / teimar a) fazer de conta b) fazer-se rogado c) fazer muita questão d) fazer finca-pé e) fazer contas à vida f) não fazer caso . g) fazer pouco de alguém „ h) fazer-se de parvo i) fazer uma birra j) fazer trinta por uma linha • 62 ►
CHEGÁMOS E O FRUTO DA ACÁCIA MÃOS À OBRA 6. Preencha os espaços com a preposição correta. Não se esqueça dos artigos, que devem ser contraídos quando necessário. a) O vendedor chegou praça carregando uma trouxa ombros. b) Tirou a mercadoria trouxa e espalhou-a capu- lana. c) Pôs os relógios caixa, mas deixou cair um relógio chão. d) Olhou as nuvens: como ia chover, partilhou um toldo o vizinho. e) Levou a mão bolso, pegou isqueiro e acendeu um cigarro. 7. Reescreva as frases, começando pelas conjunções ou locuções entre parêntesis, que pedem todas Presente do Conjuntivo. a) A acácia não dá frutos, mas é uma árvore frondosa. (Ainda que...) b) Antes de os fregueses chegarem, a mercadoria tem de estar exposta. (Antes que...) c) Na eventualidade de ter dúvidas, contacte-nos. (Caso...) d) Apesar de estarmos abertos, tem de bater à porta. (Embora...) e) Sem a gerente concordar, não posso vender fiado. (Sem que...) f) Para podermos abrir a conta, é necessária a sua assinatura. (Para que...)
QUIOSQUE LITERÁRIO 8. Utilize os prefixos segundo as regras do novo acordo ortográfico. Siga o exemplo. Exemplo: (anti) municipal > antimunicipal a) (pré) história b) (auto) retrato c) (co) autor d) (micro) ondas e) (ex) presidente f) (pós) graduação g) (auto) estrada h) (sub) aluguer i) (anti) higiénico j) (contra) ataque k) (inter) disciplinar I) (anti) social 64
CHEGÁMOS E O FRUTO DA ACÁCIA V EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE... a) Estes dois poemas aludem à realidade dos vendedores de rua em Moçambique. Consegue estabelecer pontos de ligação entre os dois textos? b) O que motiva a escolha da voz coletiva em “Chegámos"? c) "viemos quentes / das gélidas catacumbas do destino / infestar o sexo da calçada urbana." Comente estes versos, tendo em conta as várias oposições que neles estão patentes: lugares, exposição, luminosidade, temperatura, etc. d) Porque será que os vendedores de rua se definem também como "caçadores de lua"? e) Na primeira estrofe do poema "O fruto da acácia", lê-se: "a senhora vende amontoada de fruta na capulana estendida.” De que modo as alterações sucessivas a estes versos, nas estrofes que se seguem, modificam o sentido do poema? f) Qual pensa ser a importância da paciência, característica a que um dos textos se refere, para os vendedores de rua? SEM PAPAS NA LÍNGUA a) Nalgumas cidades, a calçada urbana é sobretudo um lugar onde se estabelecem trocas e se cruzam pessoas que nunca se encontrariam em lugares fechados. Recorde uma experiência importante para si passada num espaço público, como, por exemplo, uma feira, uma peça de teatro de rua, um desfile ou uma manifestação. b) Moçambique é um país onde confluem culturas, entre a tradição africana, a influência oriental e o passado colonial português. Pense no seu próprio país: que múltiplas culturas o compõem? Tente apresentar esse caleidoscópio de forma exaustiva. «65»
QUIOSQUE LITERÁRIO ESCRITA CRIATIVA a) "de noite somos caçadores de lua." Use este verso como título de uma breve história de ficção científica. b) Imagine o início de uma peça de teatro sobre vendedores de rua. Através de didascálias, dê as instruções relativas ao cenário, ao ambiente e aos eventuais figurantes. Caracterize as personagens que vai pôr em palco e dê o ponto de partida da peça com uma primeira cena dialogada. PARA IR MAIS LONGE». a) Sugestão de leitura: A confissão da leoa, de Mia Couto (Lisboa: Editorial Caminho, 2012). O escritor moçambicano, conhecido pela sua linguagem poética e criativa, parte de um caso real de ataques de leões para retratar a vida e os papéis de homens e mulheres numa aldeia moçambicana. b) Sugestão de filme: A costa dos murmúrios, de Margarida Cardoso (Portugal, 2004). Este filme, adaptado do romance homónimo de Lídia Jorge, retrata a perceção da guerra colonial através do olhar de Evita, jovem esposa de um soldado que vive os últimos dias do regime colonial em Maputo. c) Sugestão de canção: "Acácia", de Luís Severo (do álbum O sol voltou, 2019). A letra desta canção inclui os versos "Saudade bate à porta do quarto / E sai ao nascer do dia / Volta quando o sol se põe". 66
A solteirona Isabela Figueiredo Isabela Figueiredo (Lourenço Marques, atual Maputo, 1963) é uma escritora nascida em Moçambique, mas residente em Portugal desde 1975. após a Revolução de 25 de Abril e a consequente descolonização. Publicou Caderno de memórias coloniais (Coimbra: Angelus Novus. 2009) e A gorda (Lisboa: Editorial Caminho. 2016). Os textos aqui apresentados foram escritos no blogue O mundo perfeito (www.omundoperfeito.blogspot.com) entre 2008 e 2017. A maldição das solteironas O técnico veio recolher o frigorífico às nove da matina. Estava eu a dormir com a minha Moreninha quase em cima da cabeça e a minha Micas no tapete, as três muito felizes e maravilhosamente acompanhadas. Tocou. Anunciou “frigorífico”; respondi “um bocadinho, se faz favor”; lavei a cara, equilibrei os óculos, penteei-me desastrosamente, e vesti um roupão ridículo do qual toda a gente se ri, mas que me recuso a pôr de lado, porque foi a minha mãe que mo fez, que o desenhou, cortou e coseu, e hei-de usá-lo até se esfarrapar. O homem já assobiava quando lhe abri a porta. Entrou com um ar muito sábio c expedito, desejoso de debitar a sua moral clectrodomés- tica, e explicou, olhando para o frigorífico, não para mim, que afinal tinha conseguido “vir mais cedo”, ao que lhe respondi mentalmente, “estou a rebentar de felicidade”. Rapidamente deslocou técnico - trabalhador qualificado, perito recolher - buscar matina - manhã Moreninha / Micas - as cadelas da autora, presença constante no blogue roupão - peça de vestuário confortável para usar em casa ô vestir um roupõo depois do banho pôr de lado - abandonar coser - costurar roupa esfarrapar - rasgar-se por completo assobiar - produzir sons agudos com os lábios 0 assobiar uma música expedito - despachado, pronto debitar - explicar de forma rápida e decidida rebentar (irón.) - explodir deslocar - levar de um lado para outro « 67 ►
QUIOSQUE LITERÁRIO o frigorífico do seu lugar e o carregou para fora, ajudado pelo filho de 12 anos, que vestia unia t-shirt com um horrível boneco cornudo fazendo um pirete. Despediu-se, desejando umas “boas férias para os senhores”. Ora, vejamos: ontem, quando o homem cá veio diagnosticar o problema, estava sozinha; hoje, ao abrir-lhe a porta, estava sozinha... terá o homem visto na minha casa companhia que para mim é invisível?! Isto das solteironas, agora, é uma chatice, sobretudo porque já não parecem solteironas. Vivem em casas normais, vestem-se normalmente, não escondem os bicos das mamas intei- riçados, não são pudicas, não se levantam cedo, não vão à missa, não sorriem timidamente, são umas chatas insubmissas, reclamam, resolvem os problemas sozinhas tornando obsoleta a ancestral protecção masculina, são excelentes, são bonitas, são desejáveis mas nem por isso fáceis. Como identificar hoje uma solteirona? Como pode o velho mundo reconhecer numa enorme solteirona, enormemenre feliz, a solteirona estereotipada dos tempos em que uma mulher precisava de um casamento para existir? Não pode. Não consegue. Ainda não consegue. O meu treinador pessoal Sou a única mulher no ginásio entre dezenas de garotos em boa forma. Se tivesse 20 anos isto era capaz de me preocupar; ai que estava suada, o cabelo desalinhado pela transpiração, as formalidades da beleza rodas comprometidas, a celulite, a celulite... mas aos • 68» cornudo - com cornos v o boi é um animai cornudo pirete - gesto obsceno com n dedo médio da mSo solteirona - termo pejorativo para mulheres que n3o casaram chatice - aborrecimento, coisa desagradável bico da mama - mamilo inteiriçado - duro, rígido pudico - que tem pudor, casto, introvertido ir à missa - assistir à cerimónia da Eucaristia, na igreja católica obsoleto - fora de moda, que já n3o se usa ancestral - tradicional garoto (pop.) - jovem ai que - cuidado, atenção desalinhado - fora do lugar transpiração - gotas de suor causadas pelo esforço comprometido - em risco, em perigo
A SOLTEIRONA 40, sinceramente, olho para eles com admiração pelos exercícios que Fazem melhor que eu, e com mais carga. É tudo. Sinto-me completamenre integrada. Sou uma mulherona?! Olha, pois sou. Estou gorda?! Olha, pois, vendo bem, estou. Os 40 são realmenre uma idade generosa, sobretudo para uma solteirona de carreira, que sabe não interessar a miúdos, sendo que os graúdos a que possa interessar estão casados com as mulheres, nuns casos, com os filhos, noutros, e com a economia doméstica, na maior parte deles. Sou por deixar os homens casados sofrerem em paz o enorme erro de não me terem dado a oportunidade de lhes infernizar a existência. Bem feita! Adoro ir ao ginásio. Sinto-me interessante. Dão-me atenção. São gentis. Até os garotos me cumprimentam com o género de sorriso que se dedica à tia. Mas o mais importante é o meu instrutor, que quis o fado se chamasse Camané. O Camané segue-me pelo ginásio, transportando a minha toalha e a garrafinha de água, que pousa perto da máquina que escolheu para mim. Põe- -me a toalha nos ombros, quando estou tão transpirada que acho que já nem vale a pena, e vai, voluntário, encher-me a garrafinha de água, porque tenho de repor os líquidos. Até me sinto mal. E diz, agora a Isabela vai puxar pelos peitorais, agora os tríceps, agora as coxas. Exemplifica, c, senhores, não sai dali. Fica a ver-me e a contar as séries. Os miúdos mandam-lhe umas bocas, mas o Camané não ouve. Está empenhado no meu projecto. Vê-se a admiração com que me 1 põe a trabalhar. Isto queima muito, Isabela, tem * que ter cuidado com a alimentação. Veja lá a sua dieta. Coma uma banana antes de vir. E bolachas. carga - peso olha - sim, efetivamente de carreira - experiente graúdo - grande, crescido (* miúdo) bem feita! Unterj., irón.) - exprime satisfação por algo de mau que aconteceu a outra pessoa gentil - simpático, delicado quis o fado - o destino decidiu assim Camané - nome de um célebre cantor de fado pousar - colocar, deixar ombro - parte superior do braço até me sinto mal - chego a sentir-me pouco à vontade puxar pelos peitorais - exercitar os músculos do peito senhores - meu Deus mandar bocas - fazer comentários desagradáveis, geralmente com duplo sentido empenhado - totalmente interessado, absorvido queimar - consumir calorias veja lá - cuidado
QUIOSQUE LITERÁRIO Olhe que isto queima. Acredito. Não há músculo que não me doa. Músculos que não pensei existirem. Sou uma chaga toda inteira de dor física que se movimenta a poder de vontade. Como lenitivo penso na minha saia branca de Verão. No próximo Verão, a minha cintura parecerá a curva do Mónaco, e hei-de ver-me muito ao espelho e sorrir c fazer poses, e exibir a minha beleza por todo o lado, e ser atrevida, olhem, olhem para m i m, grandes hl hos-de-u ma-mãe-que-nem-u- ma-trinca-cá-hão-de-dar. Hei-de mostrar os braços e os ombros todos nus, e as pernas torneadas, e vestir fatos-de-banho ousados e apaixonar-me muito por mim. Já começo a sentir-me tão bonita outra vez. Não sei quanto paga a Madonna pelo seu treinador pessoal, mas o meu é bom e sai-me barato. Nós, as Bridget Jones Certos amigos dizem que eu também me dedico a escrever umas coisas tipo Bridget Jones, mas inteligente. Discordo total mente. Ainda agora estive a rever um dos filmes da dita. Não há uma Bridget Jones inteligente e outra burra. Nós, as Bridget Jones, somos todas muito parecidas, com o seu quê de burro, como qualquer pessoa apaixonada. A mim também me fascinam as cuecas dc gola alta, e consumir televisão enquanto como pistaches com as cadelas, ou bolo dc chocolate. Sou absolutamente ton- tinha quando estou interessada por um homem. E quando não estou, também não se aproveita grande coisa. Há, como eu, um grupo de mulheres que se atrasou bastante no cumprimento chaga - ferida aberta a poder de vontade - graças à vontade lenitivo - consolo cintura - parte do corpo entre o tronco e as coxas curva do Mónaco - sinuosa curva na marginal a caminho do Estoril (cidade perto de Lisboa), junto ao Hotel Mónaco fazer poses - adotar uma postura estudada, artificial 0 fazer poses para a fotografia ser atrevida - agir de modo provocante filhos de uma mãe - insulto que indica revolta ou desprezo dar uma trinca - provar, experimentar 0 Este bolo está ótimo, queres dar uma trinca? torneado - bem-feito, atraente ousado - provocador, que revela muito sair barato - ficar barato tipo - como, ao estilo de da dita - de quem se fala com o seu quê de - com alguma coisa de burro - pouco inteligente cuecas de gola alta - roupa interior grande pistache - fruto seco tontinha - tola, incapaz de raciocinar não se aproveita grande coisa Urón.) - há pouco que se possa usar <70 >
k SOLTEIRONA das tradições familiares, ou que começou por desprezá-las, vindo a perceber mais tarde, casadas as amigas, e cheias de filhos rebeldes, mas integradas e respeitadas, que náo havia grande salvação fora do esquema sacrossanto da família, pelo menos nas estruturas sociais conhecidas. De forma mais ou menos longínqua, nós, as Brid- get Jones, ainda sonhamos ser salvas pelo amor dedicado de um homem parecido com o Colin Firth, mesmo que seja manco. Mas é um sonho vago. Eu, por exemplo, tenho quase a certeza que no lar de terceira idade onde acabarei os meus tempos há-de estar o homem ideal, aquele que gostará de mim como sou, e não será um psico- pata dissimulado, como a maior parte dos que conheci. Andámos perdidos, mas o lar de terceira idade reunir-nos-á, e depois é que vou conhecer as alegrias da relação pura. Agora, obviamente, não, porque os homens que me interessam estão todos casados, e não me apetece nada passar de mulher livre a amante escondida e dependente. Agora, obviamente, náo, porque os homens que se interessam por mim, não me despertam a libido por motivos diversos, que incluem ter pêlos no nariz, para além de que sei muito bem que não suportaria o quotidiano de um casamento com peúgas para lavar e etc. Um homem com o qual fosse sumamente feliz, para mim, é assim um ideal. E um ideal, caros leitores, é como sonhar que nos vai sair o Euromilhões, e vamos deixar de trabalhar, e fazer viagens cheias de aventuras e com dinheiro para gastar em cocktails, num bar da praia, ao pôr-do-sol. esquema sacrossanto C/ró/7.) - contexto a que não se pode fugir, intocável manco - sem mão ou pé, com urna ligeira deficiência lar de terceira idade - residência onde as pessoas idosas são acompanhadas dissimulado - disfarçado despertar a libido - fazer nascer o interesse sexual peúgas - meias de homem sumamente - muitíssimo Euromilhões - jogo de lotaria europeu
QUIOSQUE LITERÁRIO ESTUDO DA LÍNGUA TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) o homem já assobiava quando lhe abri a porta b) entrou com um ar muito sábio e expedito c) isto das solteironas, agora, é uma chatice, sobretudo porque já não parecem solteironas d) quis o fado que [o meu instrutor] se chamasse Camané e) somos todas muito parecidas, com o seu quê de burro 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) um roupão que me recuso a pôr de lado, porque foi a minha mãe que mo fez b) ora, vejamos: terá o homem visto na minha casa companhia? c) sou por deixar os homens casados sofrerem em paz esse erro d) ainda agora estive a rever uns filmes da Bridget Jones e) quero um homem parecido com o Colin Firth, mesmo que seja manco PARA IR MAIS LONGE» ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) frequentar o ginásio b) fazer séries de abdominais c) queimar gorduras d) repor os líquidos e) sentir os músculos a doer
A SOLTEIRONA PALAVRAS CARAS 3. Como se diz? Utilize o termo indicado para cada estatuto. Siga o exemplo. Exemplo: solteiro(a) - sem cônjuge a) - namoro b) c) d) e) f) g> h) - noivado - casamento - união de facto - relação extraconjugal - rutura (sem divórcio) - divórcio - óbito do cônjuge 4. Que características indicam estes adjetivos? Exemplo: sábio > a sabedoria a) fiel b) constante c) preguiçoso d) sensível e) ansioso — f) atrevido g) teimoso — h) simples i) altruísta _ j) modesto k) vaidoso l) corajoso m) maduro n) estúpido
QUIOSQUE LITERÁRIO 5. Crie títulos alternativos para os textos de Isabela Figueiredo utilizando palavras do texto. Siga o exemplo. Exemplo: ideal > “0 homem ideal é parecido com o Colin Firth." a) obsoleto b) rebelde c) doméstico d) desastroso e) apaixonada MÃOS À OBRA 6. Procure no excerto "O meu treinador pessoal” expressões equivalentes a estas de modo a completar as frases. a) No ginásio, são atenciosos para comigo. No ginásio, b) 0 treinador não rne fica caro. O treinador _ c) Tenha lá cuidado com a sua dieta. a sua dieta. d) Os miúdos fazem-lhe comentários. Os miúdos e) Chego a sentir-me mal. mal. 7. Conjugue estes verbos na 1.* pessoa do singular do Presente e do Pretérito Perfeito Simples do Indicativo. Siga o exemplo. Exemplo: passear > passeio / passeei a) marcar b) conhecer c) seguir d) dar e) cair f) negar g) obter h) recear i) redigir 1 j) ouvir k) eleger l) descobrir m) dispor n) concluir o) erguer p) caber -74 ►
A SOLTEIRONA 8. Substitua as perífrases verbais haver de + infinitivo pelas formas de Futuro simples (atenção à mesóclise: colocação dos pronomes no meio do verbo). Siga o exemplo. Exemplo: Hei de ver-me ao espelho. > Ver-me-ei ao espelho. a) Hás de casar-te no verão. b) O técnico há de empenhar-se. c) Nós havemos de reunir-nos. d) Eles hão de inscrever-se. e) Hei de pentear-me. f) Hei de explicar-te. g) Ela há de ajudá-la. h) Eles hão de contactar-nos. i) Tu hás de escrever-lhe. j) Havemos de recebê-lo. 75
QUIOSQUE LITERÁRIO EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE._ a) "olhem, olhem para mim, grandes filhos-de-uma-mãe-que-nem-u- ma-trinca-cá-hão-de-dar." A quem será que a narradora dirige esta ofensa e porquê? b) Qual lhe parece ser a diferença para a narradora entre a vida de solteira antes e depois dos 40 anos? c) Que tipo de sentimentos parece a narradora ter pelo treinador Ca- mané? Justifique a sua resposta. d) A narradora descreve um cenário doméstico em que come pistaches em frente à televisão. Descreva o seu próprio cenário doméstico num domingo de preguiça. e) Reflita sobre o significado da palavra "solteirona". Existe algum equivalente para esta palavra na sua língua? Considera que no seu país ou na sua cultura/religião ainda é difícil ser-se uma mulher solteira? f) Amem-se ou odeiem-se, os ginásios são parte integrante da cultura contemporânea. Tendo em conta a sua experiência, dê a sua opinião sobre os ginásios. SEM PAPAS NA LÍNGUA a) Os ginásios podem ser espaços nos quais as mulheres nem sempre se sentem à vontade, levando, por exemplo, à existência de "ginásios só para mulheres”. O que acha deste assunto? b) No terceiro excerto, a narradora identifica-se com a Bridget Jones. Escolha uma personagem de ficção e explique em que medida se identifica com ela. 76
A SOLTEIRONA V ESCRITA CRIATIVA a) Imagine que a narradora e a personagem Camané têm um jantar romântico. Descreva, com humor, este encontro. b) Escreva uma entrada de diário desta narradora começando com a frase "Hoje, dia 14 de fevereiro, foi o dia dos namorados”. PARA IR MAIS LONGE... a) Sugestão de leitura: Estar em casa, de Adília Lopes (Lisboa: Assírio & Alvim, versão aumentada de 2020). A poetisa portuguesa publica poemas, memórias e apontamentos sobre a casa em que sempre viveu. b) Sugestão de filme: John From, de João Nicolau (Portugal, 2015). Um filme original sobre a paixão que uma adolescente desenvolve por um novo vizinho durante um verão passado em Lisboa. c) Sugestão de canção: "A guerra das rosas”, de Camané (do álbum Do amor e dos dias, 2010). Na divertida letra desta canção, o fadista português encena uma estereotipada "guerra dos sexos".
Portugal Jorge Sousa Braga Jorge Sousa Braga (Cervães, 1957) é um poeta português com vários títulos publicados. Este poema, originalmente publicado no volume De manha vamos todos acordar com uma pérola no cu (Lisboa: Fenda Edições, 1981), integra a antologia O Poeta Nu (Lisboa: Assírio & Alvim - Grupo Porto Editora, edição de 2007). Portugal Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fàzes-me sentir como se tivesse oitocentos Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais e nunca mais voltasse Quase chego a pensar que é tudo mentira que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney c o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente Portugal Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional (que os meus egrégios avós me perdoem) D. SebastiSo (1557-1578) - o desaparecimento deste rei português numa batalha no norte de África conduziu à perda da independência do reino de Portugal e é tido como o fim do período da expansão portuguesa infiéis - historicamente, os não-cristãos Infante D. Henrique (1394 - -1460) - conhecido como “0 Navegador", foi considerado o grande impulsionador das viagens de descoberta marítima do século XV Nuno Álvares Pereira (1360- -1431) - general do século XIV, desempenhou um papel essencial na crise de 1383-1385 e tornou-se um modelo de nobreza para as gerações seguintes reles - insignificante Príncipe Valente - herói de uma banda desenhada tesão - excitação sexual egrégios avós - ilustres antepassados (esta expressão é um excer to do hino nacional português)
QUIOSQUE LITERÁRIO Ontem estive a jogar póker com o velho do Res- telo Anda na consulta externa do Júlio de Matos Deram-lhe uns electrochoques e está a recuperar aparte o fàcto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas Portugal Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador Portugal Vou contar-te urna coisa que nunca contei a ninguém Sabes estou loucamente apaixonado por ti Pergunto a mim mesmo como me pude eu apaixonar por uni velho decrépito e idiota como tu mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis delcntúgal e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade Portugal estás a ouvir-me? Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada de ressentimentos O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram nada de ressentimentos Um dia bebi vinagre nada de ressentimentos Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga velho do Restelo - personagem da epopeia Os Lusíadas, de Luís de Camões, que representa um conformismo passadista e a falta de visão e de audácia Júlio de Matos - hospital psiquiátrico em Lisboa aparte o facto - tirando o facto Mosteiro dos Jerónimos - monumento nacional do início do século XVI, associado à expansão marítima portuguesa resfriado - constipação, doença causada pelo frio (arrepios, mal-estar, etc.) Torre do Tombo - arquivo nacional português (1378) lograr - conseguir Gil Eanes (c. 1395-?) - navegador português que, após dobrar o Cabo Bojador (na costa do deserto do Sara), considerado intransponível na Idade Média, regressou com um ramo de flores locais como comprovativo decrépito - muito velho, caduco pastéis de Tentúgal - doce conventual típico da região de Coimbra Salazar (1889-1970) - ditador português que esteve na origem do regime autoritário e repressivo do Estado Novo (1933-1974) guerra - Guerra Colonial (1961-1974), longa guerra travada pelos militares portugueses contra os independentistas das antigas colónias africanas Os Lusíadas (1572) - poema épico de Luís de Camões que relata a história de Portugal e da expansão marítima 80
PORTUGAL ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou Portugal Sabes de que cor são os meus olhos? São castanhos como os da minha mãe Portugal gostava de te beijar muito apaixonadamente na boca eminentemente - muito, em grande medida Ceuta - praça-forte do antigo império português no norte de África, onde poeta Luís de Camões perdeu um olho em combate <81 ►
QUIOSQUE LITERÁRIO ESTUDO DA LÍNGUA TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) que os meus egrégios avós me perdoem b) nos espera um futuro de rosas c) a ver se contraía a febre do Império d) virei a Torre do Tombo do avesso e) nada de ressentimentos 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis b) não imaginas o tesão que sinto c) anda na consulta externa do Júlio de Matos d) sem lograr encontrar uma pétala que fosse e) como me pude eu apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu PARA IR MAIS LONGE... ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) um estado democrático / ditatorial b) a bandeira da república / da monarquia c) saber o hino nacional de cor d) ser capaz de enumerar os reis e as rainhas de cada dinastia e) poderes legislativo, executivo e judicial «82»
PORTUGAL PALAVRAS CARAS 3. Sublinhe o intruso na sequência de palavras. a) Antiguidade / Idade Média / Época Contemporânea / Renascimento / Anos 20 b) monarca / trono / ceptro / sufrágio / transmissão hereditária c) democracia / oposição / eleições / poder absoluto / liberdades individuais d) colonização / independência / restauração / anexação / primeiro- -ministro e) Renascimento / Perspetiva / Futurismo / Modernismo / Romantismo f) manuelino / românico / gótico / sebastianismo / barroco 4. Encontre sinónimos mais próprios de um registo literário. a) Naquela guerra ia acontecer uma desgraça. 1. erguer b) 0 exército português acabaria por ser derrotado. 2. ocorrer c) Na batalha, ouviam-se os guerreiros gritar. 3. perecer d) Eles tinham de levantar as espadas. 4. lograr e) D. Sebastião acabou por morrer em África. 5. sucumbir f) 0 exército voltou sem conseguir a vitória. 6. clamar 5. Associe as frases às expressões que fazem sentido Siga o exemplo. Exemplo: Que bela travessa de sardinhas aí tens! Bom proveito! a) Vou passar duas semanas de férias nos Açores. 1. Que falta de jeito! b) Deixou cair a garrafa e sujou a toalha de linho. 2. Livramo-nos de boa! c) Passei duas horas à espera nos correios para nada. 3. Bem feita! d) Aquele nosso colega odioso vai-se embora. 4. Quem me dera! e) Andou a bajular a professora, mas não passou. 5. Paciência! «83»
QUIOSQUE LITERÁRIO MÃOS À OBRA 6. Reutilize as expressões que aparecem no poema de modo a completar as frases. ando na / a ver se / chego a / estou na / faz-me sentir que / ia agora a) Trouxe o computador para casa,termino o trabalho. b) O meu sogro fala-me com um tom desagradável, ficar ofendido. c) Que coincidência teres ligado,telefonar-te. d)natação para tentar recuperar a forma. e) Este projeto dá-me uma energia doida,tenho 20 anos. f) Agora não posso falar,biblioteca. 7. Escreva os números por extenso. Siga o exemplo. Exemplo: 1957 > mil novecentos e cinquenta e sete a) 112 b) 658 c) 1543 d) 2017 e) 365 8. Crie frases com o Pretérito Imperfeito do Indicativo e do Conjuntivo. Siga o exemplo. Exemplo: biblioteca / ter o livro > Encontrei uma biblioteca que tinha o livro. > Não encontrei uma biblioteca que tivesse o livro, a) lâmpada / funcionar 84
PORTUGAL b) caneta / escrever bem c) estação de rádio / dar notícias d) anúncio / exigir experiência e) loja / fazer descontos f) móvel / caber na cozinha g) táxi / vir vazio h) supermercado / trazer as compras a casa 85
QUIOSQUE LITERÁRIO EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE... a) Explique o sentido dos seguintes versos: "Portugal / Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir / como se tivesse oitocentos". Por vezes, o seu país também o faz sentir assim? b) Neste poema, um rapaz de vinte e dois anos interpela Portugal. Acha que os países dão ouvidos aos mais jovens? c) Interprete a expressão repetida "nada de ressentimentos” no contexto do poema. d) De que maneira a escolha da forma de tratamento "tu” revela a relação de amor-ódio pelo país? e) "Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte / de África”: até que ponto as decisões do passado afetam as gerações seguintes? f) Na era da globalização, acha que os imaginários culturais de uma nação continuam a ser tão determinantes como no passado ou a sua influência é menor? SEM PAPAS NA LÍNGUA a) Encontram-se várias propostas de leitura em voz alta do poema “Portugal” na Internet: procure, por exemplo, a do ator Mário Viegas. Agora, é a sua vez! Prepare uma leitura de um poema na sua língua e depois explique em português as emoções que esse texto lhe transmite. b) Consegue pensar numa personagem mítica do seu país? Apresente-a e explique o que ela representa para si. 86 »
PORTUGAL ESCRITA CRIATIVA a) Inspirando-se no poema "Portugal", de Jorge Sousa Braga, escreva um poema dirigido ao seu país. b) Escolha uma importante personagem histórica do seu país e imagine que ela viaja até ao tempo em que vivemos. Escreva um texto em que imagine as reações dessa personagem perante os avanços científico- -tecnológicos dos dias de hoje. PARA IR MAIS LONGE». a) Sugestã: , de leitura: O teu rosto será o último, de João Ricardo Pedro (Lisboa: Editorial Caminho, 2011). Um romance que tem como ponto de partida a Revolução de 25 de abril de 1974 e que percorre várias décadas da história recente de Portugal. b) Sugestão de filme: Montanha, de João Salaviza (Portugal, 2015). Um filme sobre a passagem à idade adulta de um adolescente com um contexto familiar difícil, num bairro social que fica a norte de Lisboa. c) Sugestão de canção: "1970 (Retrato)”, de JP Simões (do álbum 1970,2006). Um balanço da geração a que pertence o compositor: "A minha geração já se calou, já se perdeu, já amuou, já se cansou, desapareceu, ou então casou, ou então mudou, ou então morreu; já se acabou".
Perto e longe Kalaf Epalanga Kalaf Epalanga (Benguela, 1978), também conhecido como Kalaf Ângelo, é um escritor e músico angolano que reside entre Lisboa e Berlim. Membro do grupo Buraka Som Sistema, escreveu vários livros, entre os quais Também os brancos sabem dançar (Lisboa: Editorial Caminho, 2018). Esta crónica foi publicada originalmente no jornal Público (www.publico.pt) em 26 de outubro de 2014. Numa tarde sem graça em Lisboa, num daqueles dias que ameaça mas não chove. Estava cu a descer o Chiado, fato completo, sapato engraxado, com saudades do tempo em que não vivi mas que reconhecemos das fotografias como aquelas de Fernando Pessoa, a caminhar pela cidade. Esbarro com um conterrâneo, um amigo de longa data, agora a viver em Luanda, que me saúda com um caloroso abraço assim que me vê, e me arrasta para a esplanada mais próxima sem me dar a mínima hipótese de recusar. Há que reconhecer, Lisboa c a cidade do reencontro e ninguém melhor que uns angolanos para a elevar a este estatuto. Ainda não tínhamos pousado nossas bundas nas cadeiras mas já um par de birras (imperiais) haviam sido pedidas. Para matar a sede, a saudade e brindar aos idos de 90, no tempo do “preto vai para a tua terra” vindo de uma voz anónima, no tempo do “evita o Bairro Alto no sem graça - aborrecido, desinteressante ameaçar - anunciar alguma coisa negativa Chiado - bairro central e cosmopolita de Lisboa fato completo - vestuário formal engraxado - com graxa, substância que dá brilho aos sapatos Fernando Pessoa (1888- 1935) - importante poeta e escritor português esbarrar com - deparar-se com, encontrar por acaso esplanada - mesas de café ou restaurante ao ar livre pousar nossas bundas (ong.. pop.) - sentar-se (bunda = nádegas) birras (ang.)l imperiais - copos de cerveja à pressão 0 uma birra/imperial fresquinha. acabada de tirar aos [tempos] idos - aos tempos passados Bairro Alto - bairro lisboeta conhecido pela animação noturna
QUIOSQUE LITERÁRIO dia de Camões e das Comunidades por causa dos cabeças rapadas”. Recorda o meu amigo, que aproveita esse danresco momento de nostalgia para lançar a questão basilar que aflige todos os que detêm uma relação afectiva com o país da Welwitsdria mirabilis, o que fazes aqui de tão importante para não arrumares as tuas bugigangas neste instante e desceres para participar no progresso da nação? Respondo-lhe: “Lisboa”. E claro que não cheguei a esta conclusão de forma pacífica. Convencido de que não seria capaz de viver numa única cidade, fiz aquilo que me pareceu mais sensato: conhecer o mundo. De um dia para o outro tornei-me um nômada cultural. Deslumbrado com esta liberdade cigana de desafiar os perigos da identidade panfletária, vim descobrir que o que me agrada mesmo c a soma. E Lisboa c isso, a soma de várias sensibilidades, vários sotaques e, como o tempo é um luxo que não possuo, não encontrei outra cidade que me convidasse a conhecer de urna assentada só os africanos que me fascinam, c estes falam português ou uma sua variação muito própria, muito sua, :t qual não consigo resistir. Já repararam que o discurso multicultural está a sair de cena e no seu lugar, ainda sem um nome que o identifique, está agora a ganhar forma um movimento cultural que deixou de olhar para o exterior. Deixou de se importar, por exemplo, com aquilo que pensam os patronos da world music. Estamos diante de uma “nova” música popular de origem africana e não existe cidade melhor do que esta onde nos encontramos para assistir a esta transformação. Porque hesitamos? dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas -10 de junho, feriado nacional em Portugal cabeças-rapadas - skinheads dantesco - horroroso, angustiante basilar - essencial afligir - inquietar Welwitschia mirabilis - plantas que só existem no deserto do Namibe, em Angola bugiganga (pop.) - objeto de pouco valor, coisa inútil cigana - típica dos ciganos, povo nômada panfletário - tipo de propaganda própria de ideologias extremistas soma - adição, totalidade sotaque - pronúncia, modo distintivo de falar que indica uma origem 0 o sotaque carioca (do Rio de Janeiro) é muito bonito luxo - bem ou objeto raro e precioso de uma assentada só - de uma só vez sair de cena - desaparecer importar-se - dar atenção a, preocupar-se com patrono - a4> pessoa influente, empresário «90
PERTO E LONGE Porque nos demoramos a mergulhar nesse universo que nos é tão próximo? As respostas que procuro neste preciso instante gravitam entre duas linhas — a de Cascais e de Sintra — sem esquecer, como é óbvio, outros pontos desta grande Lisboa onde habitam africanos mas cuja localização geográfica nos parece mais distante que o caminho que percorremos até Quelimane. gravitar - orientar-se, tender para linhas (de Cascais e de Sintra) - zonas da Grande Lisboa que correspondem aos circuitos de comboio suburbano 0 vivo na linha de Sintra Cascais e Sintra - cidades vizinhas de Lisboa Quelimane - cidade em Moçambique i 91
QUIOSQUE LITERÁRIO ESTUDO DA LÍNGUA '■r TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) ameaça mas não chove b) com saudades do tempo em que não vivi c) evita o Bairro Alto no dia de Camões [...] por causa dos cabeças rapadas d) participar no progresso da nação e) esta liberdade cigana de desafiar os perigos da identidade panfletária 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) que me saúda com um caloroso abraço assim que me vê b) há que reconhecer, Lisboa é a cidade do reencontro c) já repararam que o discurso multicultural está a sair de cena...? d) no seu lugar está a ganhar forma um novo discurso e) estamos diante de uma "nova" música popular de origem africana PARA IR MAIS LONGE... ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) beber um copo na esplanada b) duas imperiais / dois finos (no norte de Portugal) para matar a sede c) dar dois dedos de conversa d) pagar uma rodada e) brindar aos tempos idos ■ 92»
PERTO E LONGE PALAVRAS CARAS 3. Associe as ações às peças correspondentes segundo a lógica. a) engraxar 1. um sobretudo cheio de pó b) passar a ferro / engomar 2. um vestido demasiado largo c) escovar 3. um botão que se soltou do pijama d) coser 4. sapatos sem brilho e) apertar 5. um fecho-éclair encravado f) reparar ou consertar 6. camisas enrodilhadas 4. Sublinhe o intruso na sequência de palavras. a) cartão de cidadão / passaporte / carta de condução / visto de turismo / selo b) escolher um hotel / ir ao cinema / fazer um seguro / conferir datas / fazer a mala c) check-in / terminal do aeroporto / alfândega / montra / depósito de bagagens d) albergue / casa de turismo rural / farol / pensão / parque de campismo e) talão de cheques / cartão multibanco / recibo / código de barras / bateria f) viajante / nômada / forasteiro / veraneante / nadador-salvador 5. Preencha os espaços com palavras do texto. a) Aquele homem alemão fala português com um forte b) Os povos são povos que viajam. c) Esbarrei com um (alguém da minha terra). d) Por vezes, recordo o passado com um sentimento de e) Já repararam que o discurso multicultural está a sair de ? f) É tempo de conhecer melhor a música popular de africana. j «93 •
QUIOSQUE LITERÁRIO MÃOS À OBRA 6. Preencha os espaços com a preposição adequada, contraindo-a com o artigo definido se necessário. Se não for necessário preposição, escreva 0. Siga o exemplo. Exemplo: Esbarro com uma amiga que me arrasta para uma esplanada. a) Peguei garrafa gelada, mas deixei-a cair chão. b) Ele é assim: abraça um amigo de manhã e discute ele à tarde. c) Ontem, fui teatro sozinho e encontrei lá uma pessoa conhecida. d) Ao tirar o carro garagem, bateu portão. e) Encontrei-me a minha namorada Cinema¬ teca. 7. Acentue a forma verbal quando for necessário. Siga o exemplo. Exemplo: Um amigo... que me saúda. a) que me ve na rua b) que conheci na escola c) a quem pedi ajuda d) com quem eu sai muito e) com quern saia muito f) que mantem a esperança g) cujo irmão eu conhecia h) cujos pais tem dinheiro i) a quem doem os dentes j) a quem doi a cabeça k) que tem problemas l) que me instruia
PERTO E LONGE 8. Utilize o pronome relativo cujo/a/os/as. Siga o exemplo. Exemplo: país / PIB / elevado > Um país cujo PIB é elevado, a) continente / superfície / extensa b) nação / fronteiras / vigiadas c) região / transportes / eficazes d) cidade / população / multilingue e) avenida / árvores / bonitas f) capital / bairros / modernos g) zona / aldeias / tradicionais h) planeta / atmosfera / irrespirável
QUIOSQUE LITERÁRIO EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE... a) Comente o título desta crónica. b) O autor da crónica considera Lisboa uma cidade de reencontros. Quais são as vantagens e os inconvenientes de viver numa cidade em que é fácil encontrar pessoas conhecidas a toda a hora? c) "saudades do tempo em que não vivi”. De que tempos que não viveu sente saudades? De que pessoas que não conheceu sente saudades? d) O autor da crónica considera-se um nômada cultural. Considera o no- madismo cultural a melhor forma de conhecer o mundo? Porquê? e) A crónica fala da questão do racismo em Portugal, sobretudo no período pós-independência das colónias africanas, em que era preferível evitar certos lugares em certas ocasiões. Já viveu uma realidade semelhante? f) Ser cosmopolita ou ser provinciano: acha que estas características dependem do lugar onde se mora? SEM PAPAS NA LÍNGUA a) O autor da crónica recorda as fotografias de Fernando Pessoa a descer o Chiado. Já viu alguma destas fotografias? Faça uma pesquisa pela iconografia desse autor na Internet. Mesmo sem saber nada sobre Fernando Pessoa, o que lhe sugerem as imagens? b) O autor refere-se a Angola como “o país da Welwitschia mirabilis", uma planta única no mundo. Procure definir o seu país através de algo que só aí exista (um elemento natural, uma característica, uma marca, etc.). Seja o mais imaginativo possível e explique a sua escolha.
PERTO E LONGE ESCRITA CRIATIVA a) Tem talento publicitário? Faça uma apresentação divertida com alguns factos sobre a sua cidade para o site oficial do turismo. b) Imagine que dispõe de um semestre para ser um nômada cultural. Trace um itinerário completo com os seus planos e objetivos para cada etapa, sendo que não pode ficar menos de um mês numa localidade. Justifique as suas escolhas. PARA IR MAIS LONGE... a) Sugestão de leitura: Memórias da plantação: episódios de racismo quotidiano, de Grada Kilomba (tradução de Nuno Quintas, Lisboa: Orfeu Negro, 2019). Esta obra, originalmente escrita em inglês pela escritora portuguesa Grada Kilomba, analisa vários episódios que dão conta da violência e do trauma da discriminação racial. b) Sugestão de filme: Lisboetas (Portugal, 2004), de Sérgio Tréfaut. Trata-se de um filme sobre a imigração em Lisboa, cidade multilin- gue e multicultural, na viragem para o século XXI c) Sugestão de canção: "Portugal aos portugueses”, do rapper Chullage. Ouça com atenção esta letra sobre aqueles que "nasceram aqui, mas n III nunca foi amarelo” (cor dos antigos bilhetes de identidade, ou P.l, portugueses). $
A amiguinha da Rosa Lindacy Menezes Lindacy Menezes (Pernambuco, 1957) é uma escritora brasileira. Reside na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, e trabalha como empregada doméstica. Começou a escrever em 2017 e já participou em várias coletâneas. Este conto foi publicado originalmente no livro Eu me chamo Rio (Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2015). Tenho uma comadre que se chama Rosa. Foi sua irmã Francisca quem nos apresentou. Foi assim que vim morar na Cachopa, área no alto da Rocinha. Logo nos tornamos amigas. Grandes amigas. Não foi à toa que ela me convidou para ser madrinha dc sua filha. Eu também a convidei para ser madrinha da minha. Se um dia uma de nós duas Faltar, a outra substitui. — Queria te pedir um favor — disse-me ela no início de um mês de dezembro, faz tempo. — Se estiver ao meu alcance - respondi. — Está. Com certeza está. Ela queria que eu fizesse um bolo para uma menina que mora na frente de sua casa c completaria 15 anos. — Ela sempre sonhou em ter uma festa, só que « os pais dela são muito pobres. Rosa tinha intimidade suficiente comigo para saber três verdades sobre minha vida. A primeira, j; que sou a melhor boieira da Rocinha. A segunda: comadre - madrinha do filho (geralmente uma pessoa amiga) Rocinha - favela do Rio de Janeiro à toa - por acaso, sem razão aparente madrinha - testemunha em batizados de crianças, que, segundo a tradição, terá responsabilidades em caso de morte da mãe se estiver ao meu alcance - se eu puder ajudar bolo - doce à base de farinha, açúcar, ovos e outros ingredientes 0 quero um bolo de chocolate paro o meu aniversário boieiro - alguém que faz bolos 4 99
QUIOSQUE LITERÁRIO não sei dizer não a ninguém. E a terceira: adoro festa de 15 anos. - Ela tem mais sorte do que cu, que nunca tive pais — respondi, e por alguns momentos ela pensou ter ouvido o primeiro não da minha vida. — Mas, comadre... — protestou Rosa. - Não se preocupe, comadre - eu a interrompi. — Diga para sua amiguinha que vou fazer o bolo dela com o maior capricho. E só você arrumar o material que cu íàço como se fosse pra mim. — Confio no seu talento, comadre. Aquela era uma época difícil. Adolescentes rebeldes em casa, falta de dinheiro, violência na favela. Era tanto problema que nem percebi que a amiguinha dc minha comadre fazia aniversário no mesmo dia que eu. Tornou-se ainda mais difícil lembrar de comemorar meu próprio nascimento porque aquele também seria o fim de semana do casamento da filha de uma velha freguesa, cuja festa seria na quadra da Acadêmicos da Rocinha, do outro lado da avenida La- goa-Barra. Ela contratou o bolo, os salgados e a decoração. Cruzei com minha comadre na entrada do supermercado em que fui comprar os ingredientes tanto para o bolo quanto para os salgados do casamento. — Você aqui? — perguntei, surpresa. Ela estava com uma enorme quantidade de carne. Daria para um churrasco para pelo menos cinquenta pessoas. - Vim comprar uma carne para a gente assar no aniversário da minha amiguinha - explicou. Meu entusiasmo com o carinho e o cuidado que ela estava dedicando a sua amiguinha só «100 ► capricho - dedicação, cuidado ao realizar uma tarefa arrumar PB) - arranjar o material - os ingredientes comemorar - celebrar freguês - cliente habitual (neste caso, que compra bolos regularmente) quadra - quarteirão, zona delimitada salgados - aperitivos para festas (empadas, croquetes, bolinhos de bacalhau, etc.) cruzar com - encontrar por acaso churrasco - carne assada na brasa (carvão a arder), geralmente em festas o vamos fazer um churrasco este sábado a gente = nós arrefecer - % abrandar, ficar menos intenso
A AMIGUINHA DA ROSA arrefeceu quando ela pediu minha laje para fazer a festa. —Tá bom — aceitei, mas só por causa da minha dificuldade de dizer não. linha apenas quatro dias para deixar tudo pronto e tentei encurtar aquela conversa, mas ela não parava de me pedir coisas. — Dá pra você fazer a decoração também? Lembrei-me mais uma vez da minha adolescência, do meu sonho de ter uma bela fesra de 15 anos, de ser levada até o salão por alguém que pudesse chamar de pai. Que eu vivesse aquela felicidade por intermédio da amiguinha da comadre. — Pede pra sua amiguinha aparecer lá em casa — disse, tentando concluir a conversa. — A gente escolhe a cor da toalha. —Tá legal — ela respondeu. Quando chegou o dia do aniversário da amiguinha da minha comadre, tentei conduzir o dia normalmente, como se não fosse nada de mais virar a noite trabalhando para a festa dos outros no dia do próprio aniversário. Tem momentos na vida da gente que o trabalho é a única saída para enfrentar a tristeza. Não seria a primeira vez que isso me aconteceria. Fazia faxina todos os dias da semana e à noite preparava as festas, uma atividade que descobri quase sem querer, mais porque as pessoas gostavam das guloseimas que oferecia nas minhas próprias comemorações. Em outras épocas, preenchi o vazio no peito trabalhando na eterna obra da minha casa. Posso dizer que a levantei cavando na pedra com minhas próprias unhas. laje - <!> teto de cimento de uma casa de favela, usado como terraço dá pra...? - é possível...? salão - grande sala onde se pode dançar em festas por intermédio - através de toalha - pano que se estende sobre uma mesa tá legal (RB) - tudo bem nada de mais - nada de especial, de extraordinário da gente - de uma pessoa salda - maneira faxina -limpeza doméstica guloseima - doce o vazio no peito - a tristeza, o desconsolo obra - trabalhos de construção nas casas cavando na pedra com minhas próprias unhas - **> com grande esforço 0 o agricultor cava a terra «101 ►
QUIOSQUE LITERÁRIO PALAVRAS CARAS 3. Sublinhe o intruso na sequência de palavras. a) cantar os parabéns / dar os bons-dias / desejar felicidades / fazer anos b) oferecer um presente / ser promovido / pagar uma rodada / dar dinheiro c) soprar as velas / fazer cerimónia / cortar o bolo / pedir um desejo d) provar os salgados / servir-se da limonada / decorar a mesa / repetir a dose e) um chá / uma almoçarada / uma festa de arromba / um banquete 4. O que significam estas expressões do mundo do trabalho? a) fazer turnos b) chegar ao fim do expediente c) picar o ponto d) dar o litro 1. ir além do horário previsto 2. trabalhar duramente 3. terminar o serviço diário 4. não estar às ordens de outrem e) fazer horas extraordinárias f) trabalhar por conta própria 5. revezar o serviço com colegas 6. ter as saídas do trabalho controladas 5. Qual é a expressão que dá sentido às frases? Siga o exemplo. à boleia / ao calhas / à deriva / à espreita / a olho / ao pormenor Exemplo: Não foi à toa que me convidou para ser madrinha da filha, há uma razão! a) A vizinha é uma cuscuvilheira: passa o dia à janela,. b) Depois da festa, voltas para casa a pé ou no carro de um amigo? c) Quando jogo no Euromilhões, escolho os números , sem pensar. d) Quando faço um bolo, sigo a intuição e junto as quantidades e) Neste momento, sinto-me sem rumo certo na vida, um pouco f) Quero que me contes tudo o que se passou I «104»
A AMIGUINHA DA ROSA MÃOS À OBRA 6. Ligue as frases, utilizando os conectores indicados entre parêntesis e fazendo as alterações necessárias, como no exemplo. Exemplo: A Rosa pediu a minha ajuda. Queria organizar uma festa, (causal: pois / como) > A Rosa pediu a minha ajuda, pois queria organizar uma festa. > Como a Rosa queria organizar uma festa, pediu a minha ajuda. a) Ela é minha amiga. Ofereci-me para ajudar. (conclusivo: portanto / pelo que) b) Eu tinha muito trabalho. Caprichei, (adversativo: mas / embora) c) Esforcei-me. O resultado foi bom. (final: para / de modo a que) d) Percebi que a festa era para mim. Fiquei surpreendida, (temporal: quando / ao) e) Ela precisa da minha ajuda outra vez. Pode contar comigo, (condicional: se / caso) 7. Nestas passagens estão sublinhadas algumas particularidades sintáticas do Português do Brasil. Como se diria (e escreveria) em Português Europeu? a) Queria te pedir um favor. b) Tá bom - aceitei. 4 •. 105»
QUIOSQUE LITERÁRIO c) Pede pra sua amiguinha aparecer lá em casa. d) Tinha o sonho de ser levada até o salão pelo meu pai. e) Tem momentos que o trabalho é a única saida. 8. Escolha entre o Imperfeito e o Futuro do Conjuntivo. a) A minha comadre queria que eu fizesse / fizer um bolo para a amiga. b) Ela é boa pessoa, e, se estivesse / estiver ao meu alcance, faço tudo para a ajudar. c) Na altura, pensei: "quem me dera que a festa fosse / for para mim!” d) Ela comprou carne como se preparasse / preparar um churrasco para 50 pessoas. e) De qualquer modo, na minha casa, quem viesse / vier, será sempre bem-vindo. f) A Rosa poderá contar sempre comigo, haja o que houvesse / houver. «106»
A AMIGUINHA DA ROSA EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE... a) Porque acha que a narradora do conto nunca desconfiou que a festa era uma surpresa para ela? b) "Morta de cansaço, caí no sono com a cabeça em cima da mesa." Será possível que tudo o que acontece depois desta frase no conto não passe de um sonho da narradora enquanto dorme? Justifique a sua resposta. c) Como vemos neste conto, o aniversário dos 15 anos é uma celebração importante no Brasil. Em Portugal, festejam-se mais os 18 anos. Qual é a mudança de idade mais celebrada no seu país? E, no seu caso, qual foi o aniversário mais marcante? d) No texto, vemos como as comunidades de vizinhos podem ser fundamentais. Conhece os seus vizinhos e/ou as associações do seu bairro? De que forma estes e/ou estas são importantes para a sua felicidade e bem-estar? e) "Aquela era uma época difícil. Adolescentes rebeldes em casa, falta de dinheiro, violência na favela." Considera que é difícil manter as festas e outras celebrações durante tempos difíceis ou, pelo contrário, estas são importantes como forma de manter a moral? f) A narradora diz aceitar que a festa aconteça na sua laje dada a sua dificuldade de dizer "não”. Também partilha esta dificuldade? Quais sãn as vantagens ou desvantagens de ser capaz de dizer "nãu" aos outros? SEM PAPAS NA LÍNGUA a) Planeie uma festa de aniversário surpresa para o seu melhor amigo ou para a sua melhor amiga num país de língua portuguesa. Escolha o espaço da festa (por exemplo, a praia, uma esplanada, um terraço), faça uma lista de comes e bebes (a partir da gastronomia portuguesa, brasileira, moçambicana, etc.) e elabore uma lista de música inteiramente em português. . 107 ►
QUIOSQUE LITERÁRIO b) Qual é a importância dos atos de gentileza para com os outros? Elabore uma lista de coisas que podem tornar as outras pessoas mais felizes - faça essas coisas amanhã e depois partilhe os resultados da experiência. ESCRITA CRIATIVA a) Escreva um texto sobre o seu melhor amigo ou a sua melhor amiga: descreva-o(a). tente explicar o que vos une e conte um episódio importante que viveram juntos(as). b) Imagine que é a narradora e que escreve uma carta ao seu "eu" dos 15 anos. 0 que lhe diria? PARA IR MAIS LONGE... a) Sugestão de leitura: Olhos cTágua, de Conceição Evaristo (Rio de Janeiro: Palias Editora, 2014). Um conjunto de histórias sobre as duras condições de vida enfrentadas por muitas mulheres afro- -brasileiras. b) Sugestão de filme: Que horas ela volta?, de Anna Muylaert (Brasil, 2015). Um filme que aborda a questão das desigualdades sociais no Brasil através do reencontro entre Vai, empregada doméstica na casa de uma família de classe alta, e a filha, que não vê há anos. c) Sugestão de canção: "Amigo é casa”, interpretada por Zélia Dun- can e Simone (do álbum Amigo é casa, de Zélia Duncan, de 2008). Um clássico onde se ouve “Amigo é feito casa que se faz aos poucos / e com paciência pra durar pra sempre”. 108
Gentrificasamba Luca Argel Luca Argel (Rio de Janeiro, 1988) é um poeta, músico e compositor brasileiro que reside em Portugal, no Porto. Publicou vários livros de poesia, como, por exemplo, Uma pequena festa por uma eternidade (Rio de Janeiro: 7 letras, 2016). Este samba integra o álbum Conversa defila (2019). Fechou o livreiro, fechou a quitanda e o florista A cidade vai virar só hotel para turista Fechou a taberna, a confeitaria e o alfarrabista A cidade vai virar só hotel para turista Eu estou muito feliz que a cidade está mudando Tudo vai se transformando num imenso grande hotel Lá no bairro, depois que abriram a comporta Já bateram em minha porta, e eu assinei o papel Vou morar num hotel Já me disseram que os que moram em hotéis Tem direito a roupa lavada, a cama arrumada e massagem nos pés Não vejo a hora de sair do aluguel ; Quando a minha casinha for promovida a hotel Vai ser sopa no mel quitanda (PB) - mercearia, loja pequena onde se vende comida virar (PB) - tornar-se taberna - estabelecimento popular onde se vende comida e bebida a baixo preço confeitaria - loja onde se fabricam e se vendem bolos alfarrabista - loja onde se vendem livros usados, em segunda mão abrir a comporta - abrir caminho, deixar passar aluguel (PB) = aluguer (PE) - valor pago mensalmente pelo arrendamento de uma casa ou de um apartamento 109
QUIOSQUE LITERÁRIO Se eu tivesse esse futuro à vista Já tinha investido há inais tempo na profissão de turista Hoje os meus votos para o próximo Nobel Vão pro ilustre indivíduo que inventou o hotel Esse é bacharel os meus votos - o meu desejo, a minha escolha bacharel - indivíduo esperto, inteligente «110
GENTRIFICASAMBA estudo da língua TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) a cidade vai virar só hotel para turista b) depois que abriram a comporta c) eu assinei o papel d) vai ser sopa no mel e) se eu tivesse esse futuro à vista já tinha investido [...] na profissão de turista 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) já me disseram que . ... b) os que moram em hotéis c) têm direito a roupa lavada d) não vejo a hora de e) sair do aluguel —— — PARA IR MAIS LONGE™ ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) reservar um quarto duplo com uma cama extra b) ficar hospedado(a) c) regime de meia-pensão / pensão completa d) preços de época baixa / alta e) quarto com vista para a praia PALAVRAS CARAS 3. Em que local se podem ouvir estas frases? a) “Não. não me fica bem. Posso experimentar um número acima?” «ui ►
QUIOSQUE LITERÁRIO b) "Queria uma tosta-mista e um galão, se faz favor." c) "Deseja gasolina ou gasóleo?" d) "Essa nódoa na toalha é mais difícil, mas vamos tentar tirar.” e) *0 prato do dia é bacalhau com natas.” f) "Queria um corte como o da Scarlett Johansson." 4. Associe estas lojas aos produtos a) retrosaria 1. b) talho (PE) / açougue (PB) 2. c) mercearia 3. d) ourivesaria 4. e) loja de ferragens 5. f) pastelaria 6. que nelas se podem comprar. géneros alimentares joias, ornamentos e relógios produtos de bricolage e construção car ne e, por vezes, charcutaria doces e salgados tecidos, fios e lãs 5. Indique pelo menos dois objetos úteis para cada uma destas situações. Há várias respostas possíveis. a) visitar uma cidade estrangeira b) ir fazer um piquenique no parque c) fazer compras no mercado d) viajar no metro e) ir à praia f) caminhar na montanha MÃOS À OBRA 6. Ligue as duas colunas de modo a formar frases gramaticalmente corretas. a) Já me disseram b) Desde que mudei de casa, c) Se eu tivesse sabido antes, d) Não vejo a hora e) Quando eu for para o hotel, f) Eu estaria melhor 1. se tivesse mais conforto. 2. tinha tido mais conforto. 3. de ter mais conforto. 4. que vou ter mais conforto, 5. vou ter mais conforto. 6. tenho tido mais conforto. « 112 »
GENTRIFICASAMBA 7. Nas passagens seguintes encontram-se elementos próprios do Português do Brasil. Como se diria (e escreveria) em Português Europeu? a) A cidade vai virar hotel — . b) A cidade está mudando c) Tudo vai se transformando d) Já bateram em minha porta e) Os meus votos vão pro indivíduo... 8. Crie frases nas vozes ativa e passiva usando o Futuro do Conjuntivo. Siga o exemplo. Exemplo: pagar a renda > Quando eu pagar a renda, aviso-te. > Quando a renda for paga, aviso-te. a) contactar o condomínio b) fazer obras em casa c) ver o contrato d) escrever a ata da reunião e) pôr os móveis na sala f) dar as chaves ao inquilino g) saber a causa do problema h) assinar a escritura <■113
QUIOSQUE LITERÁRIO EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE... a) Como interpreta a declaração do protagonista deste texto, que se diz "muito feliz” por ir viver num hotel? b) Procure no YouTube o vídeo da canção "Gentrificasamba”. Qual o sentido do progressivo fechamento do cantor e da sua banda no espaço apertado do quiosque? c) Em que medida é que os fenómenos da gentrificação e dos alojamentos de curta duração podem ser vantajosos ou prejudiciais para os habitantes das cidades? d) Será que ainda existem alternativas ao turismo de massas ou estamos todos condenados à mesma experiência global? Caso considere que existem alternativas, indique quais são. e) "Ir para fora cá dentro”. Será que, no futuro, os destinos de férias passarão a ser cada vez mais locais e dentro do país de cada um? Faça uma previsão. f) Consegue identificar lojas e profissões que estão a desaparecer nas cidades? Dê exemplos e indique alguns dos motivos que podem estar na origem da sua extinção. SEM PAPAS NA LÍNGUA a) Seja repórter por um dia! Identifique sinais de gentrificação na sua cidade (ou na cidade mais próxima de onde vive). Utilize vídeos, fotografias, citações, etc., e faça um bom uso de vocabulário apropriado, como, por exemplo, ”a gentrificação", "a população residente", "o comércio local”, ”o alojamento local”, etc. b) Pense numa ideia de negócio inovador na cidade que seja inclusivo e que respeite as boas práticas de vizinhança. Imagine os passos necessários para o levar a cabo. «114»
GENTRIFICASAMBA ESCRITA CRIATIVA a) Qual será o fim da personagem do poema de Luca Argel? Estará ele destinado à felicidade, como parece acreditar? Continue o poema e crie alguns versos para indicar o que aconteceu após este ter "assinado o papel". b) Imagine que acabou de acordar num quarto de um alojamento local sem saber como lá chegou. Num breve passeio pela rua, apercebe-se de que está numa grande cidade europeia, mas não a consegue distinguir. Depara-se com o mesmo tipo de comércio em todos os lugares, os mesmos restaurantes de comida rápida, e, à sua volta, só existem turistas. Escreva um texto de ficção a partir deste cenário. PARA IR MAIS LONGE... a) Sugestão de leitura: Nove fabulo, o mea vox/ De novo falo, a meia voz, de Alberto Pimenta (Lisboa: Pianola 12, 2016). Nesta recolha, entre outros poemas que retratam questões sociais contemporâneas, encontramos “Beau monde", nome de um futuro hotel "há meses a acrescentar / andares sobre andares, / onde eram jardins / e grandes árvores / e uma vivenda do século XIX”. b) Sugestão de filme: Aquarius, de Kleber Mendonça Filho (Brasil, 2016). Aos 70 anos, Clara é pressionada para vender o apartamento onde sempre viveu, mas trava uma batalha contra a especulação imobiliária. c) Sugestão de canção: "Pra quê chorar”, de Marfnália (do álbum Marfnália em samba! (Ao vivo) (2015)). A artista faz uma homenagem ao samba, reinterpretando grandes clássicos como esta vibrante canção, com letra de Vinicius de Moraes e música de Baden Powell.
Colonialismo culinário Lucy Pepper Lucy Pepper (Cambridgeshire, 1970) é uma escritora e ilustradora inglesa residente em Portugal. Publicou Como não morrer de fome em Portugal: histórias de uma inglesa apaixonada pelo nosso país (Carnaxide: Objectiva, 2016) e é coautora do guia Eat Portugal: the essential guide to Portuguesefood (Alfragide: Lua de papel, 2017). Este texto foi publicado no jornal Observador (www.observador. pt) em 29 de março de 2015. Ai, meu deus, aconteceu outra vez. Estou envergonhada. Os britânicos, todos sabemos, são um bocadinho estranhos. Por um lado, somos fabulosamente arrogantes, como os franceses. Por outro, e ao contrário dos franceses, sofremos de um complexo de inferioridade terrível quanto à nossa culinária nacional. Esta dicotomia inspira-nos comportamentos esquisitos. Vamos buscar receitas a outros países, porque nos sentimos inferiores, e depois muda- mo-las para serem como nós achamos que deviam ser, porque somos arrogantes. Um exemplo desta apropriação é a receita para pastéis de nata na edição deste mês da revista Good Food., editada pela BBC. Encontramos í aí umas coisas horrendas, feitas de uma receita que foi inventada, presumivelmente, por causa do nome e por causa de uma aparente falta de , conhecimento do que c um pastel de nata na envergonhado - com vergonha, sentimento de insegurança e embaraço Q fiquei envergonhado por ter de cantar diante dos meus colegas dicotomia - divisão em duas partes antagónicas esquisito - estranho, invulgar, bizarro receita - fórmula que indica como confecionar um prato apropriação - fenómeno de adaptação de um aspeto de outra cultura, muitas vezes com fins comerciais pastel de nata - bolo típico português com creme de ovos e massa folhada -117
QUIOSQUE LITERÁRIO realidade. Não, Grã-Bretanha, não há nata nessa coisa que hoje em dia se vende aos milhões rodos os dias em Portugal com o nome de pastel de nata. Sim, c confuso, mas vá lá, também não há sapos dentro de um toad-in-the-hole (sapo no buraco). Ok, qualquer coisa c melhor do que o custard tart inglês, que é uma aberração de leite creme com textura de borracha dentro de uma massa arcada industrial. Não estou a exagerar quando digo que só ao fim de quatro anos a viver em Portugal c que provei um pastel de nata, apenas porque me disseram que era um custard tart, e a minha alergia aos custard tarts ingleses era realmente forte. Mas o aspecto desta Portugucse cgg custard tart é pouco melhor. Para ser justa, na revista não lhe deram o nome de pastel de nata, mas todos sabemos que era isso que queriam dizer. Com a recente subida meteórica do pastel, é pouco provável que fosse receita para outra coisa. A moda é a moda. Não foi a primeira vez. Há umas semanas, o Jamie Oliver apresentou aquele bacalhau à Brás ridículo, e, há um par de anos, apareceu o caldo verde de risos do Nigcl Slarcr, com as suas folhas inteiras de couve e quilos de chouriço. Pora os pastéis de nata, falando esteticamente, o problema é que a maior parte dos pratos portugueses não tem o aspecto desejado pelos chefes célebres e pelas corporações dos media, para merecerem ser colocados nos seus livros e websites. A maior parte da culinária portuguesa tradicional não é muito fotogénica. Imagine tentar tornar lindo um prato como o cozido à portuguesa, a dobrada ou uma açorda. Realmente, não há nada nata - gordura do leite, muito usada na culinária 0 fazer um molho de cogumelos com natas aberração - invenção monstruosa leite-creme - sobremesa à base de creme de leite, açúcar, ovos e farinha borracha - material duro e elástico (usado, por exemplo, nas botas para a chuva) massa areada - massa pré-confecionada que se compra no supermercado para cozinhar bacalhau à Brás - receita com bacalhau desfiado, batata frita palha, ovos, cebola, alho, azeitonas e salsa picada caldo-verde - sopa à base de couve cortada muito fina e rodelas de chouriço de risos - que faz rir couve - legume muito cozinhado em Portugal chouriço - enchido de carne de porco típico de países ibéricos fora - à parte, além de corporação - conjunto de profissionais da mesma área cozido à portuguesa - prato com várias carnes e legumes cozidos em água dobrada - prato com vários tipos de carne e tripas (intestino animal) açorda - prato à base de pão a que se podem juntar ovos, bacalhau, gambas, etc. 118
COLONIALISMO CULINÁRIO que a fotografia — de alto contraste, cores frias, profundidade de campo reduzida, fotografada numa mesa antiga do jardim com loiças variadas — possa fazer para tornar bonito o pão esmagado em água quente, com ou sem grandes gambas a nadar dentro. Um monte de bacalhau à Brás, feito como deve ser, não tem aquele aspecto lindo da versão arranjada no prato pelo Jamie, com aquelas batatas crocantes à volta (não estão lá para serem estaladiças... as batatas amolecem dentro dos ovos. Todas as batatas, ó Jamie, todas). O caldo verde, a não ser que haja tempo e paciência para cortar a couve à mão, tem um aspecto um pouco industrial, e por isso, claro, a versão do Nigel tem aspecto melhor, pelo menos para eles (mais rústica, talvez?). Para mim, só me faz rir. Já agora, por Favor, não levem nada disto a mal. Eles, isto é, nós fazemos isto a todos e a tudo. Cresci nos anos 70 a comer coq au vin e tenho quase a certeza de que não tinha nada a ver com coq au vin. O prato nacional da Inglaterra não c os fish andchips como sempre me dizem os portugueses, mas chicken tikka tnasala, que nem é indiano, mas uma confecção baseada em tan- doori com um molho cor de laranja que é horrível. Que mal faz este hábito britânico? Ao lado de todos os males do mundo, nenhum, mas irrita. Irrita que vocês, portugueses, ainda achem que a culinária britânica c uma porcaria, e irrita quando, ao apropriarem-se de uma receita para a “melhorar”, os britânicos confirmam que é de facto uma porcaria. Se um chefe culinário não pode reproduzir um creme de ovos simples. esmagado - triturado, desfeito gambas - grandes camarões (crustáceos) como deve ser - de forma correta crocante / estaladiço - que faz um ruído seco ao ser trincado, como as batatas fritas amolecer - ficar rnole, deixar de ser duro levar a mal - ficar ofendido com alguma coisa confe(c)ç8o - preparação molho - preparado líquido para acompanhar pratos (na culinária) uma porcaria - coisa malfei ¬ ta ou sem qualidade 119
QUIOSQUE LITERÁRIO pela vista e pelo sabor (e levando o nome rodo a sério), então não é um grande chefe culinárjo. Irrita que haja pessoas (embora sejam pouco inteligentes) que, ao visitar Portugal, vão ficar desiludidas porque o pastel, o caldo e o bacalhau à Brás genuínos que encontram cá não são as coisas que a BBC, nem o Nigel, nem o Jamie lhes prometeram. Irrita que os chefes célebres ainda exerçam tanto poder sobre tanta gente. Lá e cá. exercer poder - ter domínio, influência lá e cê -no Reino Unido e em Portugal 120
COLONIALISMO CULINÁRIO ESTUDO DA LÍNGUA TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) uma receita que foi inventada [...] por causa do nome b) também não há sapos dentro de um toad-in-the-hole c) a recente subida meteórica do pastel d) o caldo-verde de risos do Nigel Slater e) imagine tentar tornar lindo um prato como o cozido à portuguesa 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) os britânicos são um bocadinho estranhos b) sim, é confuso, mas vá lá... c) só ao fim de quatro anos a viver em Portugal é que provei um pastel de nata d) o caldo verde parece industrial, a não ser que haja tempo e paciên¬ cia... e) já agora, por favor, não levem nada disto a mal PARA IR MAIS LONGE™ ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) A mesa está posta. Venham para a mesa! b) Tenho tido falta de apetite. c) Já se petiscava qualquer coisa. d) Quero o meu bife bem-passado / malpassado. e) Este robalo está cru / demasiado cozido. 121
QUIOSQUE LITERÁRIO PALAVRAS CARAS 3. Ligue os utensílios de cozinha à ação que permitem executar. a) b) batedeira colher de pau 1. 2 mexer uma sopa ao lume estrelar um ovo c) ralador 3. preparar um sumo de laranja d) frigideira 4. bater claras em castelo e) tábua e faca afiada 5. ralar queijo f) espremedor 6. cortar um naco de carne em fatias 4. Inclua cada alimento no grupo a que pertence. A - carne / B - peixe / C - marisco / D - vegetais a) espinafres k) beringelas b) frango l) escalope c) peixe-espada m) amêijoas d) costeletas n) postas de vitela e) alcachofras o) ostras f) atum p) vieiras g> camarões q) sardinhas h) borrego r) cenouras i) mexilhões s) linguado j) robalo t) espargos 5. Associe cada frase à ideia contrária. Exemplo: Preparou-nos um almoço sumptuoso vs. frugal! a) Esta dourada está insossa. 1. solto(a) b) A mousse ficou compacta. 2. a escaldar c) 0 molho saiu demasiado líquido. 3. salgado(a) d) 0 arroz ficou empapado. 4. tenro(a) e) A carne está dura. 5. fofo(a) e leve f) 0 chá está morno. 6. espesso(a) ■ 122
COLONIALISMO CULINÁRIO MÃOS À OBRA 6. Dê um palpite para as palavras em falta. Depois releia o texto e confirme. a) Vou fazer um bacalhau à Brás como b) É preciso tempo e paciência para cortar a couve c) Este coq au vin não tem nada com o coq au vin genuíno! d) Por favor, não levem nada disto 1 e) Este hábito dos britânicos não nenhum, mas irrita. 7. Qual é a palavra ou expressão em falta? fora / além de que / a não ser que / ainda que / apesar de a) Ainda tenho fome _ . já me ter servido da tra¬ vessa por duas vezes. b) O menino não come o peixe, os pais já te¬ nham tirado as espinhas. c) Queria fazer broa, mas não tenho tempo, me faltam ingredientes. d)as ervilhas, não há nenhum legume de que não goste. e) Adoro empadão,seja um pouco complicado de fazer. 8. Distribua as expressões no texto de modo a torná-lo mais coeso. antes de mais / em conclusão / segundo / ainda por cima / no entanto / assim / na sua opinião Nesta crónica, a autora inglesa Lucy Pepper aborda a questão da apropriação culinária por parte dos britânicos, (a) — afirma-se envergonhada porque "aconteceu outra vez", (b) , os britânicos têm o hábito de se apropriarem «123»
QUIOSQUE LITERÁRIO de outras gastronomias e, (c) -las"! Um dos objetivos é, (d) pratos um aspeto mais apresentável: (e) , tentam “melhorá- a autora, dar aos . um ba- calhau à Brás aparece muito bem arranjado com batatas crocantes à volta, (f) , os pratos portugueses sâo pouco foto- génicos. (g) , Lucy Pepper pede que não se leve a mal este hábito, que não é um grande problema, mas irrita. 124»
COLONIALISMO CULINÁRIO EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE.. a) Nesta crónica, fala-se da "apropriação" de pratos portugueses por chefes ingleses, sem que o resultado agrade à autora do texto. O que sabe sobre o fenómeno de apropriação de hábitos culturais de outros países? Dê exemplos. b) Apesar do preconceito de género que associa o espaço da cozinha às mulheres, os chefes de cozinha mais mediáticos, e todos os que aparecem citados nesta crónica, são homens. Que razões podem estar na origem desta situação? c) A gastronomia pode ser uma ponte cultural que une diferentes povos e faz parte das relações históricas entre os países. Concorda com esta afirmação? Tente dar exemplos. d) O texto refere a "recente subida meteórica do pastel [de nata]" no Reino Unido. Lembra-se de alguma moda gastronómica que tenha surgido no seu país nos últimos anos? e) Segundo a autora, alguns pratos típicos de Portugal são pouco fotogé- nicos. No seu caso, o que costuma privilegiar quando pensa num prato: o aspeto ou o sabor? f) Tem orgulho na gastronomia do seu país? Na sua opinião, que prato melhor a representa? SEM PAPAS NA LÍNGUA a) Tire uma fotografia ao seu mais recente jantar, seja ele qual for, e tente vendê-lo como uma iguaria, valorizando os aspetos mais inesperados. Lembre-se de que Lucy Pepper avisou que nem sempre as fotografias fazem justiça aos pratos. b) Elabore uma lista de cinco alimentos que nunca faltam no seu frigorífico e, a partir daí, descreva sucintamente os seus hábitos alimentares. « 125 ►
QUIOSQUE LITERÁRIO ESCRITA CRIATIVA a) Escreva uma crónica sobre uma viagem que tenha feito com base apenas nas experiências gastronómicas que viveu. b) Imagine que tem de acolher uma família de representantes de uma nação longínqua. Elabore duas ementas: uma que seja fiel à gastronomia tradicional do seu país e outra que reflita os hábitos reais do dia a dia. Conclua indicando que ementa escolheria e porquê. PARA IR MAIS LONGE... a) Sugestão de leitura: Em Portugal não se come mal, de Miguel Este- ves Cardoso (Lisboa, Assírio & Alvim: 2008). Trata-se de um conjunto de crónicas gastronómicas escritas com humor e perspetiva histórica. b) Sugestão de filme: O animal cordial, de Gabriela Amaral (Brasil, 2017). Uma história de suspense sobre um assalto que decorre a altas horas da noite num restaurante de classe média brasileira. c) Sugestão de canção: “Vayorken", de Capicua (do álbum Sereia louca, 2014). 0 brinc dance vem de Vayorken, o graffiti vem de Vayorken, a Jane Fonda vem de Vayorken: veja o videoclipe oficial e tente perceber a que cidade se refere a cantora, que se “apropriou" de todos estes elementos culturais na infância. 126
Marquises Luís Henrique Pellanda Luís Henrique Pellanda (Curitiba, 1973) é um escritor, jornalista e músico brasileiro, autor de vários volumes de contos e crónicas, como, por exemplo, Nós passaremos em branco e Asa de sereia (Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2011 e 2013). Esta crónica foi publicada no livro Detetive à deriva (Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2016). Estamos na Carlos de Carvalho. E meio-dia e o povo se espreme sob as marquises. O vento vai nos ensopando devagar, do umbigo para baixo. Somos uma massa úmida de angústias, mas um de nós, só um, não liga para a chuvarada. É um homem de 40 anos, sentado num degrau de portaria. Observa a água avançar pelo asfalto, no sentido oposto ao do trânsito. A sujeira impermeabilizou suas roupas, e o couro de suas botinas, descolando da sola, nos envia um sorriso de cartum. Um outro homem, da mesma idade, executivo ou advogado, chega correndo. Ele se acomoda entre nós, batendo os pingos do paletó. Ve o cara no chão e, de repente, sofre um ataque de benevolência. Pergunta ao sujeito se ele já almoçou. Como resposta, ouve um não desconfiado. ) Parece aprovar a fome do outro, c pede a ele que espere cinco minutos, não saia daí, vou comprar « espremer-se - apertar, comprimir-se 0 espremer laranjas para fazer sumo marquise - varanda, parte externa de um edifício onde nos podemos abrigar da chuva ensopar - molhar muito umbigo - cicatriz no meio da barriga, originada pelo corte do cordão umbilical úmida (PB) - húmida (PE) angústia - ansiedade, inquietação, aflição portaria - entrada de um edifício asfalto - pavimento das estradas 0 o carro circula no asfalto sujeira - o que está sujo, imundície (* limpo) botinas - calçado de couro cartum (PB) - cartoon, desenho caricatural pingos - gotas da água da chuva paletó - casaco comprido > cara (PB) - o tipo (PE), o indivíduo «127-
QUIOSQUE LITERÁRIO uma marmita para você. Faz menção de entrar num restaurante, mas o homem sentado o detém aos bufos, contrariado, sabe que o brasileiro é autoritário até na caridade. Já de pé, pergunta: “E eu pedi isso, por acaso?” O caridoso não entende, como é que é? O outro explica que não é de pedir, não gosta de receber ordens de ninguém, e muito menos comida. Só estava sentado, de boa, admirando a chuva. O advogado, ou executivo, dá sinais de enfezamento, mas é logo amansado, pois o ofendido torna a lhe fazer perguntas duras, qual é a sua, o que quer comigo, afinal? Não é mendigo, nem homem de esperar machos, marmitas ou respostas, e por isso dá logo o seu veredito: “Você quer é coisas comigo”. E enfatiza o substantivo “coisas”, que repete uma dúzia de vezes, de boca cheia, como se o comesse. Que coisas seriam essas, jamais saberemos. O executivo, ou advogado, corroído pela mágoa ou, talvez, por secretas perturbações, nem discute. Foge aos saltos, sacrificando a própria reputação à tempestade. Encharcado, some na esquina da Cabral. Agora estamos na Riachueio. A chuva é forte, mas o vento nos dá uma trégua. Na marquise, uma moça busca convencer um velho a perdoá- -la. Não sabemos qual foi seu erro, mas o casal age como se debatesse um crime. Ela jura que o ama, que foi a última vez. Ele tenta parecer furioso, mas a musculatura de seu rosto anda exausta de machezas. Infantil, apenas vira a cara e resmunga: “Não perdoo”. A moça peigunta o que deve fazer para adoçá- -lo, e ele garante que nada. Ela insiste, o senhor «128» marmita - prato de comida que se transporta num recipiente com tampa aos bufos - expelir ar pela boca ou pelo nariz, de mod° a exprimir desagrado de boa - tranquilamente enfezamento - aborrecime^ to. irritação, impaciência amansado - calmo, sossega* do (*furioso) qual é a sua? - o que pre** tende? veredito - sentença, soluç^0 para um problema enfatizar - salientar corroído - enfraquecido* abatido mágoa - humilhação, tristeza aos saltos - pulando, com movimentos rápidos encharcado - ensopado, muito molhado sumir na esquina - desaparecer ao virar a rua dar tréguas - cessar de forma temporária algo que é incómodo 0 ambos os países decidiram dar tréguas às hostilidades exausto - farto, que já não pode continuar macheza - carácter de macho, bruto e violento resmungar - falar baixo e com mau humor adoçar - amansar, pôr de bom humor
MARQUISES endurece e o impasse os imobiliza, aré ela anunciar uma ideia nova, extrema: “E se eu me ajoelhar nesta poça dágua, de calça branca?” O velho vai protestar, mas não dá tempo. Ela se ajoelha, abraça as pernas dele, quase o derruba. A calça branca está perdida, e o velho, embora mau, não suporta tanta degradação. Começa a chorar e, aflito, ergue a namorada. Entre lágrimas, amoroso, a repreende: “Era a tua melhor calça, neném!” A água sobe depressa na Visconde de Nácar, e um casal emburrado gruda as costas na vitrine da loja de lustres. Homem e mulher nada dizem, há muito deixaram de ter bocas, línguas, cordas vocais. Mas, quando a enxurrada traz até eles o cadáver afogado de um rato, a mulher reaprende a falar e diz, penalizada: “Coitadinho”. Santo roedor, é um duplo milagre: o homem também reencontra seu verbo e sua comunica- bilidade, mas tem o sangue irritadiço, e suas palavras são de ódio, onde já se viu ter dó de rato, um bicho que nos transmite doenças? Ele parece ter razão, é o que achamos todos nós, sob a marquise, mas a esposa, calma, logo nocauteia o marido: “Você também transmite doenças, já esqueceu?” Dito isso, ambos voltam ao silêncio que os protege» e suas bocas cicatrizam para sempre, como feridas antigas, ou bueiros entupidos. ajoelhar - pôr-se de joelhos 0 ajoelhou-se para rezar na igreja derrubar - fazer cair aflito - atormentado, muito preocupado neném (RB) - bebé (forma carinhosa de falar) emburrado (RB) - que está em desacordo, zangado grudar (RB) as costas - en- costar-se a alguma coisa lustre - candeeiro de teto enxurrada - volume de água que corre com força quando chove muito afogado - morto por asfixia (debaixo de água) penalizado - com pena, a sofrer pela desgraça alheia dó - pena nocautear (RB) - deixar sem reação (do inglês knockout) cicatrizar - fechar-se bueiro - escoadouro na rua para as águas da rua, sarjeta entupido - tapado, obstruído 0 os canos estào entupidos 129
QUIOSQUE LITERÁRIO ESTUDO DA LÍNGUA W «• TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) somos uma massa úmida de angústias b) o couro de suas botinas, deslocando da sola, nos envia um sorriso de cartum c) batendo os pingos do paletó d) sofre um ataque de benevolência e) tem o sangue irritadiço 2 Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) um de nós não liga para a chuva b) ele faz menção de entrar num restaurante c) você quer é coisas comigo d) o homem dá o seu veredito e) ter dó do rato morto PARA IR MAIS LONGE... ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) caminhar pelo passeio / pela calçada b) desviar-se de um andaime c) atravessar a passadeira d) apoiar-se à parede / ao muro / a um corrimão e) dar a volta ao quarteirão 130
MARQUISES PALAVRAS CARAS 3. Para que servem estes equipamentos de mobiliário urbano? a) poste de candeeiro b) marco dos correios c) boca de incêndio d) sarjeta e) doca de bicicletas partilhadas f) ecopontos: vidrão, papelão, pilhão. — . 4. Sublinhe o intruso na sequência de palavras. a) inquilino / senhorio / saguão / porteiro / administrador de condomínio b) átrio / intercomunicador / caixa do correio / tapete de entrada / mansarda c) elevador / aquecedor / botões / portas automáticas / cabos d) patamar / escadas / corrimão / clarabóia / degrau e) telhas / arranha-céus / cata-vento / antena parabólica / chaminé f) terraço / cave / sacada / varanda / janela 5. A que personagens da crónica se podem associar estas expressões? Há várias respostas possíveis. a) condoer-se de outra pessoa ou de outra criatura. _ — — b) enxotar alguém com maus modos. c) guardar rancor. d) demonstrar arrependimento e) ficar vexado com uma situação f) ser sarcástico 131
QUIOSQUE LITERÁRIO MÃOS À OBRA 6. Qual é a palavra adequada? 0 [nada] / porque / se / de / que / para / com a) O executivo pergunta-lhe ele já almoçou e convida-o almoçar. b) O sujeito não percebe é que ele quer oferecer-lhe o almoço e desconfia interesses ocul¬ tos. c) A moça pede ao velho perdoá-la e insiste ele. d) Ele garante não a perdoa e vira a cara outro lado. e) Ela propõe ajoelhar-se na poça d'água. A ação comove o velho. 7. Nas passagens seguintes encontram-se elementos próprios do Português do Brasil. Como se diria (e escreveria) em Português Europeu? a) A chuva é forte, mas o vento nos dá uma trégua. b) Um outro homem chega cprrendo. c) Pede a ele que espere cinco minutos. d) Uma moça busca convencer um velho a perdoá-la. e) [registo informal] "Você também transmite doenças, já esqueceu?" 132 »
MARQUISES 8 Siga o exemplo e apresente hipóteses com o Futuro do Conjuntivo. Exemplo: (ir) a Curitiba no verão > (facto) Eu vou a Curitiba no verão. > (hipótese) E se eu for a Curitiba no verão? a) (comprar) o bilhete online b) (estar) sem dinheiro c) (ver) se há outra companhia aérea d) (querer) pagar com cartão e) (pedir) ajuda no balcão de informações f) (fazer) a mala sozinho g) (pôr) o guarda-chuva na mala h) (trazer) um presente 133»
QUIOSQUE LITERÁRIO EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE... Leia a seguinte definição de "marquise" do Dicionário Aurélio: marquise. ÍDo fr. Marquise, "toldo".] S.f. 1. Espécie de alpendre ou cobertura saliente, na parte externa de um edifício, destinada a servir de abrigo: Quando começou a chuva, os transeuntes refugiaram-se debaixo da marquise. 2. Lus. Área de serviço envidraçada em casas ou apartamentos. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Novo Aurélio Século XXI. O Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro. Editora Nova Fronteira. 1999. a) Por que motivo esta crónica de Luís Henrique Pellanda se chama "Marquises”? b) Qual terá sido a razão para, na primeira história, o indivíduo que estava no chão ter rejeitado a ajuda do "executivo ou advogado"? c) Já alguma vez presenciou ou foi alvo de "um ataque de benevolência"? Conte a sua experiência. d) Em português, a palavra "caridade" pode ter um sentido pejorativo, acentuando, por vezes, a desigualdade social. Discuta a diferença entre caridade e solidariedade. e) Na última história, uma mulher é criticada por ter compaixão ao ver o "cadáver afogado de um rato". O que acha da reação desta mulher? f) A crónica é um género literário intimamente ligado ao quotidiano e à sociedade, que nasce com o jornalismo e sempre teve grande sucesso no Brasil. Quais lhe parecem ser as qualidades fundamentais de um bom cronista? SEM PAPAS NA LÍNGUA a) Apresente uma fotografia da sua rua preferida da cidade onde vive. Identifique os elementos do espaço urbano e, com a ajuda de um dicionário, tente descrever essa rua. b) Em Portugal, na década de 1980, esteve muito em voga a tendência de converter varandas em marquises fechadas no segundo sentido da definição do dicionário. Atualmente, essa moda é criticada e, por vezes. 134
MARQUISES associada a falta de gosto. Apresente argumentos a favor ou contra as marquises. ESCRITA CRIATIVA a) Esta crónica conta três histórias em três ruas diferentes. Crie agora uma quarta história cuja ação tenha lugar na sua rua. b) Na segunda história, na Riachuelo, nunca chegamos a saber o motivo da zanga entre a moça e o velho. Complete esta parte da história, imaginando a razão que está na origem da tensão entre os dois. PARA IR MAIS LONGE... a) Sugestão de leitura: O sol se põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho (São Paulo, Companhia das letras, 2007). Uma trama urbana que entrelaça tempos históricos, comunidades e cidades do Brasil e do Japão. b) Sugestão de filme: As boas maneiras, filme franco-brasileiro de Marco Dutra e Juliana Rojas (Brasil, 2017). Um filme peculiar, entre a fantasia e o horror, que aborda questões como, por exemplo, os laços familiares e a diferença num ambiente urbano moderno. c) Sugestão de canção: "Um contra o outro", do grupo Deolinda (do álbum Dois selos e um carimbo, 2010). Esta música é uma incitação a sair de casa e a ir para a rua. 135 ►
Mudos os tempos, mudas as vontades Miguel Januário Miguel Januário (Porto, 1981) é um artista português que trabalha o graffiti, o vídeo, a pintura e a performance. Vem desenvolvendo, desde 2005, o projeto ±MAISMENOS±, onde reflete criticamente sobre as sociedades contemporâneas, como na quotaction "Mudos os tempos, mudas as vontades”, que parodia os famosos versos do poeta Luís de Camões (1524-1580). A fotografia de Miguel Januário foi publicada originalmente no site www.maismenos.net. Para o poema, seguiu-se a edição da obra Rimas, de Luís de Camões, revista, estabelecida e prefaciada por Álvaro J. da Costa Pimpão (Coimbra: Almedina, 1994). ±MAISMENOS± 137 ►
QUIOSQUE LITERÁRIO [Mudam-se os tempos, mudam-sc as vontades] / Luís de Camões Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, diferentes em tudo da esperança; do mal ficam as mágoas na lembrança, e do bem (se algum houve), as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto, que já coberto foi de neve fria, e, em mim, converte em choro o doce canto. é composto - é feito qualidade - feição, característica mágoa - desgosto, tristeza, pesar 0 não tenho mágoa por ter terminado a relação com o meu ex-namorado lembrança - memória, recordação manto - aquilo que cobre, se estende sobre uma superfície converter - transformar afora (antigo) - além de, salvo, exceto mor (antigo) - maior espanto - admiração soer (antigo) - ser comum, ser habitual E, afora este mudar-se cada dia, outra mudança faz de mor espanto, que não se muda já como soía. ■*138»
MUDOS OS TEMPOS. MUDAS AS VONTADES ESTUDO DA LÍNGUA TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) mudam-se os tempos, mudam-se as vontades b) Mudos os tempos, mudas as vontades c) do mal ficam as mágoas na lembrança d) o tempo cobre o chão de verde manto, que já coberto foi de neve fria e) e, em mim, converte em choro o doce canto 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) todo o mundo é composto de mudança b) tomando sempre novas qualidades c) diferentes em tudo da esperança — d) e do bem (se algum houve), as saudades e) afora este mudar-se cada dia — PARA IR MAIS LONGE... ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) Eram belos tempos! b) dantes era diferente c) Como o tempu passa! d) está na moda / fora de moda e) tenho saudades desse tempo PALAVRAS CARAS 3. Complete as frases com as palavras adequadas. a) Quando o nascer do Sol se prenuncia, assistimos à a _ r (por exemplo, boreal). b) Pelo contrário, quando o Sol se põe, vive-se ocr ú l _. 139
QUIOSQUE LITERÁRIO c) Uma revista que sai de dois em dois meses éb_m I. d) As quatro estações do ano são: primavera, verão, o o e in¬ verno. e) Um ano com 366 dias é um ano b _ s t f) "Os loucos anos 20" é uma expressão relativa àd a de 1920. 4. Em que grupo integraria as seguintes palavras? a) sopro 1. aguaceiro / tempo chuvoso / granizo / chuvisco b) bátega 2. nevoeiro / céu nublado / neblina / cerração c) calmaria 3. trovão / trovoada / furacão / tornado d) bruma 4. dia ventoso / rajada / brisa / ventania e) estrondo 5. tempo ameno / brilho / luminosidade / claridade 5. Estes termos ou estas expressões são arcaísmos: eram utilizados no português antigo, mas caíram em desuso. Tente adivinhar o que significavam. Exemplo: não se muda já como soía > como era habitual a) A donzela caminhava asinha. b) O poeta tinha uma coita de amor c) O cavaleiro atacou com sanha. d) 0 Sol brilhava, a dama sentia-se leda naquela manhã e) O escudeiro recebia uma boa tença f) O conde permaneceu quedo na cadeira MÃOSÃOBRA 6. Sublinhe nestes versos de Camões as passagens em que o som /s/ em fim de sílaba se lê [z]. Atenção, esse fenómeno não se dá em todos os versos! Exemplo: Os reinos e os impérios poderosos. a) Correm turvas as águas deste rio b) Vós outros, que buscais repouso certo c) Busque amor novas artes, novo engenho d) Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e) Doces águas e claras do Mondego «140 ►
MUDOS OS TEMPOS. MUDAS AS VONTADES 7. Que estado transmitem estes verbos copulativos? estado permanente / estado transitório / estado aparente / mudança de estado / continuidade a) 0 poeta está cansado b) 0 poeta é português c) O poeta fica emocionado. d) O poeta permanece calado.. . _ _ . _ e) O poeta parece preocupado f) O poeta torna-se famoso g) O poeta anda inspirado h) O poeta continua atual 8. Transforme os verbos em nomes através da derivação, optando pelos sufixos -ança ou -ância. Siga o exemplo. Exemplo: confiar > confiança a) mudar i) vigiar b) tolerar _ j) exuberar c) abundar k) repugnar d) esperar l) predominar e) ignorar m) herdar f) liderar — n) distanciar a) rnnrnrdar o) perseverar h) vingar p) alternar ■. 141
QUIOSQUE LITERÁRIO EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE— a) Releia o último terceto do soneto e reflita sobre o seu significado Como traduziria o sentimento íntimo do "eu" poético? b) Escolha o seu verso preferido deste soneto de Luís de Camões e justifique a sua preferência. c) "Mudos os tempos, mudas as vontades*. Como interpreta a reescrita do verso de Camões? d) A mudez pode resultar da opressão ou ser motivada pela perplexidade. Já ficou mudo perante algum acontecimento? e) “O tempo cobre o chão de verde manto, / que já coberto foi de neve fria.” O seu estado de espírito muda muito consoante a estação do ano em que se está? f) “Quem não arrisca, não petisca." De uma forma geral, considera-se uma pessoa ousada e que lida bem com a mudança ou, pelo contrário, prefere jogar pelo seguro? SEM PAPAS NA LÍNGUA a) Todos ternos causas que defendemos. Escolha a sua causa e crie o seu próprio slogan para um graffiti. Indique também o espaço público em que gostaria de o inscrever, explicando a sua preferência. b) Do soneto ao graffiti, de Luís de Camões a Miguel Januário. Apresente duas referências artísticas igualmente importantes para si, mas provenientes de meios de expressão totalmente diferentes, da televisão à literatura, por exemplo. Justifique as escolhas. ESCRITA CRIATIVA a) Será que somos obrigados a ser sempre “fiéis a nós próprios"? Muitos dos nossos gostos e das nossas preferências mudam inevitavelmente ao longo da vida. Escreva sobre um livro, um filme ou um artista que foi fundamental para si e que atualmente deixou de ter importância. «142»
MUDOS OS TEMPOS. MUDAS AS VONTADES b) Escreva um poema autobiográfico sobre algumas mudanças que marcaram a sua vida. PARA IR MAIS LONGE... a) Sugestão de leitura: os sonetos presentes em Respiração assistida, recolha póstuma de Fernando Assis Pacheco (Assírio & Alvim, 2003). Embora respeitem uma tonalidade clássica e, por vezes, camoniana, estes poemas são um bom exemplo da constante renovação da forma do soneto. b) Sugestão de filme: Morrer como um homem, de João Pedro Rodrigues (Portugal, 2009). 0 filme conta a história de Tonia, uma veterana do espetáculo de transformismo lisboeta que se sente envelhecer. c) Sugestão de canção: “Gentileza”, de Marisa Monte (do álbum Memórias, crônicas e declarações de amor, 2000). A canção refere-se ao Profeta Gentileza, pregador urbano do Rio de Janeiro que escrevia nos muros mensagens que, mais tarde, viriam a ser apagadas. 143
Redes sociais Paulo Varela Gomes Paulo Varela Gomes (Lisboa, 1952 - Podentes, 2016) foi um escritor, historiador de arquitetura e professor universitário português. Publicou várias obras entre a ficção e o ensaio, como, por exemplo, O verdo de 2012 (Lisboa: Tinta da China, 2014). Esta crónica foi publicada no livro Ouro e cinza (Lisboa: Tinta da China, 2014). Num jornal regional que por vezes folheio há pequenas notícias referentes a aldeias espalhadas pela serra e pelos vales. Na coluna dedicada a uma dessas aldeias leio uma notícia encimada pelo subtítulo “Visita”. Vou transcrevê-la aqui alterando os nomes das pessoas e do sítio: “O nosso assinante Manuel Joaquim Alves da Costa, acompanhado por um colega universitário, ambos residentes em Viseu, visitou os avós durante umas curtas férias de três dias. Com as refeições asseguradas pela prima, a estadia foi aproveitada também para estudar e visitar a aldeia”. Noutra notícia, respeitante a sírio diferente, lê-se o seguinte: “No dia 17 de Fevereiro, quando transportava um chibo para um curral, foi arrastada pelo animal e caiu Olívia Laurentina Carvalho, de setenta anos, casada com João Pereira. Muito maltratada e com um braço partido, foi transportada para o hospital e atualmente já se encontra em casa, em convalescença. Votos de jornal regional - jornal local, com notícias de uma região folhear - passar as folhas de livros, jornais, revistas, etc. aldeia - povoação rural serra - cadeia de montanhas 0 no inverno, a serra da Estrela está coberta de neve vale - depressão do terreno entre montes encimado por - que tem por cima Viseu - cidade do interior da região Centro respeitante - relativo a, que diz respeito a chibo - cabrito jovem curral - lugar onde se junta o gado (bois, cabras, ovelhas, etc.) ser arrastado - ser levado à força, sem contar com isso convalescença - período de recuperação votos - desejos 145
QUIOSQUE LITERÁRIO rápidas melhoras”. Aldeia após aldeia, o jornal recolhe notícias deste tipo: partos e falecimentos, acidentes e matrimónios, festas laicas e religiosas, reuniões de paróquia ou de associação recreativa... e até uma operação stop da GNR. O jornal sai uma vez por semana e tem sempre duas páginas destas pequenas notícias locais. No número que citei havia trinta e três notícias referentes a quinze lugares. Publicam-se em Portugal milhares de páginas como estas. Vemos por toda a parte os jornais que as fazem circular: abertos sobre as mesas dos cafés ou do balcão das vendas com o papel ainda a estalar dc novo, ou já amarelecidos e amarrotados dc tanto uso, esquecidos no peitoril dc uma janela há muito emperrada. Quando vivia em Goa, que é uma espécie de grande aldeia, habituei-mc a que até os jornais mais importantes trouxessem todos os dias notícias deste género. Sabíamos do casamento deste ou do funeral daquele (só pelo jornal éramos disso informado, evitando assim o faux-pas de não aparecer nem mandar flores). Sabíamos da partida de um, do prémio escolar atribuído a outra. As notícias incluíam as respectivas felicitações ou condolências, às vezes de página inteira, quando se tratava de um político ou familiar dc político. Era como o jornal regional português que comecei por citar, mas dedicado às classes dominantes e não a todas as velhotas arrastadas por chibos, todos os estudantes que vêm dc férias a lugares pequenos, todas as crianças que fazem a primeira comunhão, todos os comandantes dc bombeiros que se reformam e de quem os camaradas se despedem numa festa triste. O jornal parto - nascimento falecimento - morte laico - que não pertence ao clero (* religioso) paróquia (relig.) - divisão territorial de uma diocese regida por um sacerdote GNR - Guarda Nacional Republicana citar - fazer referência a balcão - móvel de estabelecimentos onde se atende o público e onde se podem colocar produtos 0 servir o café ao balcão venda - loja nas aldeias onde se vende de tudo a estalar de novo - tão novo que até estala (faz um som seco) ao dobrar-se amarrotado - efeito sobre o papel que foi comprimido 0 amarrotou o papel e deitou- -o para o lixo peitoril - parte inferior da janela onde se apoia o corpo emperrado - que não abre Goa - Estado da fndia, antigamente sob domínio português (1510-1961) funeral - serviço fúnebre (quando alguém morre) faux-pas (fr.) - passo em falso, ação desajeitada ou embaraçosa, que pode causar constrangimentos primeira comunhão - cerimónia cristã em que os participantes recebem a Eucaristia pela primeira vez reformar-se - aposentar-se, deixar de trabalhar -146 ►
REDES SOCIAIS regional Faz circular as conversas que têm lugar à porta do café, da junta ou da igreja, dá a reconhecer aos próprios a notícia que lhes diz respeito, tece entre os leitores uma rede de interesses comuns. E provável que o mundo seja uma aldeia ligada por redes sociais e outras, mas não tenho qualquer dúvida de que as aldeias são um inundo que não precisa de nenhuma tecnologia avançada para ter redes sociais. Bastam-lhe a rua e o jornal regional. ter lugar - acontecer junta [de freguesia] - órgão executivo da freguesia, a menor unidade administrativa em Portugal 0 os concelhos ou municípios estào subdivididos em freguesias, cada qual com a sua junta tecer - criar, estabelecer <147
QUIOSQUE LITERÁRIO ESTUDO DA LÍNGUA TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) aldeia após aldeia, o jornal recolhe notícias deste tipo b) sabíamos do casamento deste ou do funeral daquele c) evitando assim o faux-pas de não aparecer nem mandar flores d) o jornal tece entre os leitores uma rede de interesses comuns e) as aldeias são um mundo que não precisa de nenhuma tecnologia avançada para ter redes sociais 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por uma outra equivalente em português. a) votos de rápidas melhoras b) o jornal recolhe notícias deste tipo . c) vemos por toda a parte os jornais _. d) Goa é uma espécie de grande aldeia e) bastam-lhe a rua e o jornal regional PARA IR MAIS LONGE... ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) folhear um jornal b) assinar um jornal / ser assinante de um jornal c) notícias de última hora d) uma coluna de um jornal e) as notícias circulam 148
REDES SOCIAIS PALAVRAS CARAS 3. Indique as expressões ou os verbos relacionados com estes acontecimentos. Há várias respostas possíveis. Siga o exemplo. Exemplo: parto > A Clara deu à luz / teve um filho, a) nascimento > 0 bebé b) doença > A criança c) matrimónio > 0 João e o Vasco d) separação / divórcio > Os pais da Rita e) falecimento > O Sr. Alves 4. Disponha as palavras por ordem de grandeza. a) colina / serra / montanha / monte b) oceano / rio / regato / mar _ — c) vila / cidade / metrópole / aldeia d) cabana / palácio / vivenda / mansão e) freguesia / região / concelho ou município / distrito 5. Associe as frases à expressão comum adequada. a) Estou doente, em convalescença. 1. Felicidades! b) Vou ter um exame amanhã. 2. As melhoras. c) Consegui uma promoção no trabalho. 3. Parabéns! d) 0 meu pai faleceu. 4. Boa sorte. e) Estamos noivos, vamos casar-nos. 5. Os meus pêsames. / Sinto muito. MÂOS À OBRA 6. Acentue as palavras sublinhadas sempre que for necessário. Siga o exemplo. Exemplo: Trata-se de um jornal dedicado às classes dominantes e não a todos os cidadãos. a) A professora deu o caderno a aluna. b) Ontem a tarde fui as compras. . 149
QUIOSQUE LITERÁRIO c) Estou a ver que voltaste a fumar. d) As cinco, tenho de ir a farmácia. e) Ela foi a casa buscar uma camisola. f) Desculpem, ficaram a minha espera? g) O gato está a janela a apanhar sol. h) A avó foi a mercearia. i) Ainda chegas a ministra! j) Estás a procura de alguma coisa? k) Devolvemos a carteira a dona. I) Correu tudo as mil maravilhas. 7. Indique o feminino destas palavras. Siga o exemplo. Exemplo: o velhote > a velhota a) o homem i) o rapaz b) o cão j) o ator c) o europeu k) o alemão d) o rei l) o embaixador e) o luxemburguês m) o avô f) o presidente n) o galo g) o atleta o) o príncipe h) o judeu p) o apresentador 8. Escolha a preposição necessária para formar a perífrase verbal que faz sentido no contexto dado. Siga o exemplo. Exemplo: Era como o jornal que comecei por citar. a) Já começaste ler o livro que te ofereci? (a / de / por) b) Que coincidência telefonares. Estava mesmo te ligar! (a / para / por) c) Como havia muita gente, acabei não conseguir com¬ prar o bilhete, (de / por / sem) d) Devíamos ter concluído a tarefa, mas ficou tudo fazer, (a / de / por) e) Já acabei tomar banho, agora podes tomar tu. (de / para / por) «150»
REDES SOCIAIS EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE... a) A leitura desta crónica permite perceber o trocadilho do título. Afinal, de que redes sociais fala o autor? b) Por que razão o autor da crónica considera Goa “uma espécie de grande aldeia"? Conhece outros sítios assim? c) Considera que as redes sociais cumprem um papel importante para o estabelecimento de relações pessoais e para a coesão das comunidades? d) A partir do tom do texto, consegue imaginar qual é o sentimento do autor relativamente às redes sociais? e) Quais podem ser as consequências do desenvolvimento dos suportes digitais para a imprensa escrita? f) Costuma deixar-se tentar pela "imprensa cor-de-rosa"? O que pensa deste tipo de revistas e jornais? SEM PAPAS NA LÍNGUA a) Nos últimos tempos fala-se muito do regresso ao campo. Como imagina que seria ir viver para uma aldeia? Debata a questão apresentando os prós e os contras. b) Os jornais regionais, como todas as redes sociais, mostram a necessidade que as pessoas têm de estar a par da vida dos outros. Fale com os seus amigos e faça um balanço dos vossos diferentes usos das redes sociais. Acha que é representativo da população geral? ESCRITA CRIATIVA a) Relate uma semana de pequenos acontecimentos do seu núcleo familiar para a coluna de um jornal regional. b) Imagine que ia viver durante uma semana para uma casa numa aldeia longínqua sem acesso à Internet. Descreva os aspetos a que teria de 151
QUIOSQUE LITERÁRIO se adaptar durante essa "desintoxicação digital" e o que faria de forma diferente do habitual. PARA IR MAIS LONGE... a) Sugestão de leitura: “Natacha", de Teresa Veiga (Zn Gente melancolicamente louca, Lisboa, Tinta da China, 2015). Um conto sobre os desafios editoriais da revista regional Ecos do Mondego. b) Sugestão de filme: É na terra, não é na lua, de Gonçalo Tocha (Portugal, 2011). Este documentário retrata a população da ilha do Corvo, nos Açores, que é a localidade mais afastada da Europa Ocidental, com menos de 500 habitantes. c) Sugestão de canção: "Lá na minha aldeia”, de Gisela João (do álbum Sem filtro, 2014). Uma revisitação de um fado popular que se tornou conhecido pela interpretação de Amália Rodrigues. « 152 ►
Inox Ricardo Terto Ricardo Terto (São Paulo, 1986) é um roteirista e escritor brasileiro. Publicou Marmitas frias (São Bernardo do Campo: Lamparina luminosa, 2017) e Os dias antes de nenhum (São Paulo: Patuá, 2019). Esta crónica foi escrita para um podcast e publicada também no Facebook (www.facebook.com/ textosdericardoterto). No meu primeiro emprego eu vendia pás dc inox. O trampo era em alguns segundos convencer o interlocutor pego de surpresa no portão de sua residência, e que não estava pensando de forma alguma na ferramenta mais adequada para tirar seu lixo, que eu tinha um produto ali pronto para de alguma forma melhorar a sua vida, desde que pagasse 15 reais para tal. Não me interessava de fato os 15 reais do possível comprador e sim os 3 reais da minha comissão por cada venda. Uma coisa curiosa é que cu sequer dava meu nome, era “bom dia, senhor, estou vendendo pás de inox que podem tomar chuva e não enferrujam por apenas 15 reais, o senhor tem interesse ou um copo d’água?” Esse foi o emprego no qual saí mais hidratado cm toda minha vida. emprego - trabalho regular remunerado pá - instrumento que serve para cavar a terra ou para recolher lixo do chão inox - aço inoxidável (material capaz de resistir à corrosão) trampo (PB, pop.) - trabalho pego de surpresa (PB) = apanhado de surpresa (PE) portão - porta de ferro que permite o acesso à residência ferramenta - utensílio, objeto para trabalhar de fato (PB) = de facto (PE) real - moeda brasileira sequer (PB) = nem sequer (PE) comissão - percentagem da venda atribuída ao empregado que vendeu enferrujar - ganhar ferrugem (óxido que se ganha na superfície do ferro com a humidade)
QUIOSQUE LITERÁRIO Puxei essa lembrança porque no fundo me vi atrás dos meus três reais ou copo d’água a vida toda. Com nome ou sem nome. Procurando a parte que me cabe. A parte que me cabe, que baita expressão, percebe? A parte que me cabe. Onde me encaixo, onde sirvo, onde posso ser útil. Inventaram que o nome disso é emprego. Trabalhar entre outras coisas é pertencer, logo é difícil mesmo encontrar alguma coisa que eu poderia ser fora de tudo o que me f oi oferecido. Os três reais de comissão eram não só a parte que me cabia, como eram a única parte que eu conhecia. Porque eu só aprendi a me ver através do espelho que o mundo me dava, e se eu era o menino da pá dc inox tocando a campainha, que seja, que assim fosse. O problema e que esquecemos ou nunca pudemos ver que a nossa imagem verdadeira transborda o reflexo. A nossa humanidade extravasa a parte que nos cabe. A gente foi ensinado a não enxergar isso. Ou fingir que não. Existir tem que caber no crachá, tem que constar na planilha. O resto fica à margem. Quase um bicho vivo esperando o bote. Sabe o que eu quero dizer? Essa vontade que acontece na gente de ser alguma coisa além do ordenado? Geralmente fica só nisso, na vontade, mas o que quero contar é sobre esse instante que todo mundo vive, sabendo ou não disso. Esse instante em que você acaba sendo um pouco mais que o reflexo. No meu caso era o finalzinho da frase quando eu perguntava “ou um copo d’água?” puxar a lembrança - •*> trazer à memória caber - corresponder, ser adequado para alguém baita expressão (/ B) - que incrível expressão encaixar-se - pertencer a espelho - imagem campainha - mecanismo que dá som e que se aciona à porta das casas para assinalar a presença transbordar - ir além de, não se ficar por reflexo - a imagem que o espelho devolve extravasar - transbordar, não ficar contido 0 a conversa extravasou para outros assuntos enxergar (PB) - ver, observar, compreender crachá - etiqueta que os empregados ostentam para indicar que trabalham no local 0 o crachá de um funcionário da livraria planilha (PB) - cada uma das faces do documento de identificação civil bote - golpe fatal ordenado - salário que se ganha por um emprego todo mundo (PB) = toda a gente (PE) 154 ►
INOX Como ninguém nega um copo d’água cu ganhava mais alguns segundos com meu possível cliente, e entre uma golada e outra, às vezes conseguia vender a pá. E ainda saía hidratado. Vão dizer que isso é técnica, lábia, manha. É nada. Isso aí era o instante em que eu, sem saber, saltava um pouquinho pra fora da parte que me cabe. E o bote. E ainda garantia meus 3 reais. A nossa parte que não cabe é tipo inox, pode tomar chuva que não enferruja. Tem interesse? golada - gole, porção de liquido que se engole técnica - modo deliberado de proceder para alcançar os objetivos lábia - capacidade de falar de forma persuasiva manha - esperteza, capacidade para encontrar soluções é tipo - é como <•155 •
QUIOSQUE LITERÁRIO ESTUDO DA LÍNGUA TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) o trampo era [...] convencer o interlocutor pego de surpresa b) o emprego no qual saí mais hidratado em toda minha vida c) a nossa imagem verdadeira transborda o reflexo d) existir tem que caber no crachá e) saltava um pouquinho pra fora da parte que me cabe 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) a pá podia ser dele desde que pagasse 15 reais b) porque no fundo me vi atrás dos meus três reais a vida toda c) eu só aprendi a me ver através do espelho que o mundo me dava d) o resto fica à margem e) às vezes conseguia vender a pá e ainda saía hidratado PARA IR MAIS LONGE... ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) um contrato a termo certo / sem termo b) trabalhar a tempo inteiro / parcial c) estar de baixa / de licença de maternidade ou de paternidade d) receber um aumento / um subsídio de desemprego e) reformar-se 156
INOX PALAVRAS CARAS 3. Complete as palavras de modo a identificar características pessoais. a) Duvido sempre das minhas capacidades: tenho falta de a u t _ e _ t i m b) Passo a vida a olhar para o espelho: sou mesmo v d o(a). c) Sei que sou capaz de desempenhar qualquer tarefa: sou c_n f n d) Nunca desisto à primeira: pelo contrário, sou muito p _ r t e. e) Por vezes, tenho reações muito infantis: ainda sou i m _ t o(a). f) Gosto muito daquilo que faço: posso dizer que me sinto r e _ 1 a _ o(a). 4. Ligue as expressões ao seu significado. a) ter manha b) ter lábia c) ter pinta d) ter jeito e) ter juízo f) ter a mania 1. portar-se bem, não cometer loucuras 2. mostrar uma habilidade natural para as coisas 3. ser esperto, ter uma certa malícia 4. achar-se especial, superior aos outros 5. ser eloquente, ter capacidade de convencer 6. demonstrar um estilo natural, ser sedutor 5. Qual é a expressão que dá sentido às frases? Siga o exemplo. de antemão / de folga / de fugida / de cor / de repente / de vista Exemplo: Não me interessava de fato os 15 reais do comprador, e sim os meus 3 reais. a) Hoje não vou trabalhar, tirei o dia — . b) Ela apareceu não a tinha visto chegar. c) É um fã da série, sabe o nome de todos os episódios. d) Passo em tua casa porque depois quero ir ao cinema. e) Conheço a tua irmã só, nunca conversámos. f) Os resultados das eleições já se sabiam . «157
QUIOSQUE LITERÁRIO MÃOS À OBRA 6. Forme frases com os verbos no Imperfeito e no Presente do Indicativo. Siga o exemplo. Exemplo: sentir-se bem > Eu dantes sentia-me bem, mas agora já não me sinto. a) medir 1,60 m b) ouvir música c) tossir muito d) caber no carro e) recear sair à noite f) pôr o despertador para acordar g) seguir as notícias h) padecer de muitas doenças i) dormir 8 horas seguidas j) proteger o meu irmão 7. Acentue as palavras sublinhadas quando for necessário. (a) Eis o meu amigo Miguel! (b) Conheci-o através do meu emprego, (c) E meu colega, mas também meu amigo, (d) Porem, a verdade é que não simpatizámos logo um com o outro, (e) Pelo contrario, no início não nos apreciávamos mutuamente, (f) Nem sequer sei bem porquê! (g) Um dia, tivemos de passar uma hora juntos, diante da porta do escritório. (h) Conforme íamos falando, o nosso sentimento mudou, (i) Ao inves de aversão, começámos a sentir simpatia, (j) Alias, descobrimos ■ 158 ►
INOX pontos em comum, (k) Alem disso, ele ajudou-me muito no trabalho. (I) Apos essa conversa, ficámos amigos. 8. Utilize os diminutivos -inho(s) / -inha(s) ou -zinhoCs) / -zinha(s), procedendo às alterações ortográficas necessárias. Siga o exemplo. Exemplo: um pouco > um pouquinho - TtCfVCM. lC» a) uma casa b) um animal c) um favor d) uma mão e) um rapaz f) um adeus g) um irmão h) uma irmã i) um jardim j) um balde k) um café I) um lápis m) um pastel n) um rio o) uma tia p) um saco 159
QUIOSQUE LITERÁRIO EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE... a) “A parte que me cabe": esta "baita expressão" parece dar a entender que cada pessoa é potencialmente uma parte que encaixa, que se acomoda, que não transborda. O autor deixa claro que não se identifica com essa filosofia. Como é que ele a tenta contrariar? b) “A gente foi ensinado a não enxergar isso." Concorda com esta afirmação? Nesse caso, por que motivo somos ensinados a não ver para lá da parte que nos cabe? c) A escolha das profissões que exercemos prende-se muitas vezes com questões como o prestígio, a remuneração e a pressão social. Imagine que estes critérios não contavam. Que profissões consideraria então exercer? d) Nas sociedades contemporâneas, em boa parte devido às novas tecnologias, há uma cada vez maior interferência da esfera profissional na vida pessoal. Que medidas poderiam ser adotadas para contrariar essa tendência? e) O que é afinal o trabalho? Há muitas atividades que não são remuneradas, mas que implicam esforço e capacidades. Dê exemplos. f) As sociedades contemporâneas caminham para uma automatização dos serviços, nomeadamente com um grande número de tarefas que podem vir a ser desempenhadas por robôs. Essa perspetiva provoca- -Ihe entusiasmo ou angústia? SEM PAPAS NA LÍNGUA a) Nos últimos anos, tem-se discutido, sobretudo em alguns países europeus, a ideia de um rendimento básico incondicional, garantido a todos os cidadãos. Apresente argumentos a favor e contra esta ideia. b) Uma boa parte dos textos de Ricardo Terto foi escrita nas redes sociais. Escolha agora um texto seu escrito nesse contexto: dê-lhe um título e leia-o em português como uma microficção. 160
INOX ESCRITA CRIATIVA a) Já alguma vez trabalhou? Se sim, relate a sua primeira experiência. Se ainda não, diga como imagina que ela será. b) Acaba de descobrir o anúncio para o emprego dos seus sonhos, em Portugal. Redija um e-mail em que explicita qual é a função a que se candidata e apresente-se tentando dar a entender, de forma subtil, que no desempenho das suas tarefas saltaria “um bocadinho para fora da parte que lhe cabe”. PARA IR MAIS LONGE... a) Sugestão de leitura: Enterre seus mortos, de Ana Paula Maia (Companhia das letras, 2018). Neste policial, através da personagem Edgar Wilson, "um homem simples que executa tarefas", a escritora reflete sobre a nossa relação com o trabalho. O protagonista tem a tarefa de remover animais mortos das estradas, mas a sua rotina é abalada quando descobre o cadáver de uma mulher. b) Sugestão de filme: Arábia, de Affonso Uchôa e João Dumans (Brasil, 2017). Um jovem encontra n diário de um metalúrgico, vitima de um acidente fatal, e acompanha os seus últimos anos de vida. c) Sugestão de canção: “Trabalhador”, de Seu Jorge (do álbum América Brasil, 2007). Esta canção elenca profissões de trabalhadores "na luta, no corre-corre, no dia a dia”. í • 161
A ocupação temporária Tatiana Faia Tatiana Faia (Setúbal, 1986) é uma escritora, tradutora e poetisa portuguesa, residente em Oxford (Inglaterra), estudiosa de Homero e coeditora do projeto independente Enfermaria 6 (www.enfermaria6.com). Este conto foi publicado no livro São Luís dos portugueses em chamas e outros textos (Lisboa, Enfermaria 6: 2016). No n.° 122 de Marlborough Road, na parte velha do Grandpont, um dos apartamentos é alugado a um ritmo mais ou menos semanal. O resto do prédio tem inquilinos permanentes, mas náo o n.° 1. Não existe qualquer anúncio que identifique o edifício como arrendamento de curta duração c o motivo pelo qual estou a par desta informação c porque vivo no andar acima. Não percebi isto de imediato e desconfio que o motivo pelo qual me levou tanto tempo a perceber que uma das casas no prédio onde vivo não tinha um inquilino regular foi porque me mudei no princípio da Primavera e esta altura coincidiu com a ocupação do andar por uma sucessiva horda de falantes de espanhol. Entre Junho e Julho, cano foi a palavra mais ouvida e eu assumi que naturalmente se tratava da mesma família. Embora se trate de um prédio muito recente, o que significa que está a salvo dos dois problemas mais frequentes nas casas inglesas, bolor e Grandpont - bairro residencial em Oxford inquilino - pessoa que reside em casa arrendada 0 este mês, o inquilino ainda não pagou a renda arrendamento - cedência do uso de um imóvel por um tempo determinado e mediante pagamento andar - piso de um prédio 0 um prédio de três andares sem elevador desconfiar - suspeitar coincidir - acontecer no mesmo momento horda C/rón.) - grupo de pessoas indisciplinadas, que se podem tornar perigosas estar a salvo - não correr nenhum risco bolor - aglomeração de fungos que se desenvolve em ambientes fechados, húmidos e pouco arejados 0 uma mancha de bolor na parede de uma casa velha <163
QUIOSQUE LITERÁRIO má isolação do calor, de alguma forma, tendo sido bem sucedidos nisto, os deuses da construção resolveram tramar-nos assobiando para o lado na parte do isolamento acústico. Despedidas de solteiro é um motivo comum para o arrendamento da casa. Não e raro estar prestes a entrar no prédio e dar com um coro de raparigas de mini-saia, perucas ou capacetes de viking na cabeça. A procissão normalmente é liderada pela rapariga cujo papel na cerimónia é carregar o boneco ou boneca insuflável. Uma vez, eu à procura da chave na mochila c um destes grupos está a entrar pela outra porta (o edifício rem duas entradas) e uma delas grita-me de um modo que se ouve na rua toda, apontando para outra das raparigas, “She never had a cock in her mouth, not one single time in her entire lifc! Can you believe ir?” Eu viro-me para ela e dou-lhe a resposta que me é possível perante tão extraordinária revelação, atirando-lhe um prolongado coho. Devo notar que o vizinho de cima é muito menos tolerante do que eu a este espetáculo de humanidade diversificada, pelo que não dá para esta horda assombrar o prédio durante muito tempo. As onze da noite ele chama a polícia e tudo termina. O boneco é desinsuflado, as vozes convertem-se num sussurro, e rapidamente as raparigas caem no torpor da sua própria embriaguez. Se viermos a entrar em casa a essa hora, é possível vê-las pela janela. Caídas como soldados derrotados nos soías e pelo chão. De manhã vêm os dois rapazes que limpam a casa, e todos os traços da sua presença serão apagados da carpete. má isolação do calor - quando as casas são frias por falta de medidas para reter o calor tramar (alguém) - prejudicar de propósito assobiar para o lado -fingir que se ignora alguma coisa, mostrar-se distraído dar com - encontrar coro - grupo de cantores peruca - cabeleira falsa capacete de viking - adereço a imitar a proteção da cabeça com dois cornos insuflável - que se enche com ar perante - diante de, face a dar para - ser possível assombrar - exercer má influência 0 um fantasma assombra a casa abandonada sussurro - ruído de vozes que falam baixinho torpor - falta de ação, paralisia embriaguez - estado de quem bebeu de mais traço - sinal carpete - tapete que reveste o solo piso térreo - andar mais baixo de um prédio (o rés do chão) 4 164 ►
A OCUPAÇÃO TEMPt 'RÁRIA Posso vê-las porque nas casas os pisos térreos têm sempre os cortinados corridos para deixar a luz entrar. É possível atravessar um bairro inteiro depois de entardecer vendo cada pessoa perdida na sua rotina. Duas casas mais abaixo há um menino que aprende a tocar violino com o irmão mais velho. Os dois rapazes na sala, de pé, enquadrados no seu ritual. Há os quartos do hotel Ethos, um hotel gerido por búlgaros, vazios nesta altura do ano, com as camas feitas, as luzes por algum motivo acesas, lugares entretidos com a sua espera. Há sempre alguém a caminho, no meio da sua viagem, perdidos como quando não é possível vir até um lugar sem nos perdermos um pouco de nós, chegarmos um pouco estonteados, um pouco estranhos. Espantados no meio da rua com os nossos casacos pesados, de nariz no ar, a tentar perceber ao certo onde estamos. Há as janelas da igreja ao lado, no princípio da Primavera alguém partiu um dos vitrais com uma pedra, o ministro errou desorientado pela rua à procura de informações. Isto passou-se na mesma noite em que roubaram uma bicicleta do quintal comum nas traseiras do prédio. “The devil is among us,” foi o que o ministro me disse, abanando a cabeça, e foi repetindo a mesma frase à medida que se afastava, com o mesmo assentir de cabeça. E bom quando o coro da igreja ensaia, porque a rua se enche de música e poucas coisas têm tanta força como um coro de gente a cantar. Na casa periodicamente alugada há por vezes- os hóspedes alemães. Os hóspedes alemães normalmente vêm em família e não raro vêm para deixar os filhos na universidade. Ficam mais ou menos uma semana ou dez dias até encontrarem «165» cortinados corridos -corti- nados postos de lado, para não taparem a janela entardecer - fim de tarde entretido - ocupado estonteado - aturdido, desorientado espantado - admirado de nariz no ar - de cabeça levantada, com um ar perdido vitral - vidro pintado nas igrejas (por exemplo, com cenas bíblicas) ministro - membro da igreja autorizado a realizar algumas funções clericais errar - andar à deriva, sem destino certo quintal - terreno atrás das casas, por vezes com jardim traseiras - parte de trás abanar a cabeça - gesto que indica reprovação não raro - frequentemente
QUIOSQUE LITERÁRIO alojamento para os rebentos ou estes estarem instalados num cnllegc e depois partem nos seus SUV. Houve uma vez um par de mulheres do Leste, muito provavelmente avó e neta. Ixvantavam-se cedo e muitas vezes tinham longas conversas pela noite fora. Riam-se ou discutiam, a mais nova escurando a mais velha, tentando argumentar. Em tom desafiante ou conciliatório. Havia nelas muita teimosia e determinação c muita reciprocidade pelo meio. Há as festas de aniversário. Não há muito para dizer sobre as festas de aniversário, exceptuando que são uma variação sobre as despedidas de solteiro, incluindo o vizinho do andar de cima de telefone em riste como um sniper agarrado à sua arma, às onze da noite ele dispara c tudo acabará. Ele podia só ser grumpy, ou ser só um homem com uma linha telefónica em casa, mas assim c um homem com o seu poder. lí de vez em quando vêm os amantes. Os amantes são furtivos, normalmcnte ficam por uma noite e partem. Não é costume fazerem muito barulho. Exceptuando uma vez, cm que acordei com a impressão de que os bárbaros estavam íinalmentc a chegar. Corri a persiana e olhei lá para fora com os olhos míopes. Nada. Pus os óculos, vim à janela da sala. Nada ainda de Hunos no horizonte. Foi então que percebi que o barulho vinha do piso térreo. Mas era apenas um par. E não eram tanto os gemidos ou os gritos, mas o facto de que ela se ria extremamente alto. Um riso entre o perdido, o nervoso e o desafiante. rebento - filho, descendente em tom desafiante ou conciliatório - num modo provocatório ou amistoso teimosia - insistência, obstinação 0 o café está fechado e ele insiste em bater à porta. Que teimosia! pelo meio - à mistura em riste - em posição erguida, na rrrâo agarrado à sua arma - de arma em punho, alerta furtivo - que age de forma dissimulada, às escondidas persiana - pequenas tábuas na janela que se podem abrir e fechar para regular a luz exterior olhos míopes - que veem mal ao longe Hunos - antigo povo bárbaro da Ásia Central que invadiu a Europa (século IV) gemido - som de prazer sensual complacência - ato de perdoar, benevolência abster-se - decidir não fazer alguma coisa 0 nas últimas eleições autárquicas, a minha irmã absteve-se de votar 166
A OCUPAÇAO TEMP<WARIA O vizinho dc cima lembrou-se de mostrar complacência pelos amantes e absteve-se de chamar a polícia porque sem dúvida se tratava de um modo de humanidade demasiado próximo. Mas uma onda dc pânico tomou o prédio de assalto. Se a coisa se repetisse na noite seguinte, ponderou-se o bilhete anónimo, atirado para baixo da porta. Mas eles ficaram apenas por uma noite e desapareceram, ninguém os viu, ninguém sabe quem eles seriam ou o que foi feito deles. Há uma ou duas semanas veio o jovem casal de imigrantes italianos. Ligavam à família todos os dias por skype. Ele telefonava à mãe (mamma, à Torino) como se não fosse skype e como se o telefone fosse uma invenção que ainda não tivesse chegado a Inglaterra. A mãe respondia-lhe de volta como se a sua voz tivesse de atravessar os Alpes, os Apeninos, contornar os Urais, sei lá eu mais o quê, chegar ao canal da Mancha e finalmente descer a M40. O seu rapazinho posto aí deste lado, sozinho com a sua jovem mulher, tão longe das colinas do Piemonte que o viram crescer. Depois ligavam à mãe dela (inamma também, mas não consegui perceber muito bem onde). O conteúdo da conversa era repetido a ambas as famílias. Há holognese para o jantar. A casa é segura e não é longe do centro. Ainda não encontrámos nenhuma casa decente, mas amanhã vamos ver mais duas. É, os preços são altas, mas continuamos à procura, mas não estejam preocupados, 3 alguma coisa há-de aparecer. Depois as conversas de telefone com a família acabam e vem aquele । silêncio súbito, que é quando se percebe que estamos sozinhos noutro país, numa sala estranha, com a nossa vida a mudar depressa e connosco a uma onda - um fenómeno rápido e repentino tomar de assalto - invadir ponderar - refletir, colocar a hipótese o que foi feito deles - o que lhes aconteceu Alpes, Apeninos, Urais - grandes cordilheiras (conjuntos de montanhas) sei lá eu mais o quê - e não sei que mais posto cá deste lado - a viver aqui canal da Mancha - braço de mar que separa a Grã-Bretanha da França M40 - autoestrada inglesa Piemonte - região no norte de Itália alguma coisa há-de aparecer (há de aparecer) - de certeza que vamos encontrar uma solução súbito - imediato, de um momento para o outro <167*
QUIOSQUE LITERÁRIO fingir que está tudo vigiado, que podemos segurar o travão. Os primeiros dias como emigrante, a solidão, o susto c a excitação desses dias. "Ilido fantástico, não fosse eu ter um balde homérico de neoanálise para ler e ter estes dois a palrar in- termitentemente acima da minha cabeça. Ida era leitora de Saramago. No parapeito da janela, que neste prédio são baixas e tem um espaço onde nos podemos sentar, vi-a a ler La Caverna na edição da Einaudi. No último dia em que eles ocuparam a casa ela estava quase a acabar o livro, que de manhã tinha ficado no parapeito, no último punhado de páginas com o marcador puxado para fora, faca perdida, atirada para a travessia das páginas, concentrada na narrativa que continua a avançar sucessivamente, acontecimento após acontecimento, tentando seguir o fio de Ariadne do enredo, de onde vem a expressão que aqui importa, tentar não perder o fio à meada. vigiado - sob controlo segurar o travão (estil.) - lidar com uma situação difícil, gerir os problemas susto - medo, receio balde homérico (estiL) - uma grande quantidade neoanálise - estudo da relação das epopeias Ilíada e Odisseia, de Homero, com poemas épicos anteriores palrar - falar muito, tagarelar parapeito - superfície de apoio para quem se debruça numa janela 0 apoiar os cotovelos no parapeito da janela no último punhado - %> no último conjuntu enredo - história, narração não perder o fio à meada - manter a continuidade de um discurso, de um fluxo de ideias <168 ►
A OCUPAÇÃO TEMPORÁRIA ESTUDO DA LÍNGUA TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) dou-lhe a resposta que me é possível [...], atirando-lhe um prolongado cofio b) as raparigas caem no torpor da sua própria embriaguez c) [ver pela janela] dois rapazes na sala, de pé, enquadrados no seu ritual d) de telefone em riste como um sniper agarrado à sua arma, às onze da noite ele dispara e) ponderou-se o bilhete anónimo, atirado para baixo da porta 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) o motivo pelo qual estou a par desta situação é porque vivo no andar acima b) não é raro estar prestes a entrar no prédio e dar com um coro de raparigas _ — —— c) tinham longas conversas pela noite fora d) não é costume fazerem muito barulho e) alguma coisa hâ-de aparecer PARA IR MAIS LONGE..; ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) arrendar um apartamento b) o rés do chão de um prédio c) correr os cortinados da janela d) morar no último andar de um prédio e) o vizinhu do andar de cima / de baixo «169»
QUIOSQUE LITERÁRIO PALAVRAS CARAS 3. Associe os problemas aos fatores que podem estar na sua origem. Siga o exemplo. Exemplo: barulho dos vizinhos > má isolação sonora a) bolor nas paredes b) cano da pia entupido c) frio e correntes de ar d) curto-circuito e) infiltração 1. instalação elétrica defeituosa 2. humidade e falta de ar puro 3. acumulação de detritos 4. torneira do vizinho aberta 5. má isolação térmica 4. Sublinhe o intruso na sequência de palavras. a) sótão / cave / garagem / arrecadação / águas-furtadas b) despensa / roupeiro / armário embutido / gavetas / quintal c) assoalhadas / divisões / vizinhos / quartos / compartimentos d) ventoinha / alcatifa / azulejos / papel de parede / soalho e) persianas / portadas / estores / autoclismo / cortinados f) escritório / apartamento T2 / estúdio / moradia / casa de dois andares 5. Associe estes defeitos típicos de vizinhos às descrições indicadas. a) rabugento 1. faz festas pela noite dentro b) quezi lento 2. quer saber a vida de toda a gente c) coscuvilheiro 3. adora falar mal dos outros d) barulhento 4. procura o conflito de qualquer maneira e) desleixado 5. está sempre a resmungar f) má-língua 6. tem a entrada de casa suja e desalinhada MÃOS À OBRA 6. Dê um palpite para as palavras em falta. Depois releia o texto e confirme. a) Não existe _ _ . anúncio que identifique o arrenda¬ mento de curta duração. «170 ►
t A OCUPAÇÃO TEMPORÁRIA b) A procissão é liderada pela rapariga.. papel é car¬ regar o boneco insuflável. c) Dou-lhe a resposta que me é possível tão ex¬ traordinária revelação. d) Os alemães ficam dez dias,encontrarem alojamento para os filhos. e) Passou-se na mesma noite roubaram uma bicicleta do quintal. f) As janelas são baixas e têm um espaço nos po¬ demos sentar. 7. Conjugue o Infinitivo Pessoal (todas as pessoas) com estas expressões. “Não é costume fazerem muito barulho.” [eu] fazer / [tu] fazeres / [ele, ela] fazer / [nós] fazermos / [eles, elas] fazerem a) Não é boa ideia falar alto. b) Não é preciso pedir ajuda. c) Não é suposto ter aulas. d) Não é importante mostrar o cartão. e) Não convém chegar tarde. 8. Crie frases com a perífrase haver de + Infinitivo, usada para indicar intenção ou convicção no futuro. Siga o exemplo. Exemplo: eu / ir a Oxford no próximo verão > Eu hei de ir a Oxford no próximo verão. a) a nossa amiga Tatiana / receber-me b) tu / ir ter connosco c) nós / dar uma grande festa d) eu / fazer imenso barulho 171
QUIOSQUE LITERÁRIO e) o vizinho / telefonar para a polícia f) eu / passar a noite na prisão g) tu e ela / ter de pagar a fiança h) eu e tu / voltar para casa sem dinheiro «172 ►
A OCUPAÇÃO TEMPORÁRIA EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE... a) Estará a narradora deste texto também em ocupação temporária da casa em que habita? Justifique a sua opinião. b) O prédio deste texto parece ser uma verdadeira Torre de Babel na qual convivem palavras em português, inglês, espanhol e italiano. Considera que a convivência entre as diversas nacionalidades e culturas no texto é complicada ou harmoniosa? c) A narradora deste texto recorre frequentemente a metáforas militares para descrever a experiência de vida neste prédio: “a ocupação",- "a horda"; "soldados derrotados", “tomar de assalto", etc. Na sua opinião, a que se deve esta comparação com o universo bélico? d) "não é possível vir até um lugar sem nos perdermos um pouco de nós." Concorda com esta afirmação? Porquê? e) No texto, o vizinho de cima “chama a polícia” quando há barulho ou desacatos no prédio. Como é que reagiria se estivesse na mesma situação? f) A narradora parece não aprovar as despedidas de solteira. E no seu caso? As despedidas de solteiro(a) são comuns no seu país? Qual é a sua opinião sobre este ritual? SEM PAPAS NA LÍNGUA a) "dois problemas mais frequentes nas casas inglesas, bolor e má isolação do calor." Na sua opinião, quais são as características (boas e más) mais frequentes das casas no seu país e/ou noutros que já tenha visitado? Elabore uma lista dessas características. b) Faça uma entrevista a um estudante estrangeiro na sua turma e/ou instituição de ensino. Quais são os principais desafios e os momentos mais entusiasmantes na vida de quem está sozinho noutro país? 173»
QUIOSQUE LITERÁRIO ESCRITA CRIATIVA a) Escreva um diálogo que decorre através de videochamada entre o rapaz italiano imigrante e a sua mãe. O que dizem um ao outro e o que fica nas entrelinhas? b) Imagine-se imigrado num país estrangeiro: o que se ganha e o que se perde? Escreva um texto na primeira pessoa no qual reflita sobre esta experiência. PARA IR MAIS LONGE... a) Sugestão de leitura: A Caverna, de José Saramago (Caminho, 2000). Neste romance, o escritor português, galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1998, reflete sobre o impacto da nova economia nos modos de vida tradicionais. b) Sugestão de filme: José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes (Portugal, 2010). Este documentário acompanha dois anos na vida do escritor José Saramago e da sua mulher Pilar dei Rio e reflete sobre a experiência do exílio. c) Sugestão de canção: "É preciso que eu diminua", de Samuel Úria (do álbum Carga de ombro, 2016). A letra da canção começa com os versos “Já não caibo numa casa / onde o espaço é todo meu". -.174»
Um gesto raro Tércia Montenegro Tércia Montenegro (Fortaleza. 1976) é uma escritora, fotógrafa e professora brasileira, autora dos romances Turismo para cegos e Em plena luz (Sâo Paulo: Companhia das Letras, 2015 e 2019). Este conto foi publicado no jornal Cândido, n.° 19 (2013), Biblioteca Pública do Paraná (www.candido.bpp.pr.gov.br). Minha mãe chegou bem cedo, para colocar as flores diante do retrato do tio Álvaro. Quando ela passou lá em casa, estava ruborizada de pressa, segurando o vaso com uma das mãos, enquanto sustentava o volante do carro com a outra: “Pegue logo isso, para não derramar!”, ela disse, assim que eu me sentei. Partimos em disparada, acho que eram umas seis da manhã, e o cemitério ficava distante. Durante todo o trajeto, ela ficou falando sobre as pessoas que deviam estar no funeral, e sempre completava: “Acho que você não lembra, era muito pequena da última vez em que nos vimos.” Eu rcalmente não conhecia ninguém, porque minha mãe brigara com quase toda a família quando eu tinha uns u quatro ou cinco anos. Sobrara apenas uma irmã i conciliadora, a única que nos visitava. Tia Maura ) era uma espécie de porra-voz, trazendo notícias | de uns e de outros. A simples presença dela já 8 indicava conspiração: sempre aos cochichos na retrato - representação de alguém fotografia) ruborizado - corado, com as faces vermelhas vaso - recipiente onde se põem flores volante - peça do carro para girar, mudar a direção derramar - entornar, fazer cair líquido para fora 0 derramou o leite no chdo em disparada - muito depressa, velozmente trajeto - percurso brigar (Pfí) - discutir sobrar - restar, ficar conciliador - que tenta resolver conflitos porta-voz - representante aos cochichos - a falar baixo, contando segredos <•175
QUIOSQUE LITERÁRIO sala, ela respondia às perguntas de minha mãe, que invariavelmente encerrava a conversa dizendo: “AHnal, não mudou nada!” Agora, alguma coisa mudaria, porque tio Álvaro estava morto. Ele era o caçula, um rio que jamais vi, porque a sua briga aconteceu antes mesmo que cu nascesse. Minha mãe costumava contar que os dois se trancaram num banheiro, ele aos gritos de que iria matá-la, ela sem se amedrontar em nenhum momento, querendo entregar uma faca para ele, gritando: “Mate agora! Mate!” Do lado de fora, meu pai batia na porta, recém-casado e rão inexperiente em confusões daquela estirpe. Devia estar assustadíssimo quando tio Álvaro saiu do banheiro, chorando de impotência, com a irmã a chamá-lo de covarde. Eu nunca soube o verdadeiro motivo para aquela cena; ficava impressionada o suficiente com a imagem dos dois aos rapas, minha mãe empurrando-lhe uma faca para que ele a matasse. Sempre tnc esquecia de perguntar a razão para tudo aquilo; acho que, na minha cabeça, as pessoas tinham o hábito de se trancar num banheiro, ameaçando-se como loucas. Por intermédio de tia Maura, cresci sabendo que rio Álvaro era um gênio da informática, mas apesar disso não conseguia bons empregos, porque se recusava a receber ordens de qualquer chefia. Provavelmente a sua reação no banheiro, apesar do choro, também tinha sido um ato rebelde: ele não mataria a própria irmã, já que ela estava mandando que ele fizesse aquilo. Em última instância, eu pensava se minha mãe não conhecia o temperamento de Álvaro o bastante para saber que ele reagiria exatamente da forma contrária caçula (PB) - irmão mais novo trancar - fechar ã chave banheiro (PB) = casa de banho (PE) amedrontar - causar medo a alguém recém-casado - casado há pouco tempo daquela estirpe - daquele tipo covarde - pessoa que não tem coragem, medroso (* corajoso) cena - acontecimento dramático, quase teatral aos tapas (PB) = á pancada (PE) - a lutar empurrar - *l> oferecer ameaçar - jurar fazer mal um ao outro louco - que perdeu a razão, insensato, doido por intermédio - através de gênio (PB) = génio (PE) - pessoa com talento inato chefia - chefe, patrão em última instância - em último caso, no limite temperamento - índole, feitio, modo de ser 176
UM GESTO RARO que ela ordenasse. Nesse caso, entregar-lhe uma faca seria a melhor maneira de permanecer viva. E curioso como ao longo de duas décadas eu pude imaginar uma cena com tantos rostos emprestados. No banheiro, sempre se trancavam dois irmãos diferentes; a cada vez eles tinham feições novas. Mesmo que eu conhecesse foros de minha mãe bem jovem, não conseguia colocá-la para gritar “Mate agora! Mate!” Conservava apenas o seu cabelo loiro c comprido, mas alterava a cor dos olhos, ou o formato do queixo, ou a estatura. O homem, então, aparecia nos mais diversos modelos: às vezes era negro, às vezes oriental. Por muito tempo eu lhe emprestei a fisionomia de atores que faziam o papel de vilões. Nenhum deles tinha a aparência do tio Álvaro, que agora eu via, no retrato em cima do caixão. O caixão estava fechado; somente o retrato identificava o morto, na capela quase vazia. Vagavam por ali dois serventes, arrumando cadeiras de plástico para a missa que iria acontecer. Minha mãe ficou paralisada, e eu imediatamente compreendi por quê: ela não lembrava como tio Álvaro e ela se assemelhavam. Na verdade, eu mesma identifiquei no retrato meus próprios olhos, sobrancelhas e lábios. Bastava retocar a imagem, acrescentando-lhe cabelos longos, para que tio Álvaro se transformasse em qualquer uma de nós. Naquele instante, vimos chegarem outras pessoas- mais rostos familiares, não por serem próximos, mas por trazerem aquela idêntica expressão, os gestos, o modo de caminhar. Fui apresentada a alguns primos, achando todos meio ridículos, como se fossem caricaturas minhas. A fisionomia emprestado - ficcional, irreal feições - traços do rosto formato - feitio, forma queixo - parte inferior do rosto, abaixo dos lábios 0 o Super- homem tem uma covinha no queixo estatura - altura, medida do corpo vilão - personagem má (na dramaturgia) 0 o vilão da telenovela caixão - urna funerária para enterro dos mortos somente - só, apenas capela - local de culto religioso vagar - movimentar-se sem destino preciso servente - pessoas que ajudam o padre na missa missa - celebração de Eucaristia na religião católica assemelhar-se - ser fisicamente parecido sobrancelhas - pelos por cima dos olhos retocar - alterar um pouco 0 retocar uma fotografia com um programa de computador meio (PB) - % um pouco <177 •
QUIOSQUE LITERÁRIO que eu enxergava no espelho de repente se repetia pelo inundo» cm diversas formas levemente alteradas. Encontrei o meu nariz em pelo menos três mulheres, que não me cumprimentaram. Resolvi ficar quieta e o máximo possível escondida, para que o constrangimento passasse. Sentei-me numa cadeira, enquanto minha mãe tentava Falar com toda aquela gente que a odiava. Ela ainda estava com o vaso de flores da mão, como se fosse entregá-lo, dizendo “Mate agora!”. Mas tio Álvaro já estava morto. Alguns estranhos também entraram na capela - deviam ser amigos ou Familiares do outro lado. Tia Maura havia comentado sobre o casamento de Álvaro, anos atrás. Na época dessa conversa, eu ainda morava com minha mãe e escutei os lamentos das duas na sala: “Que pena!”, “Que tragédia!”. Quando tia Maura foi embora, soube que haviam nascido gémeas com síndrome de Down e uma delas, a mais fraquinha, morrera ainda bebé. A outra acabava de chegar para o funeral do pai. Obvio que era ela: uma garota grande c triste, com os olhos como fendas numa máscara. Andava pesadamente, segurando o braço da mãe. As duas sentaram-se na primeira fileira, sem falar com ninguém. O padre começou o ofício; minha mãe deu uma corridinha para colocar o vaso corn flores ao pé do caixão. Ela sentou-se junto com outras pessoas e ficou fazendo sinais para que eu me aproximasse, mas fingi que não via. Estava muito bem ali, no canto mais recuado, onde rio Álvaro não passava de um retrato borrado pela distância. Ao longo de toda a missa, observei as costas de sua esposa: ela não parecia enxergar (RB) - observar escondida - oculta, que não se mostra constrangimento - situação em que se está pouco à vontade odiar - detestar do outro lado - da família da mulher do tio lamentos - queixas, expressão de tristeza gêmeas (RB) = gémeas (RE) - irmãs nascidas no mesmo parto, que são geralmente parecidas síndrome de Down - trisso- rnia 21 funeral - serviço fúnebre, cerimónia de enterro garota (RB) = rapariga (PE) fenda - abertura estreita 0 uma fenda no muro fileira - série de lugares onde as pessoas se podem sentar em linha reta padre - representante da Igreja, sacerdote ofício - serviço religioso dar uma corridinha - ir depressa (e voltar) recuado - afastado borrado - que não é nítido «.178*
UM GESTO RARO murmurar qualquer oração, nem se benzia. A menina também ficava parada, com as duas tranças imóveis, caídas sobre os ombros. Imaginei em que hora sua mãe as fizera, puxando as mechas desde o alto da cabeça, os dedos costurando os fios em voltas unidas, urn ritmo de serpente até o laço na ponta. De um dos lados, a fita era azul; do outro, verde. Quando a missa terminou, dois serventes vieram carregar o caixão. Voltei a ignorar os gestos convulsos mandando que eu saísse do meu lugar; estava decidida a ficar por último, no final da fila que seguiria até o enterro. Minha mãe suspirou, frustrada, mas seguiu junto com tia Maura, que tinha acabado de chegar. Todo mundo caminhava com aquela lentidão fúnebre, e eu ainda nem havia me levantado da cadeira. Sabia que tinha passos largos o bastante para alcançar o grupo quando quisesse. O retrato de tio Álvaro ficou no chão, ao lado das flores. Eu calculava que houvesse algum tipo de serviço responsável por devolver os acessórios à família; assim, não estava realmente querendo pegar a foto ou guardá-la. Andei até ela por uma simples curiosidade — mas logo me arrependi. Numa fração de segundo, a mulher entrou de volta na capela, furiosa como se fosse estapear uma herege. Não me disse nada, mas agarrou o porta-retratos e chutou o vaso, para despedaçá-lo. Em seguida, saiu, com a mesma pressa absurda com que havia entrado. A menina, entretanto, ficou mais um pouco: ela olhava para as pétalas encharcadas, os cacos de cerâmica. Depois, correu, balançando as tranças como se fossem dois lenços moles. murmurar orações - rezar em voz baixa benzer-se - fazer o sinal da cruz (Igreja católica) trança - forma de prender o cabelo (entrelaçado) ombro - parte superior do braço mechas - conjunto de fios de cabelo os dedos costurando os fios em voltas unidas - a fazer as tranças de cabelo com as mãos ritmo de serpente - que ondula como uma cobra até o (PB) = até ao (PE) laço - nó numa fita usada para fixar, manter os cabelos juntos 0 o presente de aniversário tem um laço de fita azul convulso - agitado suspirar - respirar de forma forte, para significar desgosto ou irritação passos - andamento acessórios - objetos que pertencem à família arrepender-se - lamentar ter feito alguma coisa numa fração de segundo - em muito pouco tempo, em menos de nada estapear (PB) - dar tapas (PB), bofetadas na cara herege - pessoa que professa uma doutrina contrária à que foi definida chutar - bater com o pé despedaçar - partir-se em bocados encharcado - totalmente molhado de água cacos de cerâmica - pedaços do vaso partido balançar - mover de um lado para o outro «179 ►
QUIOSQUE LITERÁRIO ESTUDO DA LÍNGUA TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) entregar-lhe uma faca seria a melhor maneira de permanecer viva b) imaginar uma cena com rostos emprestados c) a fisionomia que eu enxergava no espelho de repente se repetia pelo mundo d) uma garota com os olhos como fendas numa máscara e) tio Álvaro não passava de um retrato borrado pela distância 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) quando eu tinha uns quatro ou cinco anos b) afinal, não mudou nada! c) era um gênio da informática, mas apesar disso não conseguia bons empregos d) é curioso como ao longo de duas décadas eu pude imaginar a cena e) o caixão estava fechado; somente o retrato identificava o morto PARA IR MAIS LONGE... ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) ir à missa / a um batizado / a um casamento / a um funeral b) estabelecer a concórdia entre cristãos, judeus e muçulmanos c) frequentar uma igreja / uma sinagoga / uma mesquita d) procurar conselho junto de um padre / um rabino / um imã e) visitar um templo budista / hindu 180
UM GESTO RARO PALAVRAS CARAS 3. Complete as frases com os verbos correspondentes a gestos. agarrar / atirar / deixar cair / empurrar / ir buscar / largar / pegar / puxar / tirar a) Não tenho o documento aqui, tenho de o a casa. Quando voltar, só tens de _ . _ _ _ na caneta e assinar. b) O teu sobrinho é um desastrado, não lhe peças para os ovos do frigorífico, porque de certeza que os vai ao chão! c) Aquele miúdo está há dez minutos a a trança de uma senhora. O pai não repara, anda nas compras, a o carrinho cheio. d) Se o dono a bola para longe, o cão vai correr até a conseguir com a boca e depois não a vai por nada deste mundo. 4. Indique o equivalente destas palavras do Português do Brasil em Português Europeu. a) o banheiro g) o celular b) a ducha h) o terno c) a geladeira i) o açougue d) o ônibus _ j) o café da manhã e) o trem o bonde k) 0 suco f) 1) o sorvete 5. Passe do indivíduo à noção. Siga o exemplo. Exemplo: o católico > o catolicismo a) o cristão > o b) o judeu > o c) u muçulmano > o d) o protestante > o e) o ortodoxo > a f) o pagão > o g) o ateu > o h) o crente > a i) o laico > a j) o blasfemo > a k) o herege > a I) o tolerante > a «181 ►
QUIOSQUE LITERÁRIO MÃOS À OBRA 6. Escolha a palavra certa: bem, bom ou boa (a); mal, mau ou má (b). a1) Ela ensina muito a2) 0 doce está muito a3) Estou _ . _ cansada! a4) Es uma instrutora de ioga. a5) Ele tem muito gosto. a6) Não me sinto lá muito b1) Estás tão vestido! b2) Ela anda com . cara. b3) 0 primo é um perdedor. b4) Falo inglês bastante b5) A música é mesmo bó) É um investimento. 7. Substitua o nome pelo pronome de complemento direto, colocando-o na posição correta e fazendo as adaptações necessárias. Siga o exemplo. Exemplo: A mulher quis despedaçar o vaso. > A mulher quis despedaçá-lo. a) Abri o frasco com dificuldade. b) Vou fixar as velas nos castiçais. c) Ele dispôs as flores na jarra. d) Os avós têm o baú cheio de papéis. e) Nós trouxemos os sacos-camas. f) Não consertaste o relógio? g) Eu fiz o café na máquina nova. «182»
UM GESTO RARO h) Põe o cesto à entrada. i) Tens de inserir a carta no envelope. j) Alguém viu o martelo? k) Eles olearam a gaveta emperrada. I) É melhor proteger a cómoda. 8. Qual é o significado associado às expressões sublinhadas? a) Ao mínimo problema, desata a gritar. 1. início progressivo da ação b) Ela tem tocado piano todos os dias. 2. termo recente da ação c) Esteve para participar, mas desistiu. 3. ação não realizada d) Deixou a louça toda por lavar. 4. início repentino da ação e) 0 médico acabou de chegar. 5. repetição regular da ação f) Ele vai andando e ela vai lá ter 6. intenção que não se depois. realizou «183
QUIOSQUE LITERÁRIO EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE— a) Como descreveria a personalidade da narradora deste conto? Justifique a sua resposta com base em atitudes reveladas no conto. b) Na sua opinião, porque é que a protagonista se interessa pela prima, “uma garota grande e triste com os olhos como fendas numa máscara"? c) Como explica a reação da mulher do tio Álvaro no fim do conto? d) Além da parecença física, acha que é possível e/ou frequente sentir laços especiais ou afinidades imediatas com familiares desconhecidos? e) Para si, a família é aquela com que se nasce ou é possível conceber uma visão alargada, que inclua pessoas próximas, mas sem laços de sangue? f) Tal como nesta história, já lhe aconteceu imaginar episódios da vida de antepassados de que apenas ouviu falar? Quando o fez, usou rostos emprestados? SEM PAPAS NA LÍNGUA a) Separados à nascença: já lhe disseram que tem parecenças com alguma celebridade? Com o apoio de fotografias ou vídeos, defenda essa hipotética semelhança com unhas e dentes. b) Relembre uma zanga absurda que teve na infância: com um irmão ou uma irmã, um primo ou uma prima, um amigo ou uma amiga. Pergunte à pessoa com quem se zangou que memória tem do incidente. Compare ambas as versões e faça um resumo. ESCRITA CRIATIVA a) Não se conhece a razão da zanga entre a mãe da narradora e o tio Álvaro, mas talvez o pai saiba a resposta, mesmo sendo então “recém-casado «184»
UM GESTO RARO e inexperiente em confusões daquela estirpe". Imagine um telefonema em que a filha lhe pede esclarecimentos. b) Escreva sobre uma memória feliz da sua infância que envolva um membro da sua família. PARA IR MAIS LONGE... a) Sugestão de leitura: O filho eterno, de Cristóvão Tezza (São Paulo: Record, 2007). Neste aclamado romance, um pai fala sobre a experiência de ter um filho com síndrome de Down. b) Sugestão de filme: A vida invisível, de Karim Aihouz (Brasil, 2019). Um melodrama familiar que acompanha a vida de duas irmãs e retrata a condição da mulher no Brasil. c) Sugestão de canção: "Encontros e despedidas", de Maria Rita (do álbum Maria Rita, 2003). Uma canção sobre gente que vem e volta, que chega para ficar, que vai para não mais voltar... «185
Textos da casa
Companheiras de casa Ana Bela Almeida Ana Bela Almeida (Lisboa, 1978), coautora do presente manual, é professora de português na Universidade de Liverpool. Deu aulas nas Universidades de Vigo e da Corunha e na Universidade da Califórnia. Atualmente desenvolve o projeto Litinclass, que promove o ensino da língua estrangeira através da literatura (https://litinclass.wordpress.com). Este texto é inédito. Viver no estrangeiro é mais fácil quando se tem companheiras de casa. As contas da água e da luz são partilhadas e é bom sentir que há gente em casa quando se chega do trabalho. Nos últimos meses, tenho partilhado o arrendamento em Inglaterra com uma companheira de casa chinesa e outra tailandesa. O contrato que tinham na residência universitária expirou no final do ano letivo, mas precisaram de ficar mais tempo para terminarem as respetivas teses de mestrado. Desde que chegaram cá a casa, são todas sorrisos, como sc se tivessem libertado da bolha impessoal em que pairam os estudantes internacionais que vivem no campus universitário para, finalmente, experimentarem viver neste país. Deixaram para trás os espaços asséticos e uniformizados da residência-aeroporto e vivem agora como inglesas: casa de tijolo com ervas daninhas a irromperem de cada poro, carpetes coçadas, banheira sem chuveiro e o cheiro a fritos partilhadas - divididas, pagas a metade arrendamento - cedência do uso de um imóvel por um tempo determinado e mediante pagamento expirar - chegar ao fim do prazo ano letivo - ano de estudos (por exemplo, de setembro a junho) são todas sorrisos - são simpáticas bolha - lugar hermético, delimitação artificial 0 a menina olha fascinada para as bolhas de sabão pairar - flutuar, viver fora da realidade deixar para trás - abandonar assético - limpo, estéril tijolo - peça de barro vermelha usada em construções ervas daninhas - ervas parasitas e prejudiciais irromper - surgir poro - abertura carpete - tapete que reveste o chão coçado - gasto, velho - 189 ►
QUIOSQUE LITERÁRIO da chippy da esquina. “Oxalá tivéssemos vindo morar para aqui antes!” Andam encantadas. Como são as duas muito poupadas no dia a dia, não lhes passa pela cabeça gastarem unia moeda num bilhete de autocarro para irem à universidade de manhã: “uma hora a pé làz-se muito bem!", dizem-me quando saem. No entanto, esbanjam dinheiro em viagens dc fim dc semana de compras cm Paris e Barcelona c, apesar de estarem aqui há pouco tempo, já percorreram a Europa dc lés a lés. Ficam muito chocadas quando lhes digo que nunca estive na Suíça: “Nunca?! Mas é aqui ao lado!” Ao serão, todas dc robe c chinelos, exponho- -Ihes a minha grande ideia para um futuro negócio de sucesso: vender torneiras misturadoras, unindo assim para sempre as desavindas correntes de água fria c dc água quente das casas inglesas. “Nunca mais ninguém escaldará as mãos neste país, c eu ficarei milionária!” Rimo-nos muito. E aprendo imenso com elas. A minha companheira dc casa chinesa contou-me que testemunhas de jeová lhe estão a dar aulas sobre a Bíblia. A ela e a muitos colegas chineses. Acrescentou, com um sorriso, que "são aulas gratuitas". Eu disse-lhe que as testemunhas de jeová devem estar radiantes por encontrarem tanta freguesia. Ela esclare- ccu-me: "E nós também: vamos lá para praticarmos inglês." Assim está bem. Partilhar a cozinha com elas é toda uma aventura. Se os portugueses não se mudam para o estrangeiro sem a varinha mágica para as sopi- nhas, as minhas companheiras dc casa arrastam através dos continentes uma gigantesca máquina de cozer arroz cada uma. Suponho que chippy - restaurantes baratos de comida para levar, populares no Reino Unido esquina - ponto em que uma rua se cruza com outra oxalá - teria sido bom poupadas - não gastam dinheiro inutilmente passar pela cabeça - considerar, ponderar faz-se bem - não é difícil esbanjar - gastar sem considerações, à toa de lés a lés - de uma ponta à outra serão - à noite, depois do jantar e antes de ir dormir robe - peça de vestuário que se usa por cima da roupa de dormir, roupão chinelos -calçado para andar em casa torneira - dispositivo que permite a saída da água desavindas - que não se entendem, discordantes escaldar - queimar com água muito quente testemunhas de jeová - membros de um culto reli ¬ gioso fundado nos EUA radiante - muito contente freguesia - clientes, pessoas que frequentam regularmente um lugar esclarecer - justificar varinha mágica - instrumento elétrico para triturar alimentos arrastar - levar consigo (com esforço) através dos continentes - de um lado do mundo ao outro gigantesca - enorme cozer - cozinhar ao fogo ou ao calor, com água suponho - imagino 190
COMPANHEIRAS DE CASA ferver arroz cm água numa panela ao lume não seja a mesma coisa. A companheira de casa tai- landesa teve de me explicar que aqui não podia cozinhar um prato típico do seu país por falta de “tofu". Não percebi. O que não falta nos supermercados daqui é tofu. Ela, com toda a paciência, esclareceu-me que na Tailândia há mais de dez variedades de tofii, com sabores muito diferentes, e que este daqui não sabe a nada. Eu fiquei cheia de vontade de ir à Tailândia. A minha companheira chinesa também me perguntou porque é que estou aqui e não vou antes trabalhar como professora numa universidade. em Portugal, para estar perto da minha família e poder aproveitar o sol e a boa comida. Alguém sugere uma resposta? Enquanto tomamos chá, a minha companheira de casa tailandesa conta-me um pouco do seu país. Vive com o marido na casa da família deste, na qual convivem várias gerações. Pergunto-lhe se não seria melhor viver sozinha com o marido. Ela olha-me, espantada: “E quem ficaria a cuidar da avó velhinha se vivêssemos os dois sozinhos? Quem cuida dos velhinhos em Portugal?” Fico a pensar: "Boa pergunta!" Ela explica-me que a tradição manda que as mulheres, ao saírem de casa dos pais, não mais poderão regressar. Estão para sempre entregues à família do marido. Eu pergunto: "Então e se quiserem divorciar-se?" Ela ri-se: "Boa pergunta!" Tudo o que é bom acaba, e as minhas companheiras de casa lá partiram hoje, com a bagagem atulhada de presentes, de regresso aos seus países. ferver - levar um líquido à ebulição ao lume - ao fogo 0 a sopa está ao lume por falta de - devido à inexistência de tofu - alimento vegetal à base de soja variedades - tipos diferentes não saber a nada - não ler sabor nenhum alguém sugere...? - alguém sabe explicar...? chá - infusão de plantas em água quente 0 o chá das cinco é uma tradição britânica conta-me um pouco do seu país - fala-me da vida na Tailândia conviver - viver juntos gerações - pessoas nascidas na mesma época espantada - surpreendida cuidar de - ocupar-se de, tomar conta de estar entregue a - ficar ao cuidado de alguém atulhado - recheado, a abarrotar (já não cabia mais nada) 191
QUIOSQUE LITERÁRIO Tivemos cie sentar-nos as três em cima das malas para as conseguirmos fechar, o fecho-édair prestes a vacilar. Ofereceram-me as luvas de lã e os casacos grossos de penas. Já não vão precisar deles. Iam um tanto desconsoladas porque todas as recordações que compraram no Reino Unido diziam Made in China. fecho-édair - sistema de correr para fechar e abrir malas ou peças de roupa prestes a - quase a vacilar - rebentar luvas de 19 - peça de vestuário para proteger as mãos do frio casacos de penas - casacos muito quentes desconsoladas - tristes, desiludidas «192 ►
COMPANHEIRAS DE CASA ESTUDO DA LÍNGUA ♦ TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) deixaram para trás os espaços asséticos e uniformizados da residência-aeroporto b) andam encantadas c) fico a pensar: "boa pergunta!" d) a tradição manda que as mulheres não mais poderão regressar a casa dos pais e) ela, com toda a paciência, esclareceu-me que há mais de dez variedades de tofu 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) oxalá tivéssemos vindo morar para aqui antes!- b) uma hora a pé faz-se muito bem c) perguntou-me porque não vou antes trabalhar em Portugal d) enquanto tomamos chá, a minha companheira conta-me um pouco do seu país e) iam um janto desconsoladas PARA IR MAIS LONGE— ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) trocar impressões / dar dois dedos de conversa b) seguir / romper com a tradição c) comparar usos e costumes d) ter um choque cultural e) fazer as coisas à minha maneira / à tua maneira / à maneira j dele(a) « 193 ►
QUIOSQUE LITERÁRIO PALAVRAS CARAS 3. Sublinhe o intruso na sequência de palavras. a) pagar a quantia / receber gorjeta / penhorar / dar o troco / obter um desconto b) esbanjar / poupar / desperdiçar / gastar / dissipar c) levantar dinheiro / cambiar / depositar / fazer uma transferência / matricular-se d) conta bancária / cartão de visita / livro de cheques / cartão multibanco / cartão de crédito e) faturas da água e da luz / prémio / propina / arrendamento / conta da Internet 4. Qual é o verbo indicado em Português Europeu? Complete as expressões com apanhar, tomar ou tirar. a) chá h) a iniciativa b) um táxi i) conclusões c) férias i) uma aspirina d) chuva jz k) dúvidas e) _ _ uma fotografia l) uma decisão f) um duche fp) frio g) - um susto n) _ . um curso 5. Complete os espaços reutilizando expressões do texto. a) Desde que chegaram, andam sempre, a sorrir = todas b) Já percorreram a Europa de uma ponta à outra = de a c) Arrastam as máquinas de cozer arroz pelo mundo = dos d) Há imenso tofu nos supermercados! = 0 não é tofu. e) Dizem que este tofu é insípido = Este tofu não a f) Fiquei desejosa de ir à Tailândia = Fiquei de de ir à Tailândia. «194»
COMPANHEIRAS DE CASA MÃOS À OBRA 6. Exprima desejos relativamente a um passado que não aconteceu através do Pretérito Mais-que-Perfeito Composto do Conjuntivo. Siga o exemplo. Exemplo: Não demos a festa. > Oxalá tivéssemos dado a festa! a) Não fiz sobremesa b) Não viste o filme? _ _ . _ c) Não fomos ao parque d) Não guardei a chave e) Não ouviram as notícias f) Não tivemos férias. g) Não trouxe a toalha. h) Não perceberam as regras. i) Não estiveste no concerto j) Não pus protetor solar k) Não comprámos fruta l) Não leu as instruções 7. Utilize os advérbios cá e lá como forma de realce. a) Estou em casa. Vem ter. b) Despacha-te! c) Conheço este bairro. Já vim. d) Para com esse barulho. e) Dá o teu caderno para eu ler. f) Ela se foi embora para a China. g) Fico com as minhas ideias. h) Explica o que se passou. i) Estou com uma fome! j) Sei o que aconteceu! (= não sei) - Tecn-ce*. -aa.
QUIOSQUE LITERÁRIO 8. Substitua os complementos sublinhados por pronomes. Quando necessário, contraia os pronomes de complemento direto e indireto. Siga o exemplo. Exemplo: Exponho a ideia a elas. > Exponho-lhes a ideia. a) Elas dão os bilhetes ao motorista. b) Pedi ajuda à companheira de casa. c) Transmiti o recado à senhoria. d) Pus os presentes na mala. e) Ofereceram as luvas à vizinha. f) Vais buscar o teu vestido à lavandaria? g) Vou contactar a inquilina. h) Emprestou livros ao colega. i) Levas a rapariga ao aeroporto? j) Deixaram a máquina à amiga. 196.
COMPANHEIRAS DE CASA EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE... a) No início do texto, a autora considera que viver no estrangeiro partilhando casa é mais fácil do que viver sozinha e apresenta algumas razões para isso. Concorda com esta perspetiva e com os motivos apresentados? b) Quando lhe perguntam o motivo pelo qual não vive em Portugal, a narradora questiona ironicamente: “alguém sugere uma resposta?" Na sua opinião, qual poderá ser essa resposta? c) As companheiras de casa da autora do texto deixaram de viver em residências universitárias para viverem em casas tipicamente inglesas. Explique o sentido da expressão “residência-aeroporto". d) Na partilha da casa, a divisão da cozinha “é toda uma aventura", diz- -nos a autora. Por que razão será uma aventura partilhar uma cozinha? e) As duas companheiras são, ao mesmo tempo, muito poupadas, mas também "esbanjam dinheiro". Na sua opinião, o que é ser poupado e o que seria ser esbanjador? Qual destas atitudes acha preferível? f) Explique, por palavras suas, o porquê do desconsolo das companheiras de casa ao regressarem aos seus países com produtos que dizem Made in China. SEM PAPAS NA LÍNGUA a) Liste as vantagens e os inconvenientes de ter uma vida geograficamente mais próxima ou mais afastada da família. b) Se fosse viver para um país distante da sua realidade cultural, qual o objeto de que não prescindiria? Defenda a importância da sua escolha e dê exemplos concretos. Tktwm LM 197
QUIOSQUE LITERÁRIO ESCRITA CRIATIVA a) Crie um anúncio original e bem-humorado para encontrar um(a) com- panheiro(a) de casa. Indique alguns dos seus hábitos e refira os comportamentos que jamais toleraria (por exemplo, que lhe roubem os iogurtes). b) Imagine que tem de entregar amanhã uma proposta de tese de mestrado. Escolha um tema inusitado e identifique alguns pontos a desenvolver no seu estudo. PARA IR MAIS LONGE... a) Sugestão de leitura: Remington, de Jorge Listopad (Lisboa: Cavalo de Ferro, 2013). Nestes contos do escritor checo naturalizado português, são frequentes os encontros entre pessoas de nacionalidades diferentes. b) Sugestão de filme: Bentinho, de Gustavo Pizzo (Brasil, 2018). Trata-se de uma comédia na qual a vida de uma família brasileira é abalada quando o filho mais novo recebe um convite para ir jogar numa equipa de andebol alemã. c) Sugestão de canção: "Um corpo no mundo", de Luedji Luna (do álbum Um corpo no mundo, 2017), cuja letra alude à experiência da partida e da imigração: "Um corpo só / Tem cor, tem corte / E a história do meu lugar / Eu sou a minha própria embarcação / Sou minha própria sorte." 198
A Grande Luso-Sérvia Gonçalo Duarte Gonçalo Duarte (Coimbra, 1978), coautor do presente manual, trabalha na área do ensino do português para estrangeiros e no mundo das bibliotecas e da programação cultural. Deu aulas na Universidade de Paris-Nanterre, na Universidade Livre de Bruxelas e na Universidade Católica de Lovaina. Publicou o livro Histórias de bolso (Lisboa: Lidei, 2016). Este conto é inédito. Disse-lhe aquilo num passeio em Sintra sem pensar, quase em tom de descaso, e pela falta de reação de Dana logo me dei conta de que tinha cometido um erro. A frase ficou a pairar entre nós, ou eu pelo menos assim o senti, e passei uns dias à espera de consequências. Porém, Dana, que tinha um temperamento esquivo e era capaz de se desembaraçar de arrelias com um gesto de mão, nunca se referiu ao incidente. O nosso modo era a leveza, mas não pretendo arranjar desculpas. Andei incomodado durante uns dias e tentei por várias vezes puxar o assunto, sem nunca encontrar oportunidade. A despedida, enquanto esperávamos pelo voo para Belgrado, estive para lhe pedir desculpa como quem não quer a coisa, mas não o fiz - também não 8 lhe ia estragar a viagem. Em vez disso, corri ao « quiosque do aeroporto e ofereci-lhe uma revista l cor-de-rosa que prometia revelações exclusivas j sobre o Sérgio c a Verónica do Big Brother. descaso - falta de atenção, desinteresse pairar - flutuar no ar (de forma ameaçadora) 0 uma nuvem negra a pairar no céu temperamento - carácter esquivo - que foge ao conflito desembaraçar-se - arranjar forma de ficar livre, de se soltar arrelias - incómodos gesto - movimento referir-se a - falar de modo - forma de ser, de comunicar puxar o assunto - abordar um tema, referir-se a algo voo - n trajeto de um avião como quem não quer a coisa - de forma casual, descomprometida também - afinal quiosque - loja de jornais, revistas, livros, etc. revista cor-de-rosa - revista com histórias sobre famosos Big Brother - programa televisivo (reality show) 199
QUIOSQUE LITERÁRIO Dana pelava-se por coscuvilhices. Riu-se muito, mas mal olhou para a capa e escondeu depressa a TV 7 Dias por entre as folhas de um artigo sobre linguística ibérica. Já despachara as inalas no check-in, daí a poucas horas estaria de regresso à Servia. - Olha, estes meses foram mesmo giros - repetiu, arrastando muito o - Quero que ven- gas visitar-me! -- Que venhas — apressei-me a corrigir, para cortar a lamechice. - O teu português não se percebe... Mas não era verdade, filava um português perfeito, um pouco cantado, herança provável dos meses passados cm Santiago. Em março desse ano - falo de 2001 - tomara a decisão de deslizar cia Galiza para Portugal, à conta de uma bolsa de estudo de linguística diacrónica ou coisa assim. Eu vivia então o meu primeiro ano lisboeta, arrendava um I 2 em Alvalade com uma artista plástica de Aveiro, cheia de manias, decidida a “vingar na capital". Dana veio parar a nossa casa por intermédio de uma amiga comum. A princípio por uns dias, até encontrar poiso; mas a Eti- lália, assim se chamava a artista, há de ter considerado que tuna servia exótica representava uma mais-vaiia no seu círculo de conhecimentos. Ao fim de uma noite de copos, propôs que a deixássemos servir-se livremente do nosso sofa-cama durante os meses da bolsa. pelar-se por - adorar coscuvilhices - falar sobre a vida dos outros TV 7 Dias - revista sobre famosos da televisão artigo - texto académico despachar as malas - registar e enviar a bagagem antes de um voo giro - divertido, engraçado lamechice - tendência para a sentimentalidade herança - o que se recebe 0 após a morte dos avós, recebeu a casa de herança deslizar - descer à conta de - graças a linguística diacrónica - disciplina que estuda a evolução da língua ao longo do tempo T2 - apartamento com dois quartos (além da sala) Alvalade - bairro residencial de Lisboa Aveiro - cidade do Centro de Portugal, conhecida pelos seus canais (de água) cheia de manias - afetada, pouco natural vingar na capital - ter sucesso, ganhar fama em Lisboa por intermédio - através de poiso - lugar onde viver uma mais-valia - um benefício, uma vantagem noite de copos - saída noturna em que se bebe muito tese - trabalho académico (doutoramento) Não se pode dizer que Dana renha avançado muito na redação da tese durante o período lisboeta. De lembrança, visitou comigo três bibliotecas, e apanhei-a uma manhã a ler as magras páginas d’O essencial sobre a história do português, de de lembrança - que eu me lembre, se me recordo bem apanhar (alguém) - surpreender alguém a fazer alguma coisa magro - curto, breve 200
A GRANDE LUSO-SÉRVIA Esperança Cardeira. Não se ralava: "todo pasa”, tinha por hábito dizer cin espanhol. Já não me lembro do tema da tese, mas eu contava a toda a gente que ela preparava um trabalho pioneiro sobre a aliança entre o D. Afonso Henriques e um rei balcânico qualquer para a criação de uma Grande Luso-Sérvia. Dana alinhava na história e precisava datas, muito doutoral. Quanto mais delirantes, mais apetecíveis são os revisionismos. Aportuguesou-se num instante, e até o cantar galego se foi dissipando. Todas as manhãs folheava o Público., dc vez em quando levantava a cabeça para constatar que o Bush era nefasto e culminava cada apreciação com um sonoro pá!. Adorava “lanchar", como os portugueses. E à noite seguia com toda a atenção os desaires da família Ávila dos Jardins Proibidos. Aquele drama- Ihão da TVI era cultura lusófona, justificava-se. Em troca, propunha-se lustrar-me com sonoridades eslavas, fazendo-me repetir: molim, dobro, ja sam Portugalac. Espantava-se muito por eu ignorar que a Milla Jovovich tinha ascendência servia. A verdade é que, até então, os Balcãs não eram para mim mais do que um emaranhado geognífico que servia de cenário para os filmes de Emir Kusturica. E para a guerra. Rapidamente nos tornámos inseparáveis. Ela era uma lisboeta bem mais aplicada do que eu, conhecia os percursos todos. Levava na carteira uma pequena c ridícula máquina cor-de-rosa com que pedia a transeuntes para nos tirarem fotografias, esforçando-se sempre por ocultar o cigarro (parecia-lhe mal que uma mulher fumasse na rua). Metia conversa com toda a gente, e recebia as mais espantosas confidências. Certa vez, ralar-se - preocupar-se pioneiro - inédito e importante, precursor aliança - acordo, pacto D. Afonso Henriques (c. 1106-1185) - primeiro rei português delirante - louco, sem qualquer fundamento apetecível - em que dá vontade de acreditar revisionismo - ato de reescrever a História através de falsidades aportuguesar-se - ficar parecido com os portugueses ir-se dissipando - ir-se perdendo, aos poucos Público - jornal português nefasto - nocivo, malvado culminar - terminar pá! - interjeição coloquial muito usada em Portugal lanchar - comer a meio da tarde (exemplo: bolo e sumo) desaires - desventuras Jardins Proibidos - telenovela do canal TVI lustrar - cultivar Milla Jovovich - atriz, modelo e cantora norte-americana emaranhado - confusão Emir Kusturica - realizador de cinema sérvio aplicado - empenhado nos estudos transeuntes - pessoas que passam na rua parecer mal - nâo ser adequado, não ficar bem meter conversa com - falar com desconhecidos espantoso - inesperado 201
QUIOSQUE LITERÁRIO um marmanjo de meter medo contou-lhe que passara dez anos na prisão por ter tirado a vida a um colega com as próprias mãos. Compassiva, Dana abanava muito a cabeça, antes de rematar: “azares da vida”. Encontrava sempre a palavra certa nesses encontros, típicos de noitadas no Bairro Alro. Se não estou em erro, tinha um vago namorado em Belgrado, mas isso não a impedia de ir colecionando flirts. Lançava olhares fugidios aos espelhos do Portas Ixtrgas, com rnedo de que se notasse que ja ia nos 25 — mas, como se esforçava muito por “ser gira”, conseguia passar as noites a beber ginjinha à custa de rapazes que engraçavam com ela. A verdade é que tinha comportamentos liberais, mas também ideias ortodoxas. Quando eu conheci o Matthias, numa dessas noites, disse-me, com muito zelo: “Já sabes que não condeno o pecador, mas sim o pecado”. E invocava com uma gargalhada um gntffiti de Belgrado, / pederi imaju dusu (os giiys também têm alma). Comentários desses não eram assim tão raros. Nenhum de nós era dado à melancolia, mas na véspera da sua partida, ao lusco-fosco, embarcámos num cacilheiro rumo à outra margem, olhos postos em Lisboa. A partir de então, voltei a poder sentar-me no sofá-cama, mas as galas do Big Brother tinham perdido a graça. De vez em quando, a Eulália organizava umas festas, c, umas semanas mais tarde, telefonou-me o Matthias: sempre tinha guardado o meu número. Veio setembro, aquele setembro. Mudei-me para umas águas-furtadas em Alfama, que partilhava com uns franceses, naturalmente não tão divertidos como a minha marmanjo - homem robusto, corpulento prisão - cadeia, local onde se fica preso por um crime tirar a vida - matar compassivo - com bondade ou compreensão abanar a cabeça - gesto em pático de compreensão rematar - concluir Bairro Alto - bairro lisboeta conhecido pela animação noturna vago - %> pouco certo fugidio - que não se detém Portas Largas - bar do Bairro Alto, de clientela maioritariamente qay ginjinha - licor de ginja (fruto vermelho) engraçar com - simpatizar com zelo - aplicação, diligência pecado - transgressão de um princípio religioso invocar - recordar, aludir gargalhada - grande riso lusco-fusco - hora em que o Sol se põe, crepúsculo cacilheiro - barco que faz a travessia do rio Tejo a outra margem - zona em frente a Lisboa, conhecida por Margem Sul gala - evento televisivo perder a graça - tornar-se menos interessante sempre Iantes do verbo] - veio a verificar-se que aquele setembro - de 2001 (ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque) águas-furtadas - último andar de um edifício, com janelas sobre o telhado Alfama - bairro popular do Centro de Lisboa 202 ►
A GRANDE LUSO-SÉRVIA coinquilina servia. Fui acompanhando por e-inail a evolução da tese de linguística, Dana parecia mais dedicada ao trabalho. Prometi ir visirá-Ia a Belgrado assim que a terminasse. Um ano passara já, e depois passou outro, três, seis. Dana casou, teve uma filha, conseguiu trabalho no departamento de estudos espanhóis. Em 2006 ou 2007, antes que ficasse mais complicado para ela viajar, por pouco não nos cruzávamos em Paris. O nosso contacto foi-se reduzindo a votos de feliz aniversário e de boas-festas, até se extinguir. Ora, há uns dias, a minha amiga deu sinais de vida. Arriscou ligar para o mesmo número e, num português tirubeante e cheio de castelha- nismos, perguntou por novidades. Percebi que já não comunicávamos há anos quando se tornou evidente que ela ouvia falar do Tommaso pela primeira vez. Veio o motivo do telefonema: ia dar uma festa na casa da família em Novi Sad e desejava reunir os amigos dispersos. Perguntei, mais ou menos a brincar, se já eram os 50. E, quase sem refletir, lancei-me: — Olha, não tem nada que ver, mas nunca te cheguei a pedir desculpa pelo que te disse daquela vez, em Sintra... — Estás a falar do quê? — perguntou Dana. Era uma tarde sem nuvens, caminhávamos por entre as ruínas do castelo mourisco, e Dana falou-me dos bombardeamentos de Belgrado pela primeira e única vez. Disse-lhe que devia ser uma experiência de vida tão incrível que quase sentia inveja. Há frases que moem durante anos. j. Mas Dana garante agora não se recordar de tal 3 conversa. coinquilino - alguém com quem se divide casa por pouco - quase que aconteceu, pouco faltou cruzar-se - encontrar-se um com o outro votos - desejos extinguir - acabar ora - no entanto, acontece que dar sinais de vida - dar notícias, comunicar arriscar - tentar a sorte titubeante - inseguro, com hesitações castelhanismo - palavra espanhola (do castelhano) ouvir falar - passar a saber que existe Novi Sad - cidade sérvia disperso - espalhado, que não está junto a brincar - falar sem ser a sério, de modo divertido lançar-se - decidir-se a fazer uma coisa ter que ver - ter relação (com o que está a ser dito) ruínas - vestígios de monumentos antigos castelo mourisco - Castelo dos Mouros, em Sintra, monumento do tempo da presença dos mouros (árabes) bombardeamento - ataque a determinado alvo com bombas (por exemplo, numa guerra) inveja - querer ter o que outra pessoa tem moer - atormentar, cansar por ser repetitivo 203
QUIOSQUE LITERÁRIO - Disseste mesmo isso, a sério? — e era como se pudesse vê- la a encolher os ombros. — Deixa lá, éramos dois miúdos... Esíòrcei-me por manter o sorriso enquanto a ouvia enumerar planos para a fesra, que natural- mente tinha de ser “gira”. O Tommaso também estava convidado. Lembrei-me de que, no verão passado, fizéramos escala em Belgrado a caminho da Grécia; mas, este ano, os planos eram outros, e ficava complicado juntar mais uma despesa. Dana insistia, afinal estava a avisar com antecedência; respondi-lhe que tinha dc ver. Fiquei de lhe dar resposta por estes dias. encolher os ombros - gestu de levantar e deixar cair os ombros (parte superior dos braços), para indicar que não se dá importância a uma coisa deixa lá - não ligues, não importa fazer escala - quando um avião faz uma paragem num aeroporto a caminho de outro despesa - gasto com antecedência - muito tempo antes ficar de - combinar 0 ficou de me telefonar esta semana 204
A GRANDE LUSO-SÉRVIA ESTUDO DA LÍNGUA TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) era capaz de se desembaraçar de arrelias com um gesto de mão b) uma sérvia exótica representava uma mais-valia no seu círculo de conhecimentos c) quanto mais delirantes, mais apetecíveis são os revisionismos d) ela era uma lisboeta bem mais aplicada do que eu e) lançava olhares fugidios aos espelhos do Portas Largas 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) logo me dei conta de que tinha cometido um erro b) daí a poucas horas estaria de regresso c) uma bolsa de estudos de linguística diacrónica ou coisa assim d) se não estou em erro, tinha um vago namorado em Belgrado e) perguntei, mais ou menos.a brincar, se já eram os 50 PARA IR MAIS LONGE... 4 i ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) fazer o check-in online b) apresentar o cartão de embarque c) descansar a bordo do avião d) o avião partiu com atraso / aterrou no horário previsto e) levar bagagem de cabine / de porão «205»
QUIOSQUE LITERÁRIO PALAVRAS CARAS 3. Associe estas expressões com o verbo ficar à expressão adequada. assentar no corpo / combinar / estar doente / localização / mudança de estado / ficar frustrado / permanecer / receber ou calhar em sorte / ser adiado / valor a) ficar eufórico com uma notícia b) ficar-me bem (roupa) c) ficar por casa d) ficar a ver navios e) ficar no Norte (uma cidade) f) ficar por metade do preço g) ficar para a semana h) ficar de ir ter com o Rui à pastelaria i) ficar de carna j) ficar com a maior fatia do bolo 4. Associe o verbo ao nome para formar expressões idiomáticas. a) b) puxar arranjar 1. 2. uma desculpa uma opinião c) valer 3. conversa d) formar 4. a pena e) trocar 5. o assunto f) meter 6. ideias 5. O que denotam estas atitudes? a) agir com zelo b) sentir pudor c) manifestar enfado d) proceder com cautela e) atuar com arrogância f) ter brio 1. ser prudente, ter precauções 2. mostrar-se altivo, ter pouca humildade 3. aplicar-se muito, ser diligente 4. querer ser digno, ter amor-próprio 5. ser recatado, ter vergonha 6. ser desagradável, sentir irritação 206
A GRANDE LUSO-SÉRVIA MÃOS À OBRA 6. Transforme o Pretérito Perfeito Simples do Indicativo em Pretérito Perfeito Composto do Conjuntivo tendo em conta o contexto. Siga o exemplo. Exemplo: Ela avançou muito. > Não se pode dizer que ela tenha avançado muito. a) Tenho a certeza de que ela regressou a Lisboa. Duvido que ela b) Acho que ele viu o final do Big Brother. Não acho que ele — c) Parece-me que ela teve três filhos. Não me parece que ela d) Não me interessa se ele foi à Grécia no verão. Espero que ele e) Provavelmente fez escala em Belgrado. É provável que f) Se calhar eles reencontraram-se. Talvez eles 7. Encontre um substituto de significado equivalente para os advérbios. a) Riu-se muito, mas mal olhou para a capa da revista, (então / adiante / quase não) b) Estes meses foram mesmo giros, (muito / demais / assim) c) Era uma lisboeta bem mais aplicada do que eu. (apenas / bastante / tão) d) Disseste mesmo isso, a sério? (bem / até / realmente) e) O Matthias sempre tinha guardado o meu número, (afinal / já / constantemente) 8. Complete com c Pretérito Mais-que-Perfeito Simples o equivalente literário da forma composta (mais usada na oralidade). Siga o exemplo. I Exemplo: Ela nunca fora à Galiza. > Ela nunca tinha ido à Galiza. a) Ela nunca português. > Ela nunca tinha apren- i dido português. 207
QUIOSQUE LITERÁRIO b) Ela nunca c) tado em Lisboa. Ela nunca d) uma tese. Ela nunca e) de avião. Ela nunca Lídia Jorge. em Lisboa. > Ela nunca tinha es- uma tese. > Ela nunca tinha feito de avião. > Ela nunca tinha viajado Lídia Jorge. > Ela nunca tinha lido -208»
A GRANDE LUSO-SÉRVIA EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE... a) O conto fala da experiência de uma amizade leve e feliz em tempos de juventude, mas sobre a qual há uma nuvem negra a pairar. Afinal, porque é que a frase proferida pelo narrador o "moeu" toda a vida? b) Acha que Dana não se recorda reaimente da conversa tida com o narrador? Justifique. c) Dana, como tantos de nós, parece viver com algumas contradições entre a moral em que acredita e a prática do que vive. Identifique alguns dos momentos do texto em que isto é dado a entender. d) O domínio do português de Dana vai mudando ao longo do conto. Identifique estes momentos de mudança. e) O final do conto fica em aberto. Acha que o narrador vai aceitar o convite para a festa de Dana? Porquê? f) No seu caso, já teve algum amigo(a) ou namorado(a) de outro país ou de outra cultura? Quais são as vantagens e os desafios destes relacionamentos? SEM PAPAS NA LÍNGUA a) Podemos afirmar que Dana é um excelente modelo de uma estudante de línguas. Partindo do texto, dê exemplos da imersão de Dana na língua e na cultura portuguesas e inspire-se neles para o seu próprio estudo. b) “Em Roma, sê romano": imagine que Dana vai aprender a sua língua durante uma estadia no seu país e deseja experienciar a cultura local, fora dos roteiros turísticos e dos lugares comuns. Elabore uma lista de sítios a visitar e de experiências únicas e explique por que razão Dana não os deve perder. i o «209*
QUIOSQUE LITERÁRIO ESCRITA CRIATIVA a) "O nosso contacto foi-se reduzindo a votos de feliz aniversário e de boas festas, até se extinguir." Recorde um amigo ou uma amiga com quem tenha perdido o contacto e escreva-lhe um e-mail no qual fale da importância do vosso passado em comum. b) "O nosso modo era a leveza”. Escreva um texto ficcional a partir deste título. PARA IR MAIS LONGE.. a) Sugestão de leitura: Os papéis de K., de Manuel António Pina (Lisboa: Assírio & Alvim, 2003). Esta novela relata um misterioso encontro entre um português e uma norueguesa, com a consciência de que “a matéria da memória é indefinida e insegura”. b) Sugestão de filme: Peixe-lua, de José Álvaro Morais (Portugal, 2000). Um filme sobre o fim da juventude, a busca de um caminho próprio e o peso das tradições familiares, filmado com leveza no Sul de Portugal e de Espanha. c) Sugestão de canção: “Dancemos no mundo”, de Sérgio Godinhn e Clâ (do álbum Lupa. 2000). Nesta canção que atravessa fronteiras, leem-se os versos "Eu só queria dançar contigo / Sem corpo visível / Dançar como amigo / Se fosse possível”. 210
Camões sem C.e Joana Meirim Joana Meirim (Lisboa, 1982), coautora do presente manual, é professora convidada na Universidade Católica Portuguesa e na Universidade Nova de Lisboa. Deu aulas também na Universidade da Corunha e no Ensino Secundário em Lisboa. Coedita o site de poesia e crítica Jogos Florais (https://www.jogosflorais. com). Esta crónica é inédita. No ensino da língua portuguesa a estrangeiros parece prevalecer a ideia peculiar de que ensinar a língua implica ensinar uma pessoa a ser português. Uni certo uso da famigerada expressão “língua de Camões” para isso tem contribuído. E a definição de “lusofonia” em dicionários portugueses não a desmente: Lusofonia: 1. Qualidade de ser português, de falar português; o que é próprio da língua e cultura portuguesas; 2. Comunidade formada pelos países c povos que têm o português como língua materna ou oficial. Dicionário do Língua Portuguesa Contemporânea y Academia das Ciências de Lisboa, Lisboa, Verbo, 2001. A primeira entrada do termo “lusofonia” considera que existe uma “qualidade de ser português”, o que quer que isso queira dizer. O principal significado da palavra - a comunidade de países e povos que falam, de facto, a dita língua (Luís de) Camões (c. 1524-1580) - considerado o maior poeta português, ao qual se associa um período de esplendor C.* - abreviatura comercial de companhia o o nome da sociedade é Simões & C.9 prevalecer - predominar peculiar - estranha, bizarra. inexplicável 0 o prato que nos serviram tinha um sabor peculiar famigerado - célebre, famoso de má fama) desmentir - provar o contrário o que é próprio de - o que pertence de forma exclusiva entrada do termo -cada aceção da palavra nos dicionários a dita - a já referida «211 ►
QUIOSQUE LITERÁRIO porruguesa — fica cm segundo lugar. Uma ral noção enviesada de lusofòiiia parece esquecer os falantes de português que se espalham pelo mapa-múndi, muito além do território de Portugal. Esses filantes do mundo lusófbno figuram frequentemente em pontos coloridos num mapa que ilustra livros e manuais, assinalando tão-somente a existência de lugares onde se fala português. Quem tenha ensinado ou aprendido a língua porruguesa já decerto percebeu que “língua de Camões” e “língua portuguesa" são expressões tidas como sinónimas. Embora equivalentes, ensinar a língua de Camões tem uma conotação intelectual e cultural mente mais prescigiante do que ensinar apenas a língua portuguesa. A razão disto talvez esteja na estreita relação que sempre existiu em Portugal entre língua e nação: o ensino mais tradicional tende a identificar língua e nacionalidade portuguesas. Daí esta mesma nação ter num poeta o seu símbolo maior. Quando se ensina a língua de Camões, assume-se que se ensina muito mais do que uma língua, espera-se que se ensine uma maneira especial de ser que seria inerente às pessoas de nacionalidade portuguesa. Aliás, celebrações como a do 10 de junho têm perpetuado esta visão romântica da relação entre língua e pátria. O que será então ensinar a qualidade de ser português! De acordo com alguns manuais de língua e outros materiais, a qualidade de ser português será gostar de futebol, deixar o carro mal estacionado, ouvir fado, tomar dezenas de cafés diariamente, passar a vida na praia, ser advogado quando se c homem e secretária quando se é mulher, comer enviesado - que não é claro mapa-múndi - representação plana da superfície terrestre figurar - aparecer, ser representado tão-somente - unicamente decerto - certamente tido como - visto como, que se entende como prestigiante - que tem mais valor, que dignifica estreito - próximo 0 uma amizade estreita tender - orientar-se para, ter tendência para daí - por isso mesmo assumir-se - partir do princípio inerente - que está por natureza associada a aliás - de facto, mais precisamente 10 de junho - dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas (e também data da morte de Luís de Camões) perpetuar - contribuir para manter vivo visão - modo de conceber carro mal estacionado - carro parado de forma incorreta, sem respeitar as regras fado - estilo musical português associado sobretudo à saudade <212
CAMÕES SEM C.* pastéis de nata assiduamente ou sentir uma nostalgia especial e intraduzível, a saudade. E o que será então ensinar a língua de Camões e o carácter excecional de um povo que ele representa? Será ensinar a apagada c vil tristeza que inexoravelmente marca o destino de qualquer português que se preze? Quanto ao ensino da língua propriamente dito, e a bem da língua e do próprio Camões, talvez tudo isto se tornasse mais claro se ficássemos pelo sentido estrito de palavras corno “luso- fonia” e de expressões como “língua de Camões”. Bastas vezes, a primeira aceção é suficiente para se ser exato, e não vem nenhum mal ao mundo quando isso acontece. Assim, ensinar a língua de Camões só poderá ocorrer, de Facto, numa aula dedicada ao autor d’Qr Lusíadas-, a língua de Camões é o português do século XVI, e bem longe estão os lusófonos de a filiarem, a escreverem e até dc a compreenderem sem a preciosa ajuda de intermediários especializados. Ensinar a língua portuguesa, por sua vez, será ensinar a língua que é falada hoje por vários povos e comunidades espalhados pelo tal mapa-múndi, sem que isso implique excecionali- dade, predestinação ou saudade. Experimente-se ensinar a língua portuguesa tout court, sem a companhia de Camões e sem lastro de lusofonia. Ensine-se apenas uma língua que, como todas as outras, se pensa, se fida e se 1 escreve. Mas leia-se, claro, pelo meio, muitos sonetos de Camões — e, já agora, poemas de Adília i também. 3 « «213» pastel de nata - bolo típico português com creme de ovos e massa folhada assiduamente - muitas vezes, frequentemente saudade - sentimento de tristeza causado pela ausência de coisas boas do passado 0 a saudade do país acompanhou o emigrante ao longo de toda a vida carácter excecional - temperamento único, qualidades específicas apagada e vil tristeza - verso com que Camões descreveu o temperamento português ri Os Lusíadas inexoravelmente - sem escapatória, fatalmente que se preze - que se considere como tal estrito - preciso, rigoroso bastas vezes - frequentemente aceção - significado ocorrer - acontecer Os Lusíadas - poema épico de Camões (publicado em 1572) que relata a história de Portugal e da expansão marítima precioso - valioso intermediário - que ajuda a compreender (estudiosos, linguistas, etc.) implicar - conter de forma indispensável, exigir tout court (fr.) - sem mais,. simplesmente sem lastro de - sem essa base, sem esse peso pelo meio - ao mesmo tempo, já agora Adília Lopes (1960) - poetisa portuguesa contemporânea
QUIOSQUE LITERÁRIO ESTUDO DA LÍNGUA TROCADO POR MIÚDOS 1. Interprete o sentido destas passagens do texto. a) a visão romântica da relação entre língua e pátria b) a qualidade de ser português será gostar de futebol c) a [...] tristeza marca o destino de qualquer português que se preze d) não vem nenhum mal ao mundo quando isso acontece e) bem longe estão os lusófonos de a falarem la língua de Camões] 2. Substitua a palavra ou expressão sublinhada por outra equivalente em português. a) existe uma "qualidade de ser português", o que quer que isso queira dizer b) uma tal noção enviesada de lusofonia parece esquecer os falantes c) de acordo com alguns manuais de língua, ser português é sentir saudade d) passar a vida na praia e) a bem da língua e do próprio Camões, tudo ficaria mais claro se... PARA IR MAIS LONGE... ► Pense em como traduziria estas expressões na sua língua. a) ter jeito para as línguas b) ser um ás em alemão c) desenrascar-se em francês d) arranhar o inglês e) o meu espanhol dá para o gasto 214
CAMÕES SEM C.* - Edkjfle» Técnica», lj PALAVRAS CARAS 3. Escolha a palavra indicada para o contexto dado. a) mapa / planta > um do mundo / uma de uma casa b) aula / turma > uma de alunos / uma de geografia c) mala / pasta > uma _ de cabine / uma de documentos d) caneca / taça > uma de cereais / uma de cerveja e) carta / letra > uma de apresentação / uma do alfabeto 4. Complete os termos do percurso escolar (em Portugal). a) Aos 6 meses, a Maria João entrou para a c _ e _ h b) Na escola primária, era boa aluna e tinha sempre t _ s altas nos testes. c) A sua d i_l a preferida no secundário era matemática. d) Teve altos e baixos, mas terminou com uma _ é a de 16 valores. e) Mais tarde, aos 18 anos resolveu tirar o c _ r de arquitetura. f) Após a licenciatura, prosseguiu os estudos com um m _ _ t _ a _ g) Agora, está a fazer um e _ t i _ num reconhecido estúdio de arquitetos. 5. Qual é o adjetivo adequado? arrojado(a) / despropositado(a) / enviesado(a) / irrefutável / tácito(a) / transversal a) Uma resposta: que não tem pés nem cabeça. b) Um argumento : tão convincente que nem se discute. c) Um entendimento _ : não dito, mas aceite por todos. d) Uma proposta: ousada e inovadora. «215»
QUIOSQUE LITERÁRIO e) Um raciocínio supostos falsos. f) Uma questão torto ou assente em pres- : que toca vários domínios. MÃOS À OBRA 6. Preencha os espaços com os elementos de coesão presentes no texto noutras situações. aliás / embora / daí / decerto / muito além / por sua vez a) A palavra “ananás", de origem tupi, foi populari¬ zada no século XVI. b) 0 seu sotaque não me é estranho, não o esteja a conseguir identificar. c) A Elsa sabe falar norueguês. . tem um diploma de nível avançado. d) O Norte é linguisticamente conservador; o Sul, , é inovador. e) Eles têm mãe portuguesa e pai irlandês,serem bilingues. f) A influência grega na nossa língua vai do que pensamos. 7. Sublinhe a forma verbal adequada nestas orações condicionais. Siga o exemplo. Exemplo: Se ficássemos pelo sentido original, tudo seria / teria sido mais fácil. a) Se quiseres / quisesses, podemos trocar impressões sobre o assunto. b) Agradeço / Agradecia se me pudesses explicar o que se passou. c) Fico muito contente se me trouxeres / trouxesses uma garrafa de espumante. d) Se viesses / tivesses vindo à festa, tinhas conhecido os músicos. «216»
CAMÕES SEM C.« e) Já acabarias / terias acabado o trabalho se tivesses começado mais cedo. f) Se eu te tivesse dado ouvidos, não estaria / estarei nesta situação. 8. Faça a correspondência de forma a completar as frases. a) Ele nunca explica o que quer 1. qual for. b) É ela quem decide, pode fazer 2. que seja. c) Escolhe tu o filme, eu posso ver 3. que se preze. d) De certeza que há uma explicação, seja ela 4. o que bem quiser. e) E uma canção conhecida por qualquer 5. um qualquer. angolano «217»
QUIOSQUE LITERÁRIO EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA EU ACHO QUE... a) Faça um resumo da posição expressa neste texto relativamente ao uso da expressão "língua de Camões" no ensino. b) Como interpreta o título deste texto? c) Visto que o adjetivo "luso" se refere exciusivamente a Portugal ou aos portugueses, a escolha do termo "lusofonia” para designar a comunidade dos povos onde se faia a língua portuguesa levanta, por vezes, objeções. Qual é a sua opinião sobre esta questão? d) Dificilmente se pode ensinar uma língua sem abordar certos aspetos culturais de uma nação ou de um povo. Está de acordo? Porque é que acha que isso acontece? e) Enumere os estereótipos sobre o seu país ou a sua nação que pensa que poderia encontrar folheando as páginas de um manual de ensino da sua língua para estrangeiros. f) As línguas são corpos vivos, em contínua evolução. Como imagina o futuro da língua portuguesa? Quem serão os seus falantes? SEM PAPAS NA LÍNGUA a) Imagine agora que vai dar aulas de conversação na sua língua a um estrangeiro. Como organizaria as suas aulas? Proponha um plano para as primeiras 4 sessões: para cada aula, escolha um tema de conversa, inclua uma referência cultural e proponha uma atividade do tipo "sem papas na língua". b) Português Europeu, Português do Brasil: que sensações estas duas variedades lhe transmitem? Fundamente a sua opinião com dois excertos gravados (por exemplo, discursos, notícias no telejornal, canções, etc.). - 218 ►
CAMÕES SEM C.« ESCRITA CRIATIVA a) Conhece o termo "ucronia", usado para ficções baseadas numa História alternativa, que não aconteceu mas podia ter acontecido? Escreva a entrada imaginária de uma enciclopédia online de uma personagem histórica inexistente, descrevendo de forma acurada a sua biografia e o contributo relevante que poderia ter dado para a Humanidade. b) Imagine na primeira pessoa, e de forma bem-humorada, o dia de um cidadão típico do seu país, na versão mais estereotipada. Descreva um dia comum, que começaria com um hábito equivalente ao de “tomar uma bica e comer um pastel de nata" em Portugal. PARA IR MAIS LONGE... a) Sugestão de leitura: Uma viagem à índia, de Gonçalo M. Tavares (Lisboa: Editorial Caminho, 2010). Trata-se de um romance que reflete sobre o tempo presente, retomando a estrutura e alguns tópicos d'Os Lusíadas, de Luís de Camões. b) Sugestão de filme: Fantasia lusitana, de João Canijo (Portugal, 2010). Neste documentário, o autor problematiza a neutralidade portuguesa durante a 2.9 Guerra Mundial através de vários testemunhos de refugiados que passaram por Portugal na década de 1940. c) Sugestão de canção: “Língua", de Caetano Veloso (do álbum Vêlo, 1984). Esta canção foi escolhida pelo compositor para celebrar os 500 anos do achamento do Brasil, em 2000, no álbum Noites do norte (ao vivo). Estes são os primeiros versos: "Gosto de sentir a minha língua roçar a língua / de Luís de Camões." - ds. 219
SOLUÇÕES "Negros” / Adriana Calcanhotto 1. a) Normalmente. o sol tira vivacidade às cores, mas não no caso dos negros, b) Quando o sol avança, as sombras também se movem, c) As goteiras só exercem a sua função quando chove, d) Sem chuva, a água das poças evapora, e estas acabam por desaparecer, e) Fala de alguém que observa com admiração o andar de uma mulher. 2. a) apenas, não mais do que; b) tornam-se. passam a ser; c) caminhar, movimento; d) observo, tento interpretar; e) compreendo, percebo. 3. a) ajudar; b) ultrapassar uma situação difícil; c) ser teimoso; d) voltar para trás; e) exibir-se; f) dar facilmente; g) estragar; h) reconhecer um erro; i) ser útil; j) revelar um segredo. 4. a) 6; b) 4; c) 1; d) 5; e) 2; f) 3. 5. a) unha encravada; b) bocejar; c) pôr ao colo; d) barriga da perna; e) assobiar; f) dormitar. 6. a) no ... a; b) ao... à; c) o... da; d) na... as; e) o... na; f) a... da. 7. a) duas joaninhas vermelhas; b) dois flamingos cor-de-rosa; c) duas raposas cor de laranja; d) dois tucanos azul-escuros; e) duas osgas amare- lo-torrado; f) duas rãs verde-claras; g) dois sapos verde-azeitona; h) duas borboletas violetas; i) dois linces beges; j) dois camaleões azul-turquesa. 8. a) Não comprei nenhuma banana. / Não comprei bananas nenhumas. / Não comprei nada, b) Não deve estar ninguém em casa, c) Ainda ninguém chegou. / Ainda não chegou ninguém, d) Não fez nada pelo pais, e) Ele não é nada ansiosu. f) Ela não telefonou a nenhum familiar. / Ela não telefonou a familiares nenhuns. / Ela não telefonou a ninguém, g) A Sofia nunca viaja de comboio, h) Ainda não fiz nenhum exercício. / Ainda não fiz exercícios nenhuns. "Date” / Aline Bei 1. a) Gostava de conseguir participar, não ser espectadora passiva do que acontece, b) Tento fazer o melhor possível (mas sem grande empenho). % c) Você reflete sobre a minha resposta esquiva, {pouco franca, d) O que me aconteceu? Estaria louca? e) Ainda é possível mover a minha mfto na sua direção. 2. a) vejo com dificuldade, quase não | vejo; b) altero o tópico da conversa, falo de outra 7 coisa; c) o quê? o que disse?; d) não se preocupe, i deixe pra lá (PB) = deixa lá (PE); e) oxalá, tomara. • 3. a) orgulho; b) pudor; c) atração; d) repulsa; e) rancor; f) remorso. 4. a) maçadora; b) bajulador; c) grande folião; d) picuinhas; e) avarento; f) gabarolas. 5. a) 4; b) 6; c) 5; d) 1; e) 7; f) 3; g) 2.6. a) para; b) para; c) por; d) por; e) por; f) por; g) para; h) por; i) por; j) para; k) por; l) para. 7. al) PB; a2) PE; bl) PE; b2) PB; cl) PB; c2) PE; dl) PB; d2) PE; e1) PE; e2) PB. 8. a) morta; b) matado; c) suja; d) solto; e) salvado; f) acesa; g) impresso,- h) eleito; i) entregue; j) preso. "É bom lembrar lembranças dos outros” / Ana Martins Marques 1. a) Não há palavras originais, já todas foram usadas por outras pessoas, b) Pernoitar (passar a noite) em casa de um amigo, talvez de forma inesperada, c) Fazer as coisas como esse amigo costuma fazer, d) Apropriar-se de um sonho que ele tem frequentemente, e) Tentar corresponder à imagem com que essas pessoas ficaram de nós. 2. a) alguém que, uma pessoa que; b) ainda que seja, mesmo se for apenas; c) de vez em quando, ocasionalmente; d) inesperadamente, subitamente; e) segundo, respeitando. 3. a) conviver; b) implicar; c) antecipar; d) executar; e) esconder; f) surtir efeito. 4. a) corajoso(a); b) justo(a); c) versátil; d) intuitivo(a); e) honesto(a); f) excêntrico(a); g) rancor oso(a); h) ciumento(a); i) teimoso(a); j) volúvel; k) competitivo(a); I) pretensioso(a). 5. a) balde e esfregona; b) espanador; c) regador; d) esponja; e) aspirador; f) tábua de passar; g) pá e vassoura; h) escova; i) alguidar*, j) pano; k) molas; I) cesto do lixo. 6. a) de quem; b) que; c) a quem; d) em quem; e) com quem. 7. a) porém; b) por; c) Contudo; d) Portanto; e) Logo; f) Caso. 8. a) O poema foi publicado no jornal, b) O poema foi lido em voz alta, c) O poema foi traduzido para francês, d) O poema foi guardado na gaveta, e) O poema foi mantido inalterado, f) O poema foi descoberto por uma investigadora, g) O poema foi feito a quatro mãos, h) O poema foi divulgado nas redes sociais, i) O poema foi dito por um artista, j) O poema foi posto à entrada da escola. "Óculos de sol” / Frederico Lourenço 1. a) A luz de Lisboa é tão intensa que até magoa, b) Toda a gente acha que ele é gay, mas isso não é verdade (ironicamente: ele não usufrui dessa suposta vantagem), c) Como é habitual nas sitcoms. d) Escapam á pior das situações, e) Deve ser duro ser considerado um disfarce, apenas uma estratégia para dissimular. 2. a) porque é que. por que motivo; b) há algum tempo, no passado; c) de maneira 221
QUIOSQUE LITERÁRIO nenhuma, de modo algum: d) a dado momento, de um momento para o outro; e) tolalmente, comple tamente. 3. a) 2; b) 3; c) 7; d) I; e) 6; f) 5; g) 4. 4. a) colarinho; b) luvas; c) xaile; d) suspensórios; e) chinelos; f) fraldas. 5. a) 2; b) 4; c) 5; d) 6; e) 3; f) 1. 6. a) com ... a; b) poi ... corn ... a: c) Para ... por ... sobre; d) sobre ... para. 7. a) 5; b) 3; c) I; d) 2; e) 4. 8. Exemplas-. a) Se eu usasse um piercinq no nariz, os meus amigos ir iam adorar, b) Se eu pusesse rastas no cabelo, teria dificuldade para o lavar, c) Se eu vestisse roupa do século XIX, as pessoas iriarn olhar para mim na rua. d) Se eu quisesse mudar o visual, pintaria o cabelo de amar elo, e) Se eu fizesse uma tatuagem no pescoço, os meus pais iriam zangar-se comigo, f) Se eu trouxesse urn kill da Escócia, teria de usar cuecas, g) Se eu rne pa recesse corn um ator / uma atriz, as pessoas iriam abordar-me na rua. h) Se eu fosse mais alto, conseguiria tocar no teto. "Espiral” / Geovani Martins 1. a) A diferença entre os dois mundos (favelas e bairros de classe média) é enorme. b) Não éramos considerados fortes, e. norrnalmenle. éramos nós que sentíamos rnedo dos outros, c) Pouco a pouco, compreendia o que rne levava a agir daquela forma, d) Parecia urna família artificial, demasiado bonita para ser real, e) 0 facto de não saber como ia terminar aquele confronto per turbava ine. 2. a) lentcimente, pouco a pouco,- b) embora diferentes, ainda que diversos; c) fora a. salvo a; d) pois, visto que; e) para os dois, para um e para o outro. 3. a) atrás; b) volta; c) levantou; d) encheu; e) atrair. 4. a) despistar; b) explodir; c) perseguir; d) segurar; e) cumprimentar. 5. a) 4; h) 5; c) 6; d) 2; e) 1; f) 3. 6. a) Quanto mais o tempo passa, mais difícil é esperar. b) Quanto mais os países investem, melhor é o sistema de ensino, c) Quanto mais a cidade se expande, maiores são as favelas, d) Quanto maior é a desigualdade, mais forte é a revolta, e) Quanto mais a pobreza aumenta, piores são as condições de vida. 7. a) agir humanamente; b) ria-se nervosamente; c) andei velozrnente; d) pedi gentilinente; e) disse veementemente; f) resolvemos facilmente; g) falava naturalmente; h) escrevia lentamente; i) paraste bruscamente; j) exprimia-se cornummente. 8. a) Sabia que tu dirias a verdade, b) Acreditavas que o aluno passaria no exame? c) Ele achava que eu faria o jantar, d) Tínhamos a certeza de que vocês voltariam aqui, e) Elas estavam convencidas de que nós ganharíamos o concurso. "Menos dois” / Gisela Casimiro 1. a) 0 colega tem ascendentes de várias origens, de Moçambique á índia, b) 0 cabelo leva algum tempo a reencontrar a própria forma, c) Talvez tenha lido mais do que vivido, d) Não tenho uma identidade definida, e) Já nem ligamos, não estamos para nos incomodar, náo vale a pena. 2. a) por si mesmo, pela própria natureza; b) até como, inclusivamente pelo facto de serem; c) na verdade, se pensarmos nisso; d) compreenderia se. caso; e) agora não dá, falaremos disso noutra altura. 3. a) tremer; b) engasguei-me; c) espirrar; d) soluços; e) coçar -me. 4. a) 4; b) 6; c) 7; d) 5; e) 3; f) 1; g) 2.5. a) Náo faltava rnais nada, b) Tomara que sim! c) Deixa lá. d) Já agora.... e) Estava-se mesmo a ver. 6. a) rumo; b) uma à outra; c) já nem; d) ia caindo; e) passa pela cabeça; f) quero dizer. 7. a) tão; b) tonto; c) tão; d) tanta; e) tão,- f) tantos; g) tão; h) tâo; i) tantas; j) tanta. 8. a) de mim; b) para mim; c) comigo,- d) a mim; e) comigo; f) para mim; g) comigo; h) a mim; i) por mim; j) de mim; k) comigo; l) por rnim. "Chegámos” e "O fruto da acácia” / Hélder Faife 1. a) A manhá ilumina progressivamente a cidade, b) Ser vendedor de rua implica paciência e esforço, pois é duro estar exposto ao sol o dia todo, c) A venda na rua nfto é feita de forma legal, náo está sujeita a imposto, d) A vendedora expõe os frutos num monte, e) E calcula quanto ganhou. 2. a) durante a noite, ao fim do dia; b) durante o dia. ao longo do dia; c) mesmo que, embora; d) oferece, produz; e) porém, contudo. 3. a) laranjeira; b) macieira; c) bananeira; d) pereira; e) pessegueiro; f) figueira; g) cerejeira; h) castanheiro/a; i) amendoeira; j) nogueira. 4. a) 3: b) 6; c) 1; d) 5; e) 2; f) 4. 5. a) fingir; b) náo ceder logo a um pedido,- c) querer muito; d) teimar; e) refletir para ficar com as ideias mais claras; f) não dar atenção; g) ridicularizar alguém; h) fingir que não se está a compreender algo; i) agir de forma caprichosa, como as crianças; j) armar confusão. 6. a) à ... aos; b) da ... pela; c) na ... ao/no; d) para ... com; e) ao ... no. 7. a) Ainda que a acácia nao dê frutos, é uma árvore frondosa, b) Antes que os fregueses cheguem. a mercadoria tem de estar exposta, c) Caso tenha dúvidas, contacte nos. d) Embora estejamos abertos, tem de bater á porta, e) Sem que a gerente concorde, não posso vender fiado, f) Para que possamos abrir a conta, é necessária a sua assinatura 8. a) pré-história,- b) autorretrato,- c) coautor; d) micro-ondas; e) ex-presidente; f) pós-graduação; 222
SOLUÇÕES g) autoestrada: h) subaluguer; i) anti-higiénico-, j) contra-ataque: k) intei disciplinar; l) antissocial. “A solteirona" / Isabela Figueiredo 1. a) O técnico já apresentava sinais de impaciência peta espera, b) Tinha uma atitude de pessoa que sabe tudo e não faz cerimónias, c) (irón.) Infetizmente para algumas pessoas, as mulheres solteiras já náo correspondem aos estereótipos, d) Aquele nome foi uma decisão do destino: é um trocadilho porque "fado” significa "destino", e Camané é o nome de um cantor de fado (estilo musical português), e) No fundo, todas temos uma parte pouco racional. 2. a) deitar fora, deitar para o lixo; b) pensemos no assunto, vamos lá pensar nisto; c) sou favorável a, voto em; d) revi há pouco tempo, acabei de rever; e) ainda que seja, nem que seja. 3. a) namorado(a); b) noivo(a); c) casado(a); d) parceiro(a) ou companheiro(a); e) amante; f) separado(a); g) divorciado(a); h) viúvo(a). 4. a) a fidelidade; b) a constância; c) a preguiça; d) a sensibilidade; e) a ansiedade; f) o atrevimento; g) a teimosia; h) a simplicidade; i) o altruísmo; j) a modéstia: k) a vaidade; l) a coragem; m) a maturidade; n) a estupidez. 5. Exemplos-, a) O casamento, essa instituição obsoleta; b) Ser solteira é para rebeldes; c) Episódios domésticos; d) Uma manhã desastrosa; e) Fico tontinha quando estou apaixonada. 6. a) dão-me atenção; b) sai-me barato; c) Veja lá; d) mandam-lhe bocas; e) Até me sinto; 7. a) marco/marquei; b) conheço/conheci; c) sigo/ segui; d) dou/dei; e) caio/caí; f) nego/neguei; g) obtenho/obtive; h) receio/receei; i) redijo/redigi; j) ouço/ouvi; k) elejo/elegi; I) descubro/descobri; m) disponho/dispus; n) concluo/concluí; o) ergo/ ergui; p) caibo/coube. 8. a) Casar-te-ás. b) Empe nhar-se-á. c) Reunir-nos-emos, d) Inscrever-se- -ão. e) Pentear-me-ei. f) Explicar-te-ei. g) Ajudá -la-á; h) Contactar-nos-ão. i) Escrever-lhe-ás. j) Recebê-lo-emos. "Portugal" / Jorge Sousa Braga 1. a) Espero que os meus ilustres antepassados sejam tolerantes: alusão à tetra do hino nacional de Portugal na qual os antepassados são charna- g dos "egrégios avós", b) O futuro será perfeito para Portugal, c) Estava a tentar tornar-me fanático pela '* expansão portuguesa, d) Procurei em todos os ar- v. quivos da Torre do Tombo, e) Não faz mal. está tudo 7 bem {sarcástico). 2. a) não tive culpa, não foi por á minha causa; b) não fazes ideia, não te passa pela • cabeça; c) frequenta a, costuma ir à; d) nem sequer uma pétala, uma única pétala; e) como foi possível apaixonar-me, o que aconteceu para eu me apaixonar. 3. a) Anos 20; b) sufrágio; c) poder absoluto; d) primeiro-ministro; e) Perspetiva; f) sebastianismo. 4. a) 2; b) 5; c) 6; d) I; e) 3; f) 4. 5. a) 4; b) 1; c) 5; d) 2; e) 3. 6. a) a ver se; b) chego a; c) ia agora; d) Ando na; e) faz-me sentir que: f) estou na. 7. a) cento e doze; b) seiscentos e cinquenta e oito; c) mil quinhentos e quarenta e três; d) dois mil e dezassete; e) trezentos e sessenta e cinco. 8. a) Encontrei uma lâmpada que funcionava. / Não encontrei uma lâmpada que funcionasse, b) Encontrei uma caneta que escrevia bem. / Nao encontrei uma caneta que escrevesse bem. c) Encontrei uma estação de rádio que dava noticias. / Não encontrei uma estação de rádio que desse notícias, d) Encontrei um anúncio que exigia experiência. / Não encontrei um anúncio que exigisse experiência, e) Encontrei uma loja que fazia descontos. / Não encontrei uma loja que fizesse descontos, f) Encontrei um móvel que cabia na cozinha. / Não encontrei um móvel que coubesse na cozinha, g) Encontrei um táxi que vinha vazio. / Não encontrei um táxi que viesse vazio, h) Encontrei um supermercado que trazia as compras a casa. / Não encontrei um supermercado que trouxesse as compras a casa. "Perto e longe" / Kalaf Epalanga 1. a) Parece que vai chover, mas, afinal, isso não acontece, b) Curioso e nostálgico em relação a um tempo que não conheci, c) Na década de 1990, houve ataques de skinheads no Bairro Alto, por isso era preciso ter cautela nessa zona, d) Contribuir para o desenvolvimento de Angola, e) Privilegiar o multiculturalismo e combater a ideia de uma identidade única e inalterável. 2. a) mal, logo que; b) é preciso, temos de; c) já viram, já deram conta de; d) em vez disso, como alternativa; e) perante, face a. 3. a) 4; b) 6; c) 1; d) 3; e) 2; f) 5. 4. a) selo; b) ir ao cinema; c) montra; d) farol; e) bateria; f) nadador-salvador. 5. a) sotaque; b) nômadas; c) conterrâneo; d) nostalgia; e) cena; f) origem. 6. a) na ... ao/no; b) 0 ... com; c) ao ... 0; d) da ... no; e) com ... na. 7. a) vê; b) —; c) —; d) saí; e) saia; f) mantém; g) h) têm; i) -; j) dói; k) --; l) instruía. 8. a) Um continente cuja superfície é extensa, b) Uma nação cujas fronteiras são vigiadas, c) Uma região cujos transportes são eficazes, d) Uma cidade cuja população é multilingue. e) Uma avenida cujas árvores são bonitas, f) Uma capital cujos bairros são modernos. g) Uma zona cujas aldeias são tradicionais, h) Um planeta cuja atmosfera é irrespirável. 223
QUIOSQUE LITERÁRIO “A amiguinha da Rosa" / Lindacy Menezes 1. a) Em caso de ausência de uma. a outra assume os cuidados com a criança, b) Aquele novo pedido íezme ficar menos solicita c) Como no passado eu náo pude viver aquela felicidade, ficaria consolada ao ajudar alguém, d) Às vezes, só o trabalha permite ultrapassar os desgostos, e) Estava táo absorvida pelo trabalho que não dei conta de toda a agitação que havia em casa. 2. a) desse modo, dessa forma; b) imediatamente, naquele exato mo ¬ mento; c) mas, no entanto; d) seria suficiente para, tornaria possível; e) por acaso, de forma inconsciente. 3. a) dar os bons-dias; b) ser promovido; c) fazer cerimónia; d) decorar a mesa; e) um chá. 4. a) 5; b) 3; c) 6; d) 2; e) 1; f) 4. 5. a) à espreita; b) a boleia; c) ao calhas; di a olho; e) à der iva; f) ao pormenor. 6. a) Ela é minha amiga, portanto ofereci- me para ajudar. / Ela é minha amiga, pela que me ofereci para ajudar, b) Eu tinha muito trabalho, mas caprichei. / Embora tivesse muito ti abalhu, capr i- chei. c) Esforcei-me para o resultado ser bom. / Esforcei me de modo a que o resultado fosse bom. d) Quando percebi que a festa era para mim, fiquei surpreendida. / Ao perceber que a festa era para rnim. fiquei surpreendida. e) Se ela precisar da minha ajuda outra vez, pode conta: comigo. / Caso ela precise da minha ajuda outra vez, pode contar comigo. 7. a) Queria pedir -te um favor, b) Está bem - aceitei, c) Pede à tua amiguinha para aparecer lá em casa, d) Tinha o sonho de ser levada até ao saldo pelo meu pai. e) Má momentos em que o trabalho é a única saída 8. a) fizesse; b) estivei; c) fosse: d) preparasse: e) vier, f) houver. "Gentrificasambe" / Luca Argel 1. a) Toda a cidade se vai converter ao fenómeno dos arrendamentos locais, b) Desde que a moda começou (sem enquadramento nem limites), c) Dei o meu acordo, d) Vai ser maravilhoso, e) Se eu tivesse sabido mais cedo que ia ser assim, tinha feito alguma coisa para aproveitar a situação. 2. a) já ouvi dizer, já me contaram; b) as pessoas que, aqueles que; c) têm gratuitamente. beneficiam de; d) já só quero, mal posso esperar para; e) deixar de pagar renda, deixar de ser inquilino. 3. a) loja de roupa; b) café; c) bumba de gasolina; d) lavandaria; e) restaurante; f) cabeleireiro. 4. a) 6; b) 4; c) 1; d) 2; e) 3; f) 5. 5. a) guia. mapa, dicionário; b) toalha. cesta, chapéu; c) saco, dinheiro trocado, lista de compras; d) bilhetes, cartão multibanco, livro; e) toalha de praia, óculos de sol. protetor solar; f) mochila, botas, farnel (uma sondes e uma garrafa de água). 6. a) 4; b) 6; c) 2; d) 3; e) 5; f) 1. 7. a) A cidade vai transformar-se num tiotel. b) A cidade está a mudar, c) Tudo se vai transformando, d) Já bateram a minha porta, e) Os meus votos vão para o indivíduo... 8. a) Quando eu contactar o condomínio, aviso-te. / Quando o condomínio for contactado, aviso- te. b) Quando eu fizer obras em casa, aviso-te. / Quando as obras em casa forem feitas, aviso-te. c) Quando eu vir o contrato, aviso-te. / Quando o contrato for visto, aviso-te. d) Quando eu escrever a ata da reunião, aviso-te. / Quando a ata da leuniôo for escrita, aviso-te. e) Quando eu puser os móveis na sala, aviso-te. / Quando os móveis forem postos na sala, aviso-te. f) Quando eu der as chaves ao inquilino, aviso-te. / Quando as chaves forem dadas ao inquilino, aviso-te. g) Quando eu souber a causa do problema, aviso-te. / Quando a causa do problema for sabida, aviso-te. h) Quando eu assinar a escr itura, aviso-te. / Quando a escritura for assinada, aviso-te. "Colonialismo culinário" / Lucy Pepper 1. a) A receita proposta pela revista Good Food inclui nata nos ingredientes, visto que os pastéis se charnam "pastéis de nata", b) O toad in the-hole (receita inglesa com salsichas) não se faz com sapos, embora o nome desse prato inclua a palavra tood(sapo). c) De repente, o pastel de nata tornou- -se um doce muito popular, d) O caldo verde proposto por Nigel Slater é ridículo (porque nâo lem nada que ver com um autêntico caldo-verde), e) É muito difícil tornar um cozido à portuguesa esteticamente atrativo. 2. a) um pouco, algo; b) caramba, então; c) após, ao cabo de; d) exceto se houver, a menos que haja; e) visto que falamos disto, aproveito para dizer. 3. a) 4; b) 1; c) 5; d) 2; e) 6; f) 3.4. a) D; b) A; c) B; d) A; e) D; f) B; g) C; h) A; i) C; j) D; k) D; l) A; m) C; n) A; o) C; p) C; q) B; r) D; s) B; t) D. 5. a) 3; b) 5; c) 6; d) 1: e) 4; f) 2. 6. a) deve ser; b) a máo; c) que ver; d) a mal; e) faz mal. 7. a) apesar de; b) a não ser que; c) além de que; d) Fora; e) ainda que. 8. a) Antes de mais; b) Na sua opinião; c) ainda por cima; d) segundo: e) assim; f) No entanto; g) Em conclusão. "Marquises" / Luís Henrique Pellanda 1. a) Todos juntos, de forma compacta, partilhamos as nossas inquietações sob a chuva, b) As botinas estão velhas e a sola nâo adere, parece urn sorriso desenhado, c) A sacudir a chuva do casaco, d) Tem uma vontade súbita de ajudar o outro, e) Irrita-se rapidamente, perde logo a calma. 2. a) não 224
SOLUÇÕES dá importância à, não presta atenção à; b) mostra intenção de, dá a perceber que quer; c) a verdade é que você quer, aquilo que você quer é; d) encontra uma explicação, chega a uma conclusão,- e) ter pena, condoer-se. 3. a) Serve para iluminar, b) Serve para enviar correspondência, c) Serve para apagar um possível incêndio, d) Serve para escoar as águas na rua. e) Serve para guardar e proteger as bicicletas, f) Serve para depositar materiais para reciclagem. 4. a) saguão; b) mansarda; c) aquecedor; d) clarabóia; e) arranha-céus; f) cave. 5. a) a mulher do casal; b) o homem sentado; c) o velho; d) a moça; e) o executivo ou advogado; f) o homem sentado, a mulher do casal. 6. a) se... para; b) porque ... de; c) para ... com; d) que ... para; e) 0 ... 0. 7. a) dá-nos; b) a correr; c) Pede-lhe; d) procura, tenta; e) Tu (Tu também transmites doenças, já te esqueceste?). 8. a) Eu compro o bilhete online. / E se eu comprar o bilhete online? b) Eu estou sem dinheiro. / E se eu estiver sem dinheiro? c) Eu vejo se há outra companhia aérea. / E se eu vir se há outra companhia aérea? d) Eu quero pagar com cartão. / E se eu quiser pagar com cartão? e) Eu peço ajuda no balcão de informações. / E se eu pedir ajuda no balcão de informações? f) Eu faço a mala sozinho. / E se eu fizer a mala sozinho? g) Eu ponho o guarda-chuva na mala. / E se eu puser o guarda-chuva na rnala? h) Eu trago um presente. / E se eu trouxer um presente? "Mudos os tempos, mudas as vontades” / Miguel Januário 1. a) Com a passagem do tempo, as pessoas desejam outras coisas, b) Num tempo histórico que não entusiasma, as pessoas não sentem desejo, c) Os sofrimentos do passado têm um impacto no presente através da memória, d) A mudança das estações faz com que a paisagem se altere, ora verde na primavera ora branco de neve no inverno, e) A minha alegria transforma-se em tristeza. 2. a) o mundo inteiro, tudo; b) constanternente, sem parar; c) totalmente, sob todos os aspetos; d) se chegou a existir, se náo foi só imaginação; e) todos os dias, sempre. 3. a) aurora; b) crepúsculo; c) bimestral; d) outono; e) bissexto; f) década. 4. a) 4; b) 1; c) 5; d) 2; e) 3. 5. a) depressa; b) um desgosto; c) raiva; d) contente; e) pensão (pagamento de uma quantia regular); f) quieto. 6. a) Correm turvas as águas deste rio; b) Vós outros, que buscais repouso certo; c) Busque amor novas artes, novo engenho; d) Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades; e) Doces águas e claras do Mondego. 7. a) estado transitório; b) estado permanente; c) mudança de estado; d) continuidade; e) estado aparente; f) mudança de estado; g) estado transitório; h) continuidade. 8. a) mudança; b) tolerância; c) abundância; d) esperança; e) ignorância; f) liderança; g) concordância; h) vingança; i) vigilância; j) exuberância; k) repugnância; l) predominância; m) herança; n) distância; o) perseverança; p) alternância. "Redes sociais" / Paulo Varela Gomes 1. a) O jornal percorre as aldeias uma a urna para obter este tipo de informações, b) Éramos informados das cerimónias relativas às pessoas do lugar, c) Não havia esquecimentos, pelo que não cometíamos erros de etiqueta, d) O jornal é um elo entre os seus leitores, pois fala das questões que lhes interessam, e) Os laços entre as pessoas nas pequenas localidades não dependem das novas tecnologias. 2. a) de um bom r estabelecimento, de que fique bem depressa; b) deste género, assim; c) em todo o lado, em qualquer sítio; d) é um pouco como uma, é parecida com uma; e) são suficientes, não é preciso mais do que. 3. a) O bebé nasceu / veio ao mundo, b) A criança está doente / adoeceu, c) O João e o Vasco casaram / deram o nó. d) Os pais da Rita separaram-se / divorciaram-se. e) O Sr. Alves faleceu / morreu. 4. a) colina, monte, montanha, serra; b) regato, rio, mar, oceano; c) aldeia, vila, cidade, metrópole; d) cabana, vivenda, mansão, palácio; e) freguesia, concelho ou município, distrito, região. 5. a) 2; b) 4; c) 3; d) 5; e) 1.6. a) A ... à; b) à ... às; c) a ... a: d) Às ... à; e) a; f) à; g) a ... a; h) A... à; i) a; j) à; k) a ... à; l) às. 7. a) a mulher; b) a cadela; c) a europeia; d) a rainha; e) a luxemburguesa; f) a presidente; g) a atleta; h) a judia; i) a rapariga; j) a atriz; k) a alemã; l) a embaixatriz; m) a avó; n) a galinha; o) a princesa; p) a apresentadora. 8. a) a; b) para; c) por; d) por; e) de. "Inox” / Ricardo Torto 1. a) A minha missão era aproveitar o momento para persuadir o potencial cliente, b) Nunca bebi tanta água enquanto trabalhava! c) Vamos além do que a sociedade definiu para nós. d) A sociedade tem dificuldade em aceitar o que não está formatado segundo os seus parâmetros, e) Conseguia escapar à lógica imposta. 2. a) se pagasse, caso pagasse; b) na verdade, pensando bem; c) por meio do, a partir do; d) posto de lado, em suspenso; e) e além disso, e para mais. 3. a) autoestima; b) vaidoso(a); c) confiante; d) persistente; e) imaturo(a); f) realizado(a). 4. a) 3; b) 5; c) 6; d) 2; e) 1; f) 4. 5. a) de folga; b) 225
QUIOSQUE LITERÁRIO de repente: c) de cor-, d) de fugida; e) de vista; f) de antemão. 6. a) Eu dantes media 1,60 rn. mas agora jâ náo meço. b) Eu dantes ouvia música, mas agora já náo ouço. c) Eu dantes tossia muito, mas agoi a já não tusso, d) Eu dantes cabia no carro, mas agora já náo caibo, e) Eu dantes receava sair à noite, mas agora já náo receio, f) Eu dantes punha o despertador para acordar, mas agui a já nôo ponho, g) Eu dantes seguia as notícias, mas agora já não sigo, h) Eu dantes padecia de muitas doenças, mas agora já não padeço, i) Eu dantes dormia 8 horas seguidas, mas agora já não durmo, j) Eu dantes protegia o meu irmão, mas agora já não protejo. 7. a) Eis,- b) através; c) também; d) Porém; e) contrário; f) Nem; g) diante; h) Conforme; i) invés; j) Aliás; k) Além; I) Após. 8. a) uma casinha; b) um animalzinho; c) um favorzinho; d) uma mãozinha; e) um rapazinho; í) um adeusinhu; g) um irmãozinho; h) urna irrnfi- zinha; i) um jardinzinho,- j) um baldezinho: k) um cafezinho; I) um lapisinho; rn) um pastelzinho; n) um riozinho; o) urna tiazinha; p) um saquinhn. "A ocupação temporária" / Tatiana Faia 1. a) Respondo lhe como posso, com urna asneira que exprime surpresa, b) Estão tão bêbedas que ficam apáticas ou adormecem, c) A janela é como uma moldura, que per rnite ver a imagem dos dois rapazes a tocar violino, d) O vizinho aguarda as onze dn noite para telefonar à Polícia e, desse modo, atingir o seu objetivo, e) Sem saber como reagir, os vizinhos chegaram a |>ensar em deixar um aviso através de uma mensagem não assinada. 2. a) estou ao corrente, estou inteirada; b) estar mesmo para, estar na iminência de; c) ao longo da noite, a altas horas da noite; d) não é habitual, não é frequente, e) aparecerá certarnente, sem dúvida vai aparecer. 3. a) 2; b) 3; c) 5; d) 1; e) 4. 4. a) águas- >furtadas; b) quintal; c) vizinhos; d) ventoinha; e) autoclismo; t) escritório. 5. a) 5; b) 4; c) 2; d) I; e) 6; f) 3. 6. a) qualquer /nenhum; b) cujo,- c) perante,- d) até,- e) em que; f) onde. 7. a) leuJ falar / Itul falares / (ele, elal falar / Inósl falar mos / leles, elasl falarem; b) |eu] pedir / Itul pedires / (ele. elal pedir / [nós] pedirmos / [eles, elasl pedirem; c) leul ter / |tu] leres / [ele, ela] ter / Inósl termos / leles. elasl terem; d) [eul mostrar / [tuj mostrares / lele, ela] mostrar / Inósl mostrarmos / leles. elasl mostrarem; e) [eu] chegar / [tu] chegares / [ele. elal chegar / Inósl chegarmos / [eles, elasl cliegarem. 8. a) A nossa amiga Tatiana há de receber-me. b) Tu hás de ir ter connosco, c) Nós havemos de dar uma grande festa, d) Eu hei de fazer irnenso barulho, e) O vizinho há de telefonar para a polícia, f) Eu hei de passar a noite na prisão, g) Tu e ela hão de ter de pagar a fiança, h) Eu e tu havemos de voltar para casa sem dinheiro. "Um gesto raro" / Tércia Montenegro 1. a) Como ele se recusava sempre a fazer o que se II* pedia, dar-lhe a arma para as mãos era tei a certeza de que o tio Álvaro não a usaria, b) Fantasiar com o que aconteceu com as caras de outras pessoas, c) Via o meu próprio rosto nos meus familiares, d) A rapariga tinha características fisionómicas próprias das pessoas com síndrome de Down. e) A fotografia do tio vista de longe era apenas um conjunto de tr aços pouco nítidos. 2. a) cerca de. mais ou menos,- b) no fim de contas, em conclusão; l) no entanto, ainda assim; d) durante 20 anos, em 20 anos,- e) apenas, unicamente. 3. a) ir buscar, pegar; b) tirar, deixar cair; c) puxar, empurrar; d) atirar, agarrar, largar. 4. a) a casa de banho; b) o chuveiro; c) o frigorífico; d) o autocarro; e) o comboio; f) o elétrico; g) o telemóvel; h) o fato; i) o talho; j) o pequeno-almoço; k) o sumo; I) o gelado. 5. a) o cristianismo; b) o judaísmo; c) o islão; d) o protestantismo; e) a ortodoxia; I) o paganismo; g) o ateísmo; h) a crença,- i) a laicidade; j) a blasfémia; k) a heresia; I) a tolerância. 6. ai) bem; a2) bom,- a3) bem; <j4) boa,- a5) bom; a6) bem; bl) mal; b2) má; b3) mau; b4) mal; b5) má; b6) mau. 7. a) Abri-o com dificuldade, b) Vou fixá-las nos castiçais. c) Ele dispô-las na jarra, d) Os avós têm-no cheio de papéis, e) Nós trouxemo-los. f) Não o consertaste? g) Eu fi-lo na máquina nova, h) Põe-no à entrada, i) Tens de a inserir no envelope, j) Alguém o viu? k) Eles olearam na. I) É melhor protegê-la. 8. a) 4; b) 5; c) 6; d) 3; e) 2; f) 1. "Companheiras de casa" / Ana Bela Almeida 1. a) Já náo vivem nas residências universitárias, sempre muito limpas e iguais umas ás outras, b) Estão muito felizes, c) É realmente uma questão acertada, uma obsei vação perspicaz, d) De acordo com a tradição, as mulheres, quando saem de casa dos pais, nunca mais voltam a lá viver, e) Com toda a calma, ela explicou-me que há mais de dez tipos de tofu. 2. a) teria sido bom. tomara que; b) não custa nada, não apresenta dificuldade,- c) mas é. em vez disso,- d) à medida que, durante o tempo em que; e) muito, bastante. 3. a) penhorar; b) poupar ; c) matricular -se,- d) cartão de visita; e) prémio. 4. a) tornar; b) apanhar; c) tirar; d) apanhar; e) tirar; f) tomar,- g) apanhar; h) tornar; i) tirar; j) tomar; k) 226
SOLUÇÕES tirar; I) tomar; m) apanhar; n) tirar. 5. a) são todas sorrisos; b) de lés a lés-, c) através dos continentes; d) O que não falta é tofu. e) Este tofu não sabe a nada, f) Fiquei cheia de vontade de ir à Tailândia. 6. a) Oxalá tivesse feito sobremesa! b) Oxalá tivesses visto o filme! c) Oxalá tivéssemos ido ao parque! d) Oxalá tivesse guardado a chave! e) Oxalá tivessem ouvido as notícias! f) Oxalá tivéssemos tido férias! g) Oxalá tivesse trazido a toalha! h) Oxalá tivessem percebido as regras! i) Oxalá tivesses estado no concerto! j) Oxalá tivesse posto protetor solar! k) Oxalá tivéssemos comprado fruta! I) Oxalá tivesse lido as instruções! 7. a) cá; b) lá; c) cá; d) lá; e) cá ou lá; f) lá; g) cá; h) lá; i) cá; j) lá. 8. a) Elas dão-nos ao motorista, b) Pedi-lhe ajuda, c) Transmiti-lho. d) Pu-los na mala, e) Ofereceram-lhas, f) Vais buscá-lo à lavandaria? g) Vou contactá-la. h) Emprestou-lhos. i) Leva-la ao aeroporto? j) Deixaram-lha. "A Grande Luso-Sérvia" / Gonçalo Duarte 1. a) Punha de lado o que não lhe agradava e não pensava mais nisso, b) No seu meio social, seria bem-visto ter uma amiga tão original, c) Se a invenção é muito exagerada, ganha logo mais seguidores. d) Fazia de tudo para pertencer à cidade, mais do que eu. e) Procurava confirmar que estava com bom aspeto através de relances ao próprio reflexo. 2. a) apercebi-me imediatamente, compreendi naquele preciso instante; b) poucas horas depois, passadas algumas horas; c) ou algo desse estilo, ou coisa parecida; d) se bem me lembro, se não me engano; e) não tolalmente a sério, em tom de brincadeira. 3. a) mudança de estado; b) assentar no corpo; c) permanecer; d) ficar frustrado; e) localização; f) valor; g) ser adiado; h) combinar; i) estar doente; j) receber ou calhar em sorte. 4. a) 5; b) 1; C) 4; d) 2; e) 6; f) 3. 5. a) 3; b) 5; c) 6; d) 1; e) 2; f) 4. 6. a) Duvido que ela tenha regressado a Lisboa, b) Não acho que ele tenha visto o final do Big Brother. c) Não me parece que ela tenha tido três filhos, d) Espero que ele tenha ido á Grécia no verão, e) É provável que tenha feito escala em Belgrado, f) Talvez eles se tenham reencontrado. 7. a) quase não; b) muito; c) bastante; d) realmente; e) afinal. 8. a) aprendera; b) estivera; c) fizera; d) viajara; e) lera. "Camões sem C.*" / Joana Meírim 1. a) Perspetiva idealizada, própria do Romantismo, de que a língua se identifica com um determinado país, b) Segundo os estereótipos, todos os portugueses gostam de futebol, c) Há a ideia de que todos os portugueses são tristes, d) Não há problema nenhum em ser-se fiel ao sentido original das palavras, e) Os falantes de português de hoje nâo usam a mesma língua que usava Camões. 2. a) seja lá isso o que for, o que quer que isso signifique; b) essa, semelhante; c) segundo, tal como se pode ver em; d) estar sempre na. ir com frequência à; e) seria melhor para a, a favor da. 3. a) um mapa do mundo, uma planta de uma casa; b) uma turma de alunos, uma aula de geografia; c) uma mala de cabine, uma pasta de documentos; d) uma taça de cereais, uma caneca de cerveja; e) uma carta de apresentação, uma letra do alfabeto. 4. a) creche; b) notas; c) disciplina; d) média; e) curso; f) mestrado; g) estágio. 5. a) despropositada; b) irrefutável; c) tácito; d) arrojada; e) enviesado; f) transversal. 6. a) decerto; b) embora; c) Aliás; d) por sua vez; e) dai; f) muito além. 7. a) quiseres; b) Agradecia; c) trouxeres; d) tivesses vindo; e) terias acabado; f) estaria. 8. a) 2; b) 4; c) 5; d) 1; e) 3. - Ifcrnicat u» 1 227
Outras publicações HISTÓRIAS DE BOLSO - 2.° EDIÇÃO Gonçalo Duarte ISBN: 978-989-752-499-8 Formato: 15,3 x 23 cm Páginas: 184 Destinado a um público jovem e adulto, estudante de língua portugue- sa de nível B2/C1, este livro reúne 21 textos narrativos de autores lusófonos contemporâneos, anotados para facilitar a leitura. Inclui exercícios que permitem trabalhar aspetos sintáticos mais complexos e aplicar o vocabulário. Ideal para autodidatas (soluções no fim do volume) ou para utilização em aulas de nível avançado (para coda texto são sugeridos temas de conversação e de redação). Contos de Pepetela, Bernardo Carvalho, Adília Lopes, Altino do Tojal, José Eduardo Agualusa, Joana Bértholo, Marcelino Freire e Renata Py entre outros. PREPOSIÇÕES EM AÇÃO - MAIS DE 200 EXERCÍCIOS Carla Oliveira e Luísa Coelho ISBN: 978-989-752^73-5 Formato: 16,7 X 24 cm Páginas: 176 Livro constituído por 34 unidades, que tem como objetivo principal a aquisição, estudo e prática das principais preposições e locuções prepositivas da língua portuguesa. Foi concebido numa perspetiva de evolução da aquisição da língua, lendo em conta o momento de aprendizagem em que se encontra o utilizador. Assim, nas primeiras unidades, podemos observar que os conteúdos expostos estarão relacionados com urna fase mais inicial de contacto com a língua, estando os exemplos, exercícios e textos apresentados de acordo com esse momento de proficiência do aprendento. Ao longo das unidades, apresenta aspetos rnais complexos na utilização e comportamento das preposições e locuções prepositivas na frase. Apresenta 4 unidades constituídas apenas por exercícios de revisão. É um livro que permite um estudo e aprendizagem autónomos ou em aula, pois possui soluções para todos os exercícios propostos. Destina-se a um público jovem e adulto, e é indicado para todos os aprendentes de Português Língua Estrangeira, desde os níveis Al a C2, podendo também ser usado em outros contextos. Mdhw sobre os livros em www.lidel.pt
QUIOSQUE LÍTERARiO A literatura é um excelente meio para aprender uma língua estrangeira, já que pôe os estudantes em contacto com textos autênticos e usos originais da língua, permitindo-lhes desenvolver capacidades linguísticas e adquirir uma maior sensibilidade intercultural e capacidade de pensamento crítico. Quiosque Literário é simultaneamente uma antologia de textos literários contemporâneos em português e um manual de Português Língua Estrangeira (PLE) ou de Português Língua de Herança (PLH). Dirige-se a um público jovem e adulto de nível B2-C1-C2, em situação de sala de aula e/ou autodidata, graças às soluções que se encontram no final do livro. Cada um dos textos literários incluídos neste livro - uma canção, uma crónica, um poema ou um conto - é acompanhado por anotações de vocabulário e explicações que visam facilitar a sua leitura. Inclui: exercícios práticos para expandir o vocabulário e trabalhar questões gramaticais; tópicos de conversação, atividades de expressão oral e temas de escrita criativa; propostas de reflexão sobre tradução. No final de cada unidade, encontram-se sugestões de leituras, de filmes e de canções relacionadas com o texto lido. Organizado por Ana Bela Almeida, Gonçalo Duarte e Joana Meirim, Quiosque Literário inclui textos de: Adriana Calcanhotto ✓ Aline Bei y Ana Martins Marques ✓ Frederico Lourcnço -> Geovani Martins Gisela Casimiro ✓ llélder Faife ✓ Isabela Figueiredo ✓ Jorge Sousa Braga v Kalaí Epalanga ✓ Lindacy Menezes ✓ Luca Argel v Lucy Pepper ✓ Luís Henrique Pellanda ✓ Miguel Januário Paulo Varela Gomes *■ Ricardo Terto tatiana Faia ✓ Tércia Montenegro ISBN 978-989 752-594-0 II0FI |llllllllllll||llllllllll| IMUL 9 1’789897*525940 f I